sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Cavaleiro Branco

A noite no 175º DP, em um bairro ermo de São Paulo, seguia calma e irremediavelmente quieta. A noite úmida de verão atraía as aleluias para os postes da rua, enquanto algumas crianças mais mal-educadas insistiam em brincar noite adentro, a despeito das ordens de seus progenitores.
Passaram poucos minutos depois da primeira hora da manhã quando o escrivão notou uma figura insólita apareceu na porta da delegacia, portando uma mochila surrada. Antes que pudesse falar algo, o homem ergueu as duas mãos empapadas de sangue e disse que precisava falar com o delegado. Apenas falar com o delegado.
Antes que pudesse dar conta, o homem foi lançado ao chão e algemado, laçado como se fosse um novilho de torneio rural. Diante dos interrogatórios iniciais dos investigadores, permaneceu calado. Limitava-se a dizer que falaria unicamente com o delegado plantonista. Após alguns sopapos, os policiais concordaram e puseam-no a esperar a audiência.
Aguardava na sala de espera pelo delegado plantonista. A autoridade chegou com os olhos vermelhos de sono, da cama improvisada em uma das salas da delegacia. Notou a presença ao mesmo tempo puída mas, ao mesmo tempo, carregada de orgulho do acusado.

- Desembucha, cidadão. O que queria falar comigo? Veio confessar alguma coisa?
- Confessar não. Assumir. Confessar é assumir culpa. Eu não me sinto culpado.

O delegado sacou um antiácido de uma das gavetas e tomou com toda a melancolia do mundo. Pensou que, diante dele, tinha mais um daqueles projetos de maníacos, ou um vagabundo que, para escapar da cana brava, resolve fingir-se de psicopata para negociar uma temporada em um manicômio judiciário. Mas antes que pudesse terminar a imagem mental na sua cabeça, o acusado disparou “Tampouco sou um daqueles maníacos ou aqueles vagabundos que tentam alegar insanidade. Eu sei o que fiz e vim me colocar à disposição”.
“Pois bem, conta sua história”, disse o delegado com um pouco mais de impaciência misturada com desrespeito. Sabia que aquela noite seria longa. O escrivão colocou-se a postos para recolher o depoimento. Mal sabiam eles.
“Eu sou técnico em informática. Costumo ver computadores alheios como um ginecologista vê a intimidade das mulheres. Por muitas vezes, eu já vi coisas estranhas nos computadores dos clientes que me procuraram, que por obra do destino e da amnésia, eles deixavam lá. Casos virtuais, vídeos comprometedores, até mesmo uma planilha de custos e despesas de um universitário que vendia ecstasy. Pra mim, nunca foi problema. Era pago para apagar, eu apagava.
Por isso, acabei sendo contratado por uma empresa de médio porte, para consertar computadores de gente com mais dinheiro. As coisas estranhas não diminuíram, apenas se diversificaram. Novos casos, novos vídeos, fotos, a mesma merda de sempre.
Até o dia que abri um notebook de um supervisor da empresa. Como ele era um escroto, eu resolvi ver o que ele escondia antes de apagar. Encontrei um vídeo. Caseiro. Era uma menininha. Tinha seus cinco anos. Não sei a quanto tempo, não sei de qual maneira, mas ele a convenceu de que ter um vibrador em sua pequena vulva era uma coisa divertida. Não era a coisa de carne de verdade, era apenas uma cópia de borracha. O processo todo durava uns seis minutos. Você vai encontrar o vídeo na minha mochila, no bolso externo, em um pen-drive. Junto com o backup do notebook desse supervisor.
Aquilo ficou na minha cabeça por dias. Dias. Sempre que olhava para a cara do supervisor, a cena repassava integralmente na minha cabeça. Bastou uma vez para aquilo ficar impresso na minha cabeça. Lembrava até que a criança usava um pijama da Dora, a Exploradora.
Sabia que o supervisor era apenas um usuário, a filha dele não se parecia com a criança que aparecia no vídeo. Por isso, um tiro na cabeça enquanto esperava o portão automático da casa dele bastou. Estive no velório e reconheci, pela voz, quem havia feito aquilo. Coisas assim você tem apenas dois caminhos: ou faz no anonimato completo ou faz com a cumplicidade de um amigo. Por sorte, foi a segunda parte”.
Nisso, ele tirou do pescoço uma corrente com a chave de um armário de aluguel da Rodoviária, e deixou sobre a mesa do delegado. Poucas horas depois, todas as equipes da imprensa vampira acamparam à porta do 175º DP para falar do “Maníaco Corporativo”, que executou um supervisor e degolou e castrou um gerente de Recursos Humanos, escondendo seus troféus em um armário de aluguel em um Terminal Rodoviário. Seu rosto foi estampado em capas de revistas, jornais, na Internet, discutiu-se a sanidade dos técnicos de informática.
Depois de todo o circo, das manchetes e dos comentaristas, o delegado decidiu por juízo próprio omitir a parte da pedofilia. Sabia que, se uma informação como essa vazasse, o assassino seria tomado como um santo, e causaria maiores problemas. Sabia que iria para o inferno se um dia a Mídia descobrisse, mas fez com o consentimento do técnico de informática.
Na manhã da transferência para o presídio em Pindamonhangaba, o delegado plantonista, fora de seu horário de trabalho, limitou-se a perguntar por quê ele havia feito aquilo.
“No dia seguinte a ver aquele vídeo, vi minha filha com uma Dora de pelúcia, que a mãe dela comprou”, respondeu.

****

Vinte anos haviam se passado desde o incidente do “Maníaco Corporativo”. Voltou à pauta das emissoras de televisão pela notícia da filha do gerente que havia degolado e castrado iria visitá-lo na penitenciária. Ele estava velho, cansado, cheio de marcas e sem os dentes da frente, cobertos por uma ponte dentária provida pelo Estado.

- Você matou meu pai, certo?
- Sim.
- Você cortou o pau dele fora também, não é isso?
- Cortei com uma tesoura para tecidos.
- Ele estava vivo quando o castrou?
- Sim.

Do rosto dela, rolaram duas lágrimas, sem nenhuma expressão facial. Ela virou-se e foi embora.
Ele seguiu para sua cela, e pensava secretamente que havia obtido o seu perdão. Ela não comentou o ocorrido de maneira alguma com os repórteres ou blogueiros.
O Maníaco Corporativo apareceu na manhã seguinte, em sua cela, enforcado. No bolso da calça, um bilhete: “Passei vinte anos no Umbral por algo que fiz conscientemente. Hoje, consegui meu perdão. Agora, posso seguir em frente. Aqui não é mais o meu lugar”.

1 comentário:

Deco Ica disse...

Véio... Nem sei o que dizer. Talvez que seja um dos melhores contos seus que eu já tenha lido.