terça-feira, 1 de junho de 2010

April O'Neill X Nelson Rodrigues


April O'Neill era a repórter quase assexuada que seguia as Tartarugas Ninjas por onde quer que elas iam, em meio a uma Nova Iorque fictícia e estranha. Em seu tempo e lugar, fazia a coisa mais normal do mundo: cobrir histórias de anfíbios vítimas de mutações químicas enfrentando aliens transdimensionais e uma horda de ninjas encapuzados, sendo esporadicamente ajudados pelo cruzamento do Kevin Smith com o Jason do Sexta Feira 13. Estava lá apenas para que quebrasse a acidez do molho do desenho/trilogia cinematográfica.

Nelson Rodrigues era o jornalista e cronista adúltero, cafajeste, fumante imbatível, alcoólatra, polêmico, reacionário, anticomunista que todos nós conhecemos e aprendemos a amar ou odiar. Abriu a alma da sociedade carioca (quem sabe até mesmo a brasileira ou o gênero humano) como uma criança de sete anos abre uma minhoca para saber como aquele monte de carne consegue se mexer e ser considerado "viva". Deu um novo significado ao absurdo cotidiano, das coisas que acontecem na intimidade dos lares e dos pudores do brasileiro médio. O negócio dele, como diria décadas mais tarde Alexandre Frota, era comer o cu e a buceta da mediocridade brasileira.

A imagem que tínhamos do jornalista (de Clark Kent a Kent Brockman) trazia uma coisa dos exploradores, os garimpeiros do fato cotidiano. Na falta de grandes assuntos, cabia a eles trazer na ponta dos dedos a alquimia de transformar fezes em Chanel N.º 5. Pegue qualquer história de Rubem Fonseca (outro jornalista da Velha Guarda) e verá a capacidade do bom e velho folhetim, da criatividade e do lirismo sujo de graxa das rotativas.

Hoje, em um mundo de Google e com um acesso cada vez mais planificado no broadcast de informações, acabou-se a profissão cética de pilório desgastado por prazos, pressões, interesses. Hoje, qualquer um - inclusive esse que escreve depois de praticamente um ano - pode emitir opiniões. Não existe mais a preparação, o darwinismo redacional onde só o melhor pode sobreviver. Os critérios mudaram, a meritocracia virou uma piada.

Resta ao jornalista recém-encanudado dois caminhos: o da subserviência aos ideais dos patrões nos Cursos de Jornalismo da vida (cabendo apenas escolher o grau da Imprensa Golpista onde pretende engajar), ou a subserviência do decote. Que decote? O do universo feminino que invadiu o testosterônico mercado de trabalho jornalístico brasileiro.

Mais uma vez, a ajuda da nossa velha amiga tecnologia: Com videocasts, podcasts, entrevistas ao vivo por streaming e qualquer outra bugiganga inventada pelos nerds espinhudos, a imagem ganhou uma importância quase obscena dentro das estratégias dos publishers. Só um Luciano Facciolli tem espaço na televisão às sete e meia da manhã (Olha a hora, olha a hora gente!). Ou vocês realmente acham que a Patrícia Poeta sabe escrever um texto de 30 linhas em menos de 1 hora contando apenas com o tema, sem qualquer outro recurso técnico? O "Tempo dos Navios de Madeira e Homens de Ferro" do Jornalismo acabou. Não há mais espaço para velhos jornalistas.

Encaro na minha cama "O Berro Impresso das Manchetes" de Nelsão - uma coletânea de crônicas esportivas que escreveu para a "Manchete Esportiva" do Rio de Janeiro, criada pelo lendário publisher Adolpho Bloch (que também criou "Ele & Ela", revista masculina cujos contos eróticos devidamente censurados e com termos trocados ajudaram muito em minha pré-adolescência). Uma pérola de como se escreve o rodo cotidiano com excitação, conteúdo, malícia e, sobretudo, autoridade de quem não trabalha com jornalismo, mas é um jornalista.

Duvido que, daqui a 50 anos, vejamos um livro de crônicas esportivas de autoria da Renata Fan.


Essa é a minha opinião.

2 comentários:

Deco Ica disse...

Dom Diniz, o texto é interessante, mas há duas incorreções que eu, como chato que sou, tenho de apontar:

- Você diz que o Nelsão Rodrigues era fumante inveterado e alcoolatra. Fumante ele era mesmo, mas não punha uma gota de alcool na boca, por causa da úlcera e também por moralismo. Pelo menos foi o que li na biografia dele.


- Rubem Fonseca, embora tenha reproduzido o universo jornalístico de uma época no fantástico conto "Corações Solitários" (Feliz Ano Novo, 1975), nunca atuou como jornalista.

Abs!

W disse...

Bela crônica.

Realmente, daqui a pouco o estereotipão de jornalista só aparecerá nos novelas e minisséries "de época"...