quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Mais uma historinha suja. “Baile Perfumado“.

Baile Perfumado
Por André Diniz

Ela tinha o cheiro da esponja de banho de Helena de Tróia. O perfume que saia de seus poros poderia atrair todos os navios da Hélade para uma batalha sangrenta, de décadas. O cheiro de suas roupas intimas, de seus lençois, das blusas de moleton guardadas no armário poderia render poesias, épicos, um filme com Keley Cuoco, Mel Lisboa e Deborah Ann Woll – todas em trajes sumários, levemente bêbadas, da pá virada. Essa menina. Uma mulher. Era uma coisa que ela fazia com naturalidade: balançava as mãos e, como se fosse um leque gigantesco, como daqueles que eu vi aos nove anos quando assisti escondido a Ligações Perigosas pela primeira vez, jogava seu perfume pelo ar.

Eu sou uma pessoa pervertida, não escondo isso de ninguém. Sou o tipo de pessoa que, ao ver uma bela bunda desfilando pelo calçadão do centro de São Paulo, para o que está conversando ou pensando para si mesmo e recito uma pequena oração. Um agradecimeto a Deus pela graça divina de ver uma bela bunda no meio de uma selva de concreto, vapor de enxofre e tabuletas de Compro Ouro. Agradecia uma coisa de... duas vezes por dia. Uns dias mais, outros dias menos.

Não sei bem quando comecei ou os motivos que me levaram a ser uma pessoa olfativa, quando se trata da mais bela obra de Deus desde os penhascos brancos de Dover. Lembro apenas que certa feita, não faz muito tempo, flagrei-me cheirando calcinhas dependuradas no chuveiro da casa de uma amiga, a quem eu visitava. Uma coisa completamente normal e desgrilada, na casa de uma estudante universitária, virou a minha picada no banheiro público berlinense de Christiane F, o meu começo de vicio só que sem a trilha sonora de David Bowie.

Nos projetos de relacionamentos que fui colecionando desde então, guiava-me mais pelos dotes odoríficos de minhas concubinas que, por de fato, seus dotes emocionais e em alguns dotes físicos. Obviamente não virei uma serpente para apenas sentir o cheiro da minha presa, mas tentem entender o meu lado: nem mesmo Brigitte Bardot com cheiro forte, daquele CC brabo, daqueles de ônibus lotado, só vai atrás quem é virgem ou quer mascarar sua própria homossexualidade com “Eu como qualquer coisa que sem mexa”.

Obviamente, eu acabei procurando terapia. Aliás, era necessário. Entrei numas de ficar cheirando o cabelo de mocinhas indo para o trabalho no ônibus. Acharam que eu era mais um daqueles tarados. E eu estava me comportando como um, confesso. Comecei a tentar achar alguma resposta na minha existência. Comecei a tentar ver a pintura como um todo, ver a tal beleza interior, aquela que não emana perfume. Até mesmo encontrei alguêm que me encaixava nas coisas que, em um passado bem remoto, procurava num relacionamento: gostar de cachorros, ficar em casa a ir num festival de rock, sexo daqueles que você perde peso como presente de aniversário, aquela coisa toda. Foi uma pessoa que bem, não era perfeita. Mas até aí, eu não era também. Nisso, fomos tocando a vida de uma maneira bem que tranquila, até que veio a bosta da minha vida. A minha danação.

Aconteceu num dia gelado de julho. Metrô vazio no comeco da tarde, véspera de feriado prolongado. Como se a cidade não estivesse morta o bastante. Ela veio até o meu banco para não ficar sozinha. Eu ia para o Terminal para buscar o meu carro no estacionamento. Fomos conversando, jogando besteira no ar. Até que ela acenou com a mão.

Meu caro amigo, me perdoe, por favor. Não tinha uma ereção daquelas, de levantar a bolsa com o laptop, desde a oitava série quando vi a Garotinha Ruiva subir a fileira de carteiras na minha direção. Aquela coisa nas minhas narinas foi quase um golpe dela com o Monte de Vênus na minha cara. Perdi o meu centro. Esqueci, naquele instante, da minha namorada, de todas as nossas viagens, de nossas declarações de amor.

Fui conversando da mesma maneira até chegar na minha estação. Fiz um cumprimento com a cabeça pouco antes do trem parar, sendo que ela também me seguiu. Fui até o meu carro, e ela entrou no banco do carona. Não consegui aguentar: puxei ela pro meu lado, roubei-lhe um beijo no pescoço que poderia ser usado mais tarde como evidência em processo por agressão com um desentupidor de pia.

Enquanto ela puxava os meus cabelos, ali naquele carro estacionado no terminal de metrô, invadi a blusa dela e meti aqueles peitos cheirosos na minha cara. Droga, eu quase disparei ali mesmo, sem mesmo colocar o time em campo, só com aquela visão dela, os mamilos rosados à mostra, deixando escapar aquele cheiro doce, meio de frutas e de ninfetas correndo pelo campo usando nada que uma coroa de flores silvestres na cabeça.

Caímos na Marginal e seguimos até o primeiro motel que havia, onde por quatro breves horas eu consegui meter como se eu tivesse 19 anos novamente. Com força, sem parar, apenas embalado pelo cheiro que vinha de seus pulsos, de seu colo, de seu pescoço. O cheiro que vinha de suas coxas, quando as lambia com o desejo de um gelato no verão cuiabano.

Depois de tudo aquilo, pouco antes de vencer a nossa hora no motel, perguntei-lhe qual era, afinal de contas, o nome do perfume que ela usava. Além do perfume, descobri o nome dela: Ellen. O nome da minha primeira paixão infantil. O nome daquela menina de cabelos compridos e escrita meio desengonçada. No instante em que descobri como mulher era bom.

Chamei um táxi pra Ellen, segui com o meu carro correndo para o shopping center, consegui pegar a perfumaria aberta. Comprei um vidro do perfume e segui para a casa da minha namorada. Sabia que, se ela sentisse aquele cheiro, estaria morto. Toquei a campainha, dei dois passos para trás e, no que ela abriu a porta, borrifei um pouco do perfume na frente dela, dizendo: “E aí, quer ter uma experiência girl-on-girl hoje?”, com a cara mais deslavada do mundo. Ela me abraçou, sentiu o cheiro e retrucou na hora: “Mas isso é cheiro de puta! Não gostei!”.

E naquele momento, naquele breve momento, minha Helena de Tróia, minha Ellen, por quem eu senti o sangue correr em minhas veias novamente por breves cinco horas, foi jogada em uma vala, metralhada e soterrada ainda respirando por um trator. Nem os militares durante a Guerrilha do Araguaia foram tão impiedosos com um sonho.

4 comentários:

Veranie disse...

Muito bom o texto André. Deveria escrever mais contos eróticos...rs

Deco Ica disse...

Gostei muito também, você não perdeu a mão!

E Vê, o André escreveu já alguns, pro nosso blog coletivo. Só não sei se ele quer que divulgue... hehe...

Anónimo disse...

Rá! Que truque barato o do perfume...
E que blog chato q não m deixa comentar em paz hunfs
bj
K.

Ana Paula disse...

Ok. Fiquei com ciúme. Mas já passou. rs. bjo!