terça-feira, 26 de maio de 2009

"Na Curva do Rio", seguindo rumo ao final.

Carnaval de 1982. Joaquim Benevides resolveu, de última hora, cancelar a viagem que faria com os outros ilustres do município para o carnaval do Rio. Passou para Cocão a incumbência, que aceitou sem pestanejar por um único momento. Dispensou a criadagem e soltou os cachorros no entorno de Macabu. Para ter certeza da privacidade, fechou todas as cortinas e se isolou na biblioteca do casarão - onde supervisionava os trabalhos dos portos de areia.
A mesa de trabalho do escritório, na sala redonda de arquitetura semelhante às mansões maçônicas, tornou-se uma pequena estação de auditoria. Balancetes, demonstrativos de gastos, folhas e e folhas rabiscadas. Arquivos tratando de manifestos de carga de sua joint-venture com Cocão empilhavam-se ao lado de garrafas de uísque e vodca. Apenas os livros de Direito - comprados apenas para fazer figuração - testemunharam a caminhada lenta do Dono da Areia de Caçapava à demência temporária. Buscava uma resposta entre os números como um viciado procura uma última dose. Caminhou-se ao cofre atrás do quadro de São Benedito e sacou uma pistola automática .45 americana.

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Era sexta-feira santa. Jô e Zoinho resolveram contrariar a tradição da cidade de se resguardar no feriado da Paixão para realizar um 'churrasco romano' na piscina da mansão, sob forte esquema de segurança - afinal, o Prefeito de Caçapava, diretores de gabinete, entre outras autoridades, participaram do rendez-vous. Em tom de carnaval, jogaram manequins pintados de amarelo - uma referência ao crime dos Kuriyama, acontecido cinco anos antes. O encontro, que começou na sexta-feira, terminou apenas na madrugada de segunda-feira, com dezenas de garrafas de uísque vazias pelos cantos. O desembargador Rubens Coimbra acabou sendo levado no domingo de manhã para uma clínica particular, após ter problemas com a décima quinta carreira de cocaína, que consumia enquanto levava uma jovem de 17 anos à quinta penetração na madrugada.
Passava das quatro da manhã quando Jô, intoxicado com a maratona, saiu de casa com a arma em punho, fazendo a rotina do "Guilherme Tell" contra as estátuas de inspiração romana que estavam expostas na beira da piscina. "Agora eu quero ver aquele delegadinho viado do caralho querer vir me prender porque eu não pago pensão, aquele filho da puta do caralho. Vai cair antes de ouvir o barulho".

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Sampaio mostrou o distintivo ao segurança de Macabu, que simplesmente resmungou quando o investigador passou pela porteira da propriedade e seguiu o caminho até o casarão a pé, sem a companhia do Cabo Pereira. Quando chegou à área externa da propriedade, percebeu que o Reino dos Benevides já tinha vivido dias melhores. A piscina 6x10m encontrava-se em um tom medonho de oliva. As cadeiras não viam limpeza há alguns meses, e a trilha de pedras da casa estava com uma falha entre os pedregulhos, cuidadosamente esculpidos.

- Decepcionado, delegado?
- De maneira alguma, "Zoinho". Meu pai sempre dizia que todo mundo que mexe com a Terra acaba tomando no cu.
- Com todo o respeito ao homem da Lei de Caçapava, mas veio fazer algo mais que tecer críticas ao meu trabalho?
- À bem da verdade, vim saber mais sobre o ocorrido e tentar descobrir quem poderia ter feito algo como aquilo.
- Pois bem, pode entrar.

Pedro o recebeu no hall de entrada do casarão de estilo confederado. A escada mantinha-se em ordem, apesar da sujeira no carpete que se estendia pela escadaria. O jovem empresário cruzava as mãos sobre o corpo e apertava as articulações dos dedos em um tom quase que frenético.

- Meu irmão acabou pedindo ao arquiteto que se inspirasse em "E o Vento Levou". Acho isso, particularmente, uma viadagem sem tamanho.
- Jura?
- ... Bom, em que podemos serví-lo, senhor delegado Sampaio?
- O motivo da minha visita é para saber mais detalhes sobre a rotina do seu irmão durante os últimos tempos. Alguma coisa que nos dê alguma pista sobre o ocorrido.
- Bom, eu não estou sob investigação, não é?
- A investigação está aberta em 359 graus. A única certeza que eu tenho nessa vida é que eu não matei. Quanto ao resto da cidade, bem, todo mundo tinha um motivo para querer acertar as contas com ele.
- Concordo que a maneira que meu irmão tinha de lidar com os negócios era meio pragmática, mas a verdade é que ele sempre teve muito respeito pela comunidade caçapavense e pelo Vale do Paraíba.
- A Comunidade não era o maior dos problemas dele.
- Concordo. Bom, esta é uma questão que trabalhei para evitar de ir a público, mas... meu irmão mais velho, há uns dois anos, vem enfrentando um sério problema com narcóticos.
- Seu irmão?
- Pois sim. De uns tempos para cá, vim notando que a empresa vinha sofrendo alguns problemas financeiros. Pequenos desfalques aqui e ali. Nisso, percebemos também uma mudança de comportamento nele. Ele ficou mais agressivo, mas ao mesmo tempo mais na dele. Sei que isso parece coisa de mãe coruja, mas essa empresa não nasceu da noite pro dia de uma barraquinha de cachorro quente. Ele ficava cada vez mais problemático até que, um dia, notei uma retirada da conta da empresa de mais de Cr$ 2 milhões. Eu acredito que esse dinheiro tenha sido para pagar alguma dívida.
- Estranho. Joaquim Benevides sempre foi uma pessoa centrada, nunca se meteria nisso.
- Pois é.
- Bom, vou investigar. Mas antes me responda rapidinho uma coisa, fora dos registros: onde você aprendeu a fazer isso?
- Isso o que?
- Tirar o corpo fora com tanta eficiência.

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- E aí, tudo em cima?
- Tudo. Escuta, eu preciso da sua ajuda.
- Quem?
- Não vou falar aqui, é muita bandeira.
- Iiiiih, olha a viadagem.
- É sério, cara. Eu vou te quebrar um galho fudido. Vai por mim.
- Tá certo.
- Escuta, eu só posso dizer o seguinte: capaz do 'cliente' ligar. Mas você vai fazer a parceria com a minha pessoa, certo?
- Isso tá ficando cada vez mais estranho.
- Vai por mim.
- E pra quando é o filhote?
- Acho que pro nove de julho.
- Certeza?
- Acho que sim.
- Se você tá falando, beleza.

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