terça-feira, 21 de setembro de 2010

Outra historinha. Nem um pouco suja: “Rascunho do Viaduto do Cha“. Sem Acento.

Eu olho pra cima. O céu está armando para chover. Eu acho que até dá tempo até que eu consiga chegar no meu carro. Você aperta o passo, deixa o piso liso de pedra-sabão pra trás. Sei que seus sapatos vão te trair se você colocar os pés no piso liso, então tentas seguir um pouco mais rápido.
Saio pensando na vida. Pensando no que estou fazendo dela. Agindo como se deixasse um maluco trancado dentro de uma sala acolchoada, debaixo da sala de jantar ou da sala de visitas. Deixo todo mundo escutar seus gritos, seus impropérios, suas verdades irritantes. Mas não assumo que, bem no fundo, queria ver esse bando de enfadonhos ter que lidar com o meu irmão zureta, como se estivesse no banco de uma rodoviária em plena e impune madrugada, sem ter para onde correr senão suportar aquilo que não enxergam pelos seus autovirtrais.
A chuva começa a cair. Um pingo precoce. Ele vem depois daquele empata-foda de umidade, vento e frio que antecede cada chuva. Aquele manto de água que fica na sua pele e não está ao mesmo tempo. O instante em que se sente rompendo camada após camada de teias de aranha. Passa pela sua infância tosca, pelos apelidos que falavam pra você no primeiro dia que chegou à escola nova, passa pela humilhação das aulas de Educação Física. Passa pela Catequese e pelas coisas que não entende. Passa pela primeira vez que te chamam para o cinema, apenas por amizade, passa pelo primeiro fora. Passa pelo desastre da sua primeira noite, pelo primeiro toco em entrevista de emprego. Passa por tudo isso, vai rompendo e seguindo em frente.
Eu sinto essas coisas. Mas você.... Você sente essas barreiras, essas teias ao seu redor. E quer passar por elas tão rápido quanto gostaria de passar pela vida. Esperando que, no fim da vida, você simplesmente recomece tudo do zero. Siga pela mesma trilha, com uma idéia nova ou outra no meio de todo esse processo intrincado, essa peça de Moliére que te chamaram pra interpretar na última hora.
O pingo não está mais sozinho. Ele tem companhia. Várias companhias. Você pensa nas suas companhias. Eu penso em quem andou me acompanhando todos esses anos. Aproveitadores, sanguessugas, pessoas que jamais se importaram? Pessoas contratadas para interagir comigo? Oras, você sabe que um dia terá que pagar direitos autorais se disser isso em voz alta.
Você pensa em quem chama de companheiros, pensa nas barreiras, pensa nos traumas, nas neuras, no inferno que é morar em uma cidade. Pisa em falso no calçadão, em pleno Viaduto do Chá. Maconheiros, camelôs, pobretões, ciganos-falsos e todo o resto da cidade em uníssono ri de sua cara. E tudo o que você consegue pensar são “Malditos sapatos escorregadios”.
Você remoi a sua vida inteira em um segundo. Eu tento acender um cigarro. Mas não fumo, nem tenho um cigarro no meu bolso. Quanta tolice.

2 comentários:

Deco Ica disse...

Malditos sapatos escorregadios. As lembranças, como o relato manuscrito, estavam se perdendo no tempo. Obrigado por me fazer relembrar.

Whiskey Jack disse...

poIS É, o mundo tenta, ele se diverte tentando derrubar a gente, mas temos que ser birrentos, cabeças duras. Podemos até cair, mas entre olhos lacrimejantes, nos levantamos e cuspimos na cara do mundo e dizemos "é só isso que vc tem? manda mais!" e continuamos andando.
A vida não é facil, mas nós a fazemos ser divertida.
Amigos, os bons amigos ajudam às vezes. às vezes, caem rindo com a gente.
abraço.