segunda-feira, 25 de maio de 2009

Dia do Orgulho Nerd é meu pau de óculos (bifocais)

"I'm very sorry the government taxes their tips, that's fucked up. That ain't my fault. It would seem to me that waitresses are one of the many groups the government fucks in the ass on a regular basis. Look, if you ask me to sign something that says the government shouldn't do that, I'll sign it, put it to a vote, I'll vote for it, but what I won't do is play ball."
(
Eu lamento que o governo cobre impostos das gorjetas, isso é foda. Mas não é minha culpa. Parece que as garçonetes são apenas um dos muitos grupos que o governo fode em uma base regular. Olha, se me pedir para assinar algo que peça ao governo para não fazer isso, eu assino. Se for pra votar, eu voto. Mas uma coisa que eu não faço é jogar o jogo deles.) - Mr. Pink, "Cães de Aluguel"

Vamos lá. Quebrando o silêncio depois de algumas semanas de marasmo e digitando os manuscritos do final de "Na Curva do Rio". Precisava falar sobre alguma coisa diferente. Ou não tão diferente. Mas que fosse com mais de 140 caracteres, uma vez que o Twitter está matando o blog (assim como o MP3 matou a música e o download matou as séries de TV).

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25 de maio. Dia do Orgulho Nerd. Não existe coisa mais enfadonha e tosca que uma data que celebre uma variação de comportamento fora do status-quo-alpha-beta bebedor de cerveja. Sinto-me, como Nerd de Terceira Geração (*), envergonhado com esta tentativa patética de glamourização da nerdice esbarra na demagogia, típica do discurso de ativistas de direitos de minorias.

Dia do Orgulho Nerd. Vamos tomar as ruas usando calças acima do umbigo, meias xadrez e óculos bifocais. Vamos levantar bandeiras com códigos HTML, falar internetês em documentos oficiais. A nossa bandeira, em vez do arco-íris, vai ser aquelas letrinhas verdes que caem dos monitores da Matrix. Dia do Orgulho Nerd. Vamos fazer flash-mobs de sabres-de-luz em plena Praça da República, do lado das barracas de churrasco grego e putas de R$ 5. Usar suéteres vermelhos e cometer suicídio em massa na plataforma do metrô da Sé. Vamos ficar com timidez das mulheres e ficar babando como imbecis. Vamos jogar RPG satânico e fazer rituais no Cemitério do Araçá, em cima da tumba de alguma celebridade.

Esta é a idéia que querem que tenhamos do Dia do Orgulho Nerd. Que somos uma etnia social segregada, diferente, à parte do que a sociedade dos cidadãos-de-bem-pagadores-de-impostos-e-tementes-a-Deus. Puta que pariu (com todas as letras), quer coisa mais discriminatória que isso? E tudo por quê? Porque hoje aniversaria o lançamento de Star Wars no cinema. Tudo porque um gordo virgem, há alguns anos, realizou o sonho de juntar samurais, cowboys, naves espaciais dentro do mito de Joseph Campbell e colocou o merchandising em uma nova dimensão? Faça-me o favor.

Se é para associar nerds a uma data.... Que seja para associar a Douglas Adams, que foi o maior ícone Nerd de Terceira Geração (*) (falecido em 11 de maio de 2000, mas com sua morte celebrada duas semanas depois todos os anos com o "Dia da Toalha", referência ao Guia do Mochileiro das Galáxias). Carregue uma toalha, porque com ela podemos nos proteger, nos defender, nos enxugar. E se alguém consegue atravessar a galáxia mantendo uma toalha limpa, esse cara é muito estiloso e merece respeito.

Colaborar com isso é aceitar o estereótipo do Big Bang Theory, é assinar o atestado de derrota social. E não há nada que um 'nerd' deseje mais nessa vida que uma vitória épica na escala social.

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(*) Nerds de Terceira Geração. Eles sustentam a sociedade moderna. Mantém esse provedor, consertam as suas fotos, constroem pontes e plataformas de petróleo em alto-mar. Extraem minérios da terra na Amazônia, andando com espingardas na mão e ouvindo Fortunate Son, pensando em Battlefield Vietnam. Escrevem editoriais de jornal. Bebem, fumam tabaco e maconha, transam. São héteros, gays, bissexuais, assexuados. Ouvem rock, folk, música clássica, de tudo um pouco. Assistem Godard e filmes do Jim Carrey. Como qualquer outra pessoa. Nerds não merecem um dia para terem orgulho próprio, como se precisassem de algum apoio moral por não gostarem de ser o que a tevê pede todo dia para sermos: felizes do jeito deles.

2 comentários:

Kathy disse...

Havia um tempo em que ser nerd era só ser um cara ou menina com quem ninguém queria falar... Hoje em dia inventam um dia do orgulho nerd, justamente porque essa tal terceira geração de caras com quem ninguém queria falar hoje levam o mund nas costas... Eu gostei desse dia, vai ajudar as menininhas gordinhas e de óculos fundo de garrafa a levantarem um pouco a cabeça... Amei o texto, aliás...

Kathy disse...

BTW, assim que estiver marcado o RPG satânico no Araçá, call me!