segunda-feira, 20 de abril de 2009

"Na Curva do Rio": 'O FIM' (que ainda não é o fim)

Luiz Roberto Resende tinha onze anos de idade, e era parente em grau relativo do famoso ministro, filho ilustre de Caçapava. Ele passeava por sua parte favorita na propriedade de seu avô: a beira do riacho que passava pela propriedade. Era um passeio tranqüilo, onde pensava no futuro, improvisava uma camiseta para apanhar lambaris nas partes mais acessíveis do curso d’água, e fumava escondido alguns cigarros roubados da carteira do pai. Mas na manhã de 12 de julho de 1982, encontrou algo mais que alguns lambaris. Encontrou dois pés saindo da água na margem do rio.
O delegado Sampaio chegou duas horas depois do comunicado do incidente, por conta das condições da estrada de terra que dava acesso à fazenda. Ele chegou acompanhado dos soldados Pereira e Theodoro, que conseguiram isolar de maneira precária. O carro do IML chegou junto com os repórteres da Gazeta do Vale.

- Fora.
- Mas estamos fazendo o nosso trabalho.
- E estão estorvando o meu. Já.

Com a chegada do perito do IML, foi autorizada a retirada do corpo da água. O cadáver apresentava um aspecto semelhante às das uvas passas, com a pele azulada. Apesar do estado deteriorado, foi possível notar que parte da nuca estava com uma densidade mais flácida, vítima de uma paulada. Mais tarde o legista notou que a ‘maciez’ era na verdade parte da massa encefálica.
Ao virar o corpo, Sampaio achou que se tratava de uma ilusão óptica. A corrente de ouro personalizada e a tatuagem no antebraço deram duas dicas, mas na terceira ele viu que a coisa era mais séria: a carteira com o RG de Joaquim Benevides mostrou que Caçapava perdera o seu Rei da Areia. O olhar do delegado misturava decepção, compaixão por um adversário e a mágoa de ver o mandante do crime dos Kuriyama ser absolvido com a morte. Mesmo que violenta.

- Manda esse cliente para Taubaté agora. Fala com o chefe do açougue que esse aí é assunto do Sampaio. Não deixa ninguém senão eu ou delegado da Seccional chegar perto desse aí. É pra ficar longe da gentalha.
- Doutor, tem certeza que ele merece atendimento preferencial? – perguntou Theodoro, que estava cobrindo seu primeiro plantão.
- Amiguinho, esse cara de uva passa só é dono de todo o dinheiro dessa cidadezinha de merda. Se a gente não colocar o nome desse cara na lista dos Vips, alguém bem grande vai comer o nosso cotoco, pode ter certeza.

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Jô Benevides não viajou no carnaval de 1982. Seu irmão sim – ele foi para Punta Del Este com outros porras-loucas que conhecera dentro do ramo de extração de areia, alguns vereadores e o deputado estadual de estimação, da Arena. Jô tinha outros planos para si. Dispensou a criadagem, afirmou que viajaria de última hora, e soltou os cachorros pelo quintal de Macabu.
Na biblioteca da propriedade, transformada em escritório da Benevides Transportadora LTDA, debruçou-se sobre resmas de papéis. Caixas e mais caixas abertas, espalhadas pelo cômodo, atravancavam sua passagem para o banheiro. Não que usasse para as necessidades fisiológicas, mas para apanhar água para a benzedrina.
Sobre a mesa de trabalho, haviam apenas três coisas: uma máquina registradora, uma garrafa de uísque e centenas de notas fiscais, demonstrativos de pagamento, manifestos de carga, balancetes e anotações pessoais do próprio Zoinho.
A cada hora que passava fazendo e refazendo os mesmos cálculos (cada vez com resultados diferentes), continuava entornando uísque com as anfetaminas. Não queria dormir. Não poderia dormir. Precisava afiar ainda mais a mente. Queria ter a certeza absoluta que aquilo não estava acontecendo. Mas estava acontecendo. Agora precisava saber: quem era o responsável?

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Pouco depois de chegar de Taubaté, onde acompanhou a necropsia de Jô, Sampaio recebeu um telefonema urgente de São Paulo. Ele resmungava ao telefone “sim, senhor” e ao bater o telefone, disse ao amigo Aparecido, que estava na sala:

- É a “hora do pato”.
- Hein?
- Corregedoria. Parece que antes de morrer, o Rei da Areia resolveu comer o meu cu com ela.
- Espera um pouco. Respira e explica.
- Amanhã vou ter que depor à Corregedoria por causa do ‘arrocha’ em cima dos caras da extratora e por causa do lance com o Cocão. Parece que ele resolveu apelar pros Direitos Humanos.
- Beleza, hein campeão?
- Vou ficar na casa do meu bróder Caio. Ele já passou por essa. Sabe como funcionam as coisas.

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- Delegado Ricardo Sampaio, eu não posso ser mais direto nesse assunto: o senhor matou Joaquim Benevides?
- Com todo o respeito, Senhor: por mais que eu tenha direcionado o foco da minha investigação sobre a empresa do finado Sr. Benevides-
- Direcionado o foco? Temos três denúncias de abuso de autoridade por parte dos advogados dele. Busca por documentos sem mandado, ameaça com arma de fogo, tortura. Sabe muito bem o que pode acontecer se vaza para a imprensa, não é? Estamos tentando construir uma reputação por aqui. Os três anos para encontrar provas dos assassinos e dos mandantes do crime nos faz pensar se você estaria apto a seguir em um posto de liderança como esse. Se não foi um erro enviar uma pessoa tão inexperiente para operar em uma área como essa.
- Novamente comprazo meu respeito com a Corregedoria, mas o pessoal de São Paulo não faz a menor idéia do que está acontecendo dentro de Caçapava. A cidade se tornou violenta, se tornou agressiva com os moradores e precisamos elevar o nível de pressão sobre os elementos.
- Colocando armas automáticas à vista de todos? De qualquer maneira, eu recebi do Dr. Arlindo Maranhão, delegado da Seccional de Taubaté, que já fez parte inclusive do corpo da Corregedoria. E através dele soube de muitas coisas a seu respeito, sobre o trabalho em Caçapava. Por isso, esta junta decide manter seu caso em aberto, mas suspenso por tempo indeterminado. Mas, fora dos autos, e com apenas Deus como testemunha, eu afirmo: se não conseguir encontrar o criminoso por trás da morte dos Kuriyama, não restará outra coisa a não ser exonerá-lo do cargo e realocá-lo em uma posição subordinada em outra cidade.

(continua)

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