segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Crise de Consciência

Os editores de política apenas estão abrindo os olhos e tomando juízo do simples fato de que, à parte dos acordos de publicidade, os políticos brasileiros não são santos


O brasileiro gosta de usar a palavra "Crise". Seja na Economia, na Saúde Pública, no Esporte, no casamento. E principalmente na política: seguindo as fases da Lua, a opinião pública descobre o segredo de uma mágica da já conhecida "governabilidade" dentro do exercício do poder.
O Senado Brasileiro talvez seja a única instituição que segue fielmente os princípios de sua matriz genealógica: o Senado do Povo da Roma Antiga: conchavos, segredos e hipocrisia. E não é algo recente, um "mal da democracia moderna" - qualquer livro de História que aborde a política nacional poderá fornecer duas ou três histórias que fariam os Atos Secretos de José Sarney (PMDB-AP) um sonho depois de uma tarde de brincadeiras. Mas com a revelação das manobras extra-oficiais do gabinete do presidente do Senado Federal, a Mídia entrou novamente no modo "Crise", uma crise de moral e decoro.
Seguindo a crise no Senado, às portas da corrida eleitoral ao Planalto, a Crise do Senado chegou a outros lugares: Petrobrás, Polícia Federal e a base de sustentação ao governo Lula no Poder Legislativo. Coincidentemente, os três pontos principais da plataforma de apoio a Lula e seu(sua) candidato(a) à sucessão. E, obviamente, podemos contar com a 'imparcialidade' e a 'objetividade' dos grandes meios de comunicação, sempre tão desatrelados a interesses políticos como governadores de Estado, ministros, prefeitos e pré-candidatos à presidência.
Entretanto, a verdadeira crise que vemos hoje é uma crise de consciência. A opinião pública, a Grande Imprensa e os editores de política apenas estão abrindo os olhos e tomando juízo do simples fato de que, à parte dos acordos de publicidade, os políticos brasileiros não são santos - muito longe disso. Apenas descobriram que Sarney é Sarney das concessões e do curral eleitoral maranhense, que Collor é Collor da falta de decoro e das negociatas, que Agripino Maia é Agripino Maia do conservadorismo e fisiologismo típico dos senadores de centro-direita e que o presidente Lula é o Lula "o Cara" porque ele aprendeu durante vinte anos de bastidores de política e cinco campanhas à Presidência todos os atalhos, corredores e passagens escuras da política.
Todos estes personagens - de Aloízio Mercadante lavando as mãos da defesa do seu partido a Sarney no microblog Twitter para se desmentir horas mais tarde após uma "longa conversa" com o presidente - ao prefeito de Taubaté, Roberto Peixoto (PMDB) que foi cassado por um processo na Justiça Eleitoral depois de renegar o passado tucano - são o retrato de Dorian Gray do "exercicio da cidadania" do brasileiro. São a face oculta que, em um acesso de hipocrisia, é escarrada, acincalhada, discutida nas mesas de bar e, algum tempo depois, volta para o porão da memória onde esquecemos estes momentos dolorosos (como o escândalo das concessões de TV na década de 1970 e 1980, a violação do painel do Senado ou qualquer outra "crise" no arquivo-morto).
O brasileiro médio não tem uma "opinião pública", pois por opinião entende-se uma posição permanente acerca de um tema. Apenas pensamos que todo este carnaval (sempre às vésperas das eleições) acontece porque é um mal necessário, comparado à alternativa do bolivarismo demonizado pelos jornais, sem lutar pela famigerada reforma política, que acabaria com esta bela e macabra dança de CPI's e cadeiras. Viver no puxadinho é mais aconchegante e cômodo.

***

E quem tiver a chance passa no http://www.oesquema.com.br/mauhumor/wp-content/uploads/2009/08/prezanosenadoglobo.gif . Vale a pena.

Sem comentários: