quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Take me home.

Ele viveu as tardes de pagamento como se fossem luas cheias. De casa para o trabalho, do trabalho para casa. Os finais de semana, jogou as tralhas no porta-malas de sua Parati e levou a família para a praia. Imposto de renda, férias remuneradas, segurou com dignidade a impotência da segunda-feira depois de um feriado prolongado. Criou os filhos na terceira-via, evitou ao máximo trair sua mulher, com quem ficou por trinta e dois anos.

Ele estava na cama do hospital, vítima de seu AVC reservado. Sofreu ao ver a decisão da Libertadores. Correram com ele para o hospital, o plano de saúde lhe dava cobertura - mesmo limitada, ele tinha chances de sair.

Seus filhos fizeram uma peregrinação. Vieram de várias partes do mundo, cada um procurando um espaço em sua agenda para cumprir o ritual de passagem. Cordeiro de Deus, que tira os pecados do Mundo, tende piedade de nós. Não era religioso, mas pensou por um breve momento se tudo aquilo que lhe acontecera na vida - os troca-trocas na infância rural, as brigas no pátio da catequese, a vida de trabalho, os amores e amantes, os filhos e as noites em claro das febres - era uma recompensa, um teste ou simplesmente o jogar de búzios aleatórios sobre a peneira do Universo.

Era um sábado. Passava das onze. As visitas ja tinham ido embora, mas aguardavam na sala de esperas. Ele não gritou, não pediu para ficar. Não puxou a cordinha de emergência para alertar os plantonistas. Abriu os olhos. Viu sua primeira namorada, com o mesmo uniforme normalista. Ela o chamou para sair.

Levantou-se, pegou a chave de suas mãos, foi ao pátio do hospital. Entrou no seu calhambeque, e seguiu pela estrada. Viu os ipês da rua lhe saudarem com flores amarelas, como César chegando das conquistas. Engatou a quinta marcha, fez barulho por todas as casas da vizinhança rica. Ninguém ouviu.

E ele foi para casa.

2 comentários:

Guilherme C. Grünewald disse...

Parabéns, um PUTA texto!

Deco Ica disse...

Triste bagarai isso aí.