segunda-feira, 6 de abril de 2009

"Sabe moço, eu tenho uma filha casada com um homem chamado Diniz, e os dois têm um filho. Sabe, ele ficou muito tempo longe de casa, fazendo faculdade, sofreu mas conseguiu se formar. Depois, ele foi trabalhar em Taubaté. Ele era muito trabalhador: todo dia ia pra Taubaté, e voltava tarde da noite, andando nessa estrada perigosa. Mas agora ele tá bem, ele tá trabalhando em Jacareí. Ele finalmente se acertou".

Ela disse isso para minha mãe anteontem. Ela não reconhecia a própria filha, que ficou noite e dia do lado dela, lutou as batalhas. Brigou com os moinhos de vento.

Eu lembro de ter seis anos. Minha mãe foi internada para operar um tumor maligno no útero. E ela ficou comigo as duas semanas que minha mãe ficou no hospital pra realizar a cirurgia.

Eu lembro do café dela. Fraco, doce. Lembro que a paçoca dela era carregada no açúcar.

Eu lembro de ser criança e ficar na escada da casa dela, brincando com pequenos botões secos de ipê roxo, que eu brincava que eram naves espaciais do Ultimo Guerreiro das Estrelas - aquele filme nerd.

Eu lembro de ficar me escondendo nos cômodos da casa, que ainda tinham piso de tijolos, desses marrons, junto com meus primos Renata e Ricardo. E que invariavelmente saíamos brigando depois de algumas horas.

Lembro dela chorando na porta da casa dela quando meu tio Zé foi preso por estar com vinte gramas de brizola na cueca quando os passa-fome o encontraram na rua. As mães sofrem. Pouco tempo depois disso, passou a noite inteira perguntando "Quem foi que te matou, meu filho?" - tinha sido o meu amigo de futebol na infância.

A última vez que a vi foi há um mês, quando ainda estava com o Uno Mille, ela saindo da Santa Casa pela décima quinta vez que a enxotaram de lá. A pele dela estava descamando como uma cobra, estava sem cabelo, fraca. As últimas palavras que eu disse pra ela foram "Poxa, você gosta de dar sustos na gente. Não faz isso não".

Ela criou oito filhos. Três filhos, uma nora e três netos estavam lá para recebê-la. Ela estava inchada por conta do soro. Os olhos roxos. As mãos com hematomas.

Acabou. Ela deixou o palco hoje.

Vai na paz.

3 comentários:

Deco Ica disse...

Diniz, meus sentimentos, irmãozinho. Que tua avó esteja em bom lugar e que sirva de consolo o fato de o sofrimento dela ter chegado ao fim.

Para o que mais precisares, sabes que estou aqui.

Abraço,

Rafa.

Xyka disse...

*abraça*

saddam gos disse...

qdo meu coroa morreu, uma professora me ensinou o significado da expressâo "meus pêsames", significa dizer q a sua dor tb é minha, eu imagino como vc se sente... eu passei por isso esses tempos... precisando é só fazer sinal de fumaça...