domingo, 1 de março de 2009

"Na Curva do Rio", final do arco O MEIO: "Serviço de Gente Grande"

Cocão sempre foi um cara que acreditou ser “mais esperto que cu de lebre”. Ele começou dando pequenos trambiques no centro de São Paulo nos anos 60, sempre envolvendo pequenas celebridades. Seu parceiro de crimes estava envolvido no caso de Wilson Simonal, que acabou por levá-lo ao ostracismo. Cocão chegou a pegar alguns meses por estelionato, mas aproveitou o tempo para conhecer mais truques, outros contatos, mudar de ritmo e ganhar massa muscular – enquanto alguns alimentam vingança, ele ganhava massa muscular.
Ele conheceu Jô Benevides durante uma “turnê” que fez no centro-oeste paulista, quando dividiram uma garota de programa e duas garrafas de uísque em Botucatu – de uma maneira não-muito-cortês, é o que se pode dizer. Mesmo depois da briga, ambos começaram a notar que partilhavam muitas coisas em comum, como o senso para negócios. Depois de um começo tumultuado, Cocão virou o lobista de Jô Benevides em lugares onde ele não poderia entrar.
Com a criação da empresa transportadora de areia em Caçapava, Cocão encontrou a oportunidade de ouro. Com a companhia de Josimar Alves, um contador autodidata (que começou trabalhando em firmas como office-boy e depois aprendeu a mágica atrás dos números), ele teve uma idéia:

- Jô, posso dar uma palavrinha contigo?
- Claro mano véio, contaí.
- Cara, eu andei conversando com um pessoal, e achei um jeito facim de ganhar uma grana durante os fins de semana que vai dar uma grana forte pra gente.
- Olha, o Zoinho veio e me disse isso no começo do ano, e eu já empatei uma grana fudida em cima desses caminhões. Que idéia é essa?
- Mas escuta só: eu tenho um amigo lá em São Bernardo, o cara é da seção de distribuição da Goodyear, pneus para caminhões. Você tá ligado que caminhão consome muito pneu. Então, dependendo do jeito que o negócio for feito, a gente consegue no mínimo “Chave 19” com o pessoal. Cinco dígitos!
- Cinco dígitos, seis dígitos... Tu andou conversando com o sonhador do meu irmão, né? Puta que pariu, todo mundo quer ser esperto agora. Mas eu já disse antes pro meu irmão e digo de novo pra você ouvir e bem: a empresa tá no seu nome, mas o negócio é meu. Então, até que eu me convença que esse seu “lance” é sólido, que não vai queimar o meu filme ou que eu vou ter prejuízo, joga na gaveta aqui que eu resolvo.

Cocão saiu do escritório de Jô se sentindo traído. Ele sempre escutara de seu sócio que “o Cocão é o cara que morde uma pedra e cospe notas de 100 Cruzeiros”. E agora, quando tinha uma chance de fazer uma grana boa, ele corre como um covarde. “Esse Jô tá ficando mole, e tá precisando de uma lição”.

- Josimar, me responde rápido: esses caminhões da empresa de transporte, eles tão no seguro, né?
- O Sr. Benevides pediu apólice de cobertura pra acidente e roubo.
- Quando a carência delas acaba?
- Daqui a duas semanas, Cocão.
- Maravilha.

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Aparecido continuava quebrando a cabeça dentro do Fórum para encontrar alguma brecha que fosse grande o bastante para passar um processo penal, e ao mesmo tempo se esquivava das salas cheias de olhos a serviço do Juiz Bacchi. Ele sentia, dia a dia, em cada pasta que ele colocava as mãos, que a vergonha ia apertando dentro do Judiciário de Caçapava. Ele notava uma coisa engraçada em todo o esquema: aos poucos a relação entre Bacchi e os Benevides, que antes fora promiscuamente aberta, começava a diminuir. Os despachos se tornavam cada vez mais raros; as intervenções da própria pessoa do magistrado, que antes se mostrava como uma entidade acima da própria lei, haviam acabado.
Numa sexta-feira modorrenta, ele se encontrou com Sampaio depois do expediente em sua casa – desde o incidente na porta da delegacia, Sampaio e os seus “Intocáveis” estavam se tornando um peso incômodo dentro da cidade.

- Estou estranhando tudo isso, disse Aparecido.
- Só você, meu filho? Isso aqui tá quieto.
- Acha que o povo tá com medo?
- Eles nunca ficam com medo. Eles apenas dão outro jeito de fazer as coisas. Metade do povo daqui tem parentes em Minas, é tudo come-quieto.
- O pessoal daqui é come-quieto, mas quem tá fazendo a zona não é daqui. Então...
- Então eles resolveram atacar por outro lado.
- Eu sei. Essa porra de transportadora deles.
- Eu conferi umas coisas sobre essa empresa transportadora dos caras. O negócio tá mais limpo que lençol de virgem. Tão pagando tudo certinho, veja você. E começaram já grande, com quatro caminhões daqueles 18 rodas, parece uma nave espacial.
- E não tem como tentar pegar os caras por causa da origem do dinheiro?
- Eles lavaram direito a grana dos poços de extração de areia. Tá até com cheiro de amaciante. Então.... É um beco sem saída?
- Não. Ainda não.

