quinta-feira, 25 de junho de 2009

Crônicas e Críticas volta com força: "E a Banda Continua a Tocar"

N. A.: Eu não sou a Petrobrás, não tenho o Pré-Sal, mas vou fazer uma coisa que o blog deles faz: divulgar sem cortes os textos, ensaios e matérias que eu tiver aqui, no dia que forem publicados. Vou tentar transformar essa muquiranice aqui em um blog de jornalismo - de novo.

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Na terra em que o Poder Público é casa-grande e senzala ao mesmo tempo, não existe lugar para o levante



Chico Buarque, nos anos complicados da ditadura (que foi dura), lançou no ar a canção “A Banda” – aquela que passava cantando coisas de amor. De várias interpretações e análises dentro do universo teórico da lingüística e da semiótica, é possível associar a canção do neto do Aurélio (aquele do dicionário) à capacidade do brasileiro de se inflamar com discursos belos e, no final do dia, voltar para sua poltrona, calado, sem nada de fato mudar.

Em meio à onda de escândalos que chegam às retinas diariamente nos jornais, revistas e na tela da TV ou da internet, os meros espectadores da indústria circense do caos político perguntam: “e o que a gente tem com isso?”. O cidadão comum vê o desfile de acusações, chantagens, falcatruas e comentários passar como um desfile de Sete de Setembro. Palavras contra o governo, a classe política e a sociedade são disparadas como tiros de revolta, para voltar para casa no final do dia, limitando-se a ruminar os descalabros da falta de médicos, da falta de segurança, da falta de fibra moral de nossos representantes eleitos em todas as esferas.

Na lista de bizarrices de nosso cotidiano o cidadão (inclusive o jacareiense) adquiriu a habilidade darwinista de guardar para si a revolta: do filme dublado no único cinema da cidade à cobrança do pedágio para entrar e sair da própria cidade, passando pela indústria de multas, falta de médicos, escolas decadentes que mais se assemelham a campos de prisioneiros. Tudo é notado e digno de revolta, entretanto não existe um arremedo de movimentação. Adota-se, a filosofia do “Meu Pirão Primeiro”: o atalho, o plano de saúde, a escola particular.

Muito deste abandono por parte da população diante dos ‘grandes problemas da Nação’ seja, em parte, culpa retroativa da permissividade que damos ao nosso sistema, alimentando um círculo vicioso – não apenas dos cidadãos, mas também por parte das autoridades. Casos como o dos Atos Secretos do Senado (que colocaram debaixo dos panos centenas de parentes e afilhados de políticos na folha de pagamento da Casa), da Alstom (que ofereceu propinas em troca da conivência do alto escalão do governo do Estado na licitação do Metrô) ou da lista de ‘gargalos’ que reduzem a qualidade de vida em Jacareí: fachadas caindo aos pedaços e conversas aos sussurros nos corredores dos Três Poderes.

Ontem, foram encontradas contas paralelas do Senado e foram cobradas explicações do atual presidente da casa, o ex-presidente e eterno senador José Sarney (PMDB-AP). Na ficção “Ensaio sobre a Lucidez” de José Saramago (escrita em 2004), uma revolta silenciosa de votos em branco atinge uma eleição legislativa em um país fictício, mostrando o descontentamento da população com sua classe política. Na terra em que o Poder Público – do “Bolsa Família” ao currículo editado no gabinete do vereador – é casa-grande e senzala ao mesmo tempo, não existe lugar para o levante e o realismo fantástico de Saramago. Apenas o lirismo do colaboracionismo cantado por Chico Buarque.

(publicado no Diário de Jacareí - pg.2 - do dia 25 de junho de 2009)

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