sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Seção Literária one-shot: "É de framboesa"

Eu lembro que era uma quinta-feira. Uma quintea-feira depois do serviço. Eu tinha brigado com metade do pessoal do departamento de Suporte Técnico, depois que trocaram meu monitor e a minha HD por um modelo chumbrega. O monitor era bonito, e tal, tinha LCD e tudo. O HD tinha um compartimento mocozado onde eu tinha guardado um vídeo da Tássia do setor de Compras fazendo strip-tease na praia, à moda havaiana.

Foi quando eu resolvi passar no bordel da Melita (com um T só). Ela era chamada assim porque deixava no corredor dos quartos do puteiro uma garrafa térmica, sempre com café fresco ("uma cerveja antes, um cafezinho depois", era o lema). Era proibido fumar nos quartos - ordens da casa, sempre cumpridas à risca pelo Crioulo, um albino viciado em esteróides que tinha síndrome de Asperger e era o xerife do lugar.

Mas o que importa é que aquele não era o meu dia. Perdera o computador e o vídeo da Tássia por "rotina de formatação", o meu contracheque havia sido perdido no malote bancário e só chegaria na terça-feira seguinte, a Ponte Preta havia vencido o Derby e eu estava sem fumar os meus Pall-Mall's há mais de três semanas, por conta de uma estratégia de vendas incompetente. Fumava Pall-Mall's não para ficar com o pau duro, mas porque sentia-me mais perto de um grande escritor que gostava de um humor tão negro quanto o meu.

Passei no caixa eletrônico e vi que ainda tinha um pouco de tecido adiposo financeiro para queimar, e então resolvi ir com tudo na Melita. Chegando ao local, o movimento ainda estava fraco - passava das sete, e o pessoal ainda estava saindo do trabalho, de casa, se despedindo da esposa e todo aquele converséu que vocês conhecem. Mas chegando lá, fiz a coisa que sempre costumava fazer: ir primeiro na "sala do café".

Por vivermos num país de gente filho da puta sem costume, resolveram montar o "Troféu Melita", onde cada um fazia uma marquinha com caneta na frente do nome de alguém que valia a pena tomar um café depois. Dali, resolvi comer uma coisinha. Chamei a menina: "Oi, coisinha!".

O nome dela era Bhel. com "BH", porque ela dizia ser mineira. E por dizer ser mineira, sabia beber como um marinheiro russo. Eu já tinha visto muito pião largar o salário de um MÊS na conta do bar por causa das conversas dela. Mas hoje ela estava mais safada que costume. Papo vai, papo vem, começamos a conversar sobre o tempo, sobre coisas imbecis. Daí passamos para o próximo nível, e pedi ao barman puxar a minha Rosinha particular de lá do pé do balcão. Aquilo fez um tio meu cair duro no chão quando ele era moleque, e ele nem ouviu cinco tiros que deram ao lado dele num carnaval - pelo menos é o que ele conta.

Talvez pela primeira vez a pequena Bhel, com seus vinte e sete anos, 1,65m e seus 59kg distribuidos em bunda e peito, tivesse perdendo sua primeira briga com o álcool. E eu era o primeiro a derrubá-la. Nessa hora eu olhei para o céu e pensei: hoje é a minha vez de foder com alguém até sair molho tártaro pela orelha direita.

Arrastei a menina para o quarto, com o aval do Crioulo, como sempre. No quarto, não teve muito tempo para tirar a roupa: em vinte segundos já estava