segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Seção Literária: As Namoradas de Mamãe.

N.A.: A história a seguir é outro dos "episódios-piloto" elaborados em colaboração com Rodrigo Lima, AKA Coxinha. Ele entrou com o título, entrei com o argumento, e assim vamos seguindo.

Ana Letícia estava sentada na frente do computador. Preenchia seu tempo nas férias normalmente, como qualquer outra garota de sua idade faria: fóruns sobre cantoras pop da disney. O quarto era normal, como de qualquer outra pré-adolescente brasileira do sudeste: fotos de ídolos teens, bichos de pelúcia, aquela presepada toda. O computador cheio de adesivos, com um papel de parede da Pucca. No teclado, seus dedos serpenteavam sobre as teclas, alternando entre as postagens no fórum de imagens e o Adobe Photoshop, onde trabalhava em uma imagem que colocaria no ar depois do jantar. Pensava na vida, sobre como tinha ido parar na casa do pai, em vez de ir morar com a mãe - por que logo o pai, um mísero funcionário público da prefeitura de Campinas bronco como um ogro, ao invés da mãe?

Ela pensava e sentia que sua vida precisava mudar. Foi quando ela sentiu algo quente entre suas pernas. Algo úmido, quase lívido. Ela abriu as coxas na cadeira estilo escritório e constatou que a vida biológica começava pra ela de uma vez por todas. Ana não se assustou com sua primeira menstruação, já tinha lido revistas, matérias, havia aprendido sobre reprodução humana e sexualidade no colégio, então sabia que era o primeiro passo para uma nova série de experiências. Apesar dos seios pequenos e mamilos cor-de-cereja, sabia que em breve estaria às voltas com o primeiro sutiã, absorventes, TPM e todo o pacote da feminilidade. E tinha apenas uma certeza: essa conversa não era digna de sua madrasta.

A relação entre as duas sempre foi de rivalidade, independentemente dos apelos do pai, Jorge Gonzales, de que ambas tinham exclusividade no coração, mas em dimensões diferentes. "Sempre vou ser seu pai e te proteger, mas precisa entender que eu também sou um homem e posso me apaixonar". Essas palavras soavam como uma punhalada no coração. Mas a punhalada doía mais porque ela se sentia um produto de uma experiência genética, porque não conhecia a mãe. Não havia fotos dela pela casa, o pai era sempre vago nas descrições de seu nascimento, ou nos primeiros anos de vida. O pai insistia que ela estava viva, mas parecia que ela havia nascido de um pacto com o próprio diabo.

----

- Ana, precisamos conversar.
- Pai, eu sei que estou crescendo e-
- Eu vou te apresentar sua mãe.

O diafragma de Ana Letícia recuou subitamente com o golpe psicológico. Esperava várias coisas em sua cabeça: a madrasta fazendo um sermão sobre a importância do próprio corpo, ou fazendo chamegos de tia velha para a mais nova mocinha do mundo. Esperava o pai tendo um ataque nervoso ou tendo "a conversa" com a cara mais pamonhesca do estado de São Paulo. Mas, certamente, não esperava que fosse descobrir naquele dia a luz sobre um vale de omissão e incertezas.

Ele seguiu para a sala de casa onde, na mesinha de centro, havia uma pasta de arquivo com várias fotos, livros, discos e quinquilharias diversas.

- Sua mãe e eu nos conhecemos no terceiro ano da faculdade de Arquitetura. Ela estava entrando, e eu estava me preparando para sair. Sabe, na faculdade existem dois tipos de pessoas: as que são livres e as que não são. Ela era, eu não. Nós curtíamos pra caramba um ao outro e o clima da faculdade, só que ela mais ainda. Vinha de família crente, resolveu dar uma reviravolta na vida e saiu do casa-comida-roupa lavada. No curso, ela se tornou a estrelinha da tchurma. Quando estava apresentando meu trabalho final de graduação, ela apareceu na porta da sala com o teste de gravidez da farmácia na mão. Este aqui. Bom, depois da faculdade nós seguimos caminhos diferentes: ela foi tentar música, e virou cantora de música folk, MPB, essa porra toda. Eu resolvi ganhar dinheiro. Ela pensou em fazer um aborto. Eu quis que você existisse. Por isso nos separamos. No fim das contas, ela acabou optando por ter você. Mas eu fui na Justiça e consegui a guarda.
- Por quê? Por quê me tirou da minha mãe, resolveu bancar o pai herói? Não engulo.
- Você vai descobrir. Acho que está na hora de você conhecer o outro lado da família, afinal de contas. Talvez você entenda o meu lado, talvez entenda o dela. Só que tá na hora de você começar a crescer.

---

Na semana seguinte, ela estava parada em uma esquina da Santa Cecília, no centro de São Paulo, com uma mochila de acampamento cheia de roupas, calcinhas, uma caixa de absorvente e R$ 250 costurados em um compartimento secreto. A cabeça, no entanto, trazia todo o caos de um universo paralelo de perguntas, dúvidas, raiva, amor e remorso de ter pensado em conhecer a mãe, depois de saber que ela, com certeza nenhuma, poderia ganhar o prêmio de Mãe do Ano.

O pai, ao seu lado, trazia uma expressão que oscilava entre o blasée e a completa fúria enquanto se preparava para apertar o interfone. Nas duas primeiras vezes que pressionou a campainha, o fez de uma maneira civilizada. "Aninha, vai ali na banca e me compra uma Veja, por favor?", disse o pai passando uma nota de dez - "aproveita e compra uns doces pra ti". Com a filha fora do alcance, ele pode afundar o dedo no botão do interfone, até que uma voz rouca atendeu do outro lado.

- Quié?
- Sua filha tá aqui.
- Jorge?
- Não, é o David Crosby.
- Não é uma boa hora-
- Acho que não é uma boa hora pra continuar pagando a pensão do seu divórcio.
- Que palhaçada é essa?
- Sua filha virou mocinha. E você PERDEU.
- Tá certo. Manda ela subir.

(Fim)

2 comentários:

Camila disse...

eu nao acredito que eu li tudo isso, fiquei super curiosa, e nao vi quando ela conheceu a mãe!! Me revoltei!

Camila disse...

faz uma continuação ai que eu quero saber o resto! hahaha