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Chovia na madrugada de 18 de fevereiro de 1981, no trecho da rodovia Presidente Dutra na altura de Cruzeiro, divisa do Estado. O policial rodoviário Fernando Pereira foi atender uma chamada de um acidente em uma curva acentuada do percurso.
Pereira não precisou andar muito para ver a nuvem vermelho-sangue que levantava do fundo da ribanceira: o caminhão virara uma massa de ferro retorcido, com uma decoração de chamas sobre ela. A carga – um monte de pneus de caminhão – ardia como a própria Coluna de Fogo da caravana dos hebreus para Canaã. O máximo que se pôde ver era a silhueta de um esqueleto que tostava no banco do motorista. A placa, que ainda não ardia, mostrava a origem da cidade: Caçapava-SP.
Na manhã seguinte, os técnicos do IML recolheram os restos do motorista do caminhão acidentado com uma pá – literalmente. Os ossos eram a única coisa que restava do pobre diabo. A carga de pneus precisou de três caminhões do Corpo de Bombeiros para ter seu fogo debelado, sendo que dois deles tiveram as mangueiras arrebentadas devido à pressão da água e o estado de conservação. De longe, os irmãos Benevides e Cocão acompanhavam o recolhimento dos destroços, junto de dois repórteres que cobriam o acidente para um diário local.

- Dois meses de trabalho e você me perde um caminhão assim, Cocão. Puta que pariu.
- Porra Jô, o negócio tava no seguro, cara!
- É, mas a bosta da carga não tava! E eu vou ter que pagar em cima do negócio. Vinte e cinco mil dólares de pneus de caminhão. Cê faz idéia de quanto isso vai me custar? Sem falar que agora a gente agora é motivo de piada.
- Jô, cê tá levando esse negócio sério demais.
- E você, não tá?
- Claro que eu tô, mas isso acontece! Pelo menos o negócio queimou, e não foi roubado. Aí sim você ia perder dinheiro de verdade.
- Não vou falar porra nenhuma. O Zoinho agora vai cuidar das coisas aqui, vai começar a conferir os livros a cada dois dias. Eu não quero mais ter que perder dinheiro com essa empresa.
- Fechado.

***********

Dois meses depois do acidente, Aparecido entrou como uma sombra dentro do gabinete do delegado titular de Caçapava. Trazia uma pasta e não quis comentar nada com o escrivão, que costumava fazer a “triagem” dos assuntos que chegavam a Sampaio.

- Encontrei.
- Encontrou o quê, cara-pálida?
- A mancada que precisávamos.
- Detalhes.
- Olha isso aqui.

Ele mostrava uma ação do Ministério Público de Marília, que buscava informações sobre os negócios da Benevides Transportes Ltda. – o ofício trazia como premissa o depoimento de um receptador de produtos roubados que entregou o nome de batismo de Cocão como sendo um dos fornecedores de “produto oriundo de delito de furto”.

- Adivinha que carga é essa.
- Não me diga que...
- Sim. Os pneus.
- Mas como pode ser verdade?
- Não sei como isso fez, mas essa é uma cópia. Graças à fotocopiadora doada pelos Benevides.
- E o Bacchi?
- Tá com o Zoinho no gabinete dele agora.
- Olha a merda feita. Beleza. Isso completa o quadro.
- Como é que é, sabichão?
- Lembra que a história saiu num jornal de Guaratinguetá? Então, eu conversei com o pessoal de lá e pedi pra dar uma olhada nas fotos do incidente. Ainda bem que eles guardaram todas as fotos, não só as que foram pro fotolito.
- E então?
- Olha essa foto com atenção.

Ele puxou da gaveta uma ampliação 20cmX30cm do local do acidente, em especial da curva em que o caminhão passou reto.

- A foto foi feita na manhã depois do acidente. Onde estão as marcas de pneu? Se foi um acidente, o cara teria pelo menos tentado desviar, e essas marcas ficam no trecho por DIAS, mesmo com toda a chuva do mundo em cima. Depois de ver a foto, eu dei uns telefonemas no meu tempo livre, e consegui falar com o cara responsável pela expedição da fábrica de pneus. O caminhão saiu de lá oito e meia da noite. O acidente aconteceu sete horas e meia depois. O percurso, direto e reto, não demora mais que cinco horas com um caminhão. Foi ditado, telegrafado e sacramentado: foi golpe do Cocão.
- O Cocão.... dando golpe no Jô Benevides?
- O mundo é cheio de surpresas, meu filho. E esse Cocão vai ter uma surpresa melhor ainda quando os caras descobrirem.
- Sinto que você está tendo um sentimento sádico nessa história toda. Um cara morreu por causa disso! Lembra, o motorista?
- Ah sim. O resultado da arcada dentária chegou hoje. O nosso churrasco de domingo é o Josimar Alves, o contador do Cocão. Pelo visto, foi uma mistura de queima-de-arquivo com o golpe da caravana perdida.
- E o motorista de verdade?
- E eu lá me importo com isso, Aparecido?
- Tá.... Mas vem cá e me diz: se você sabia disso tudo sobre esse esquema dos Benevides, por quê não me contou?
- Pra não zicar. Superstição.
- Filho da puta.

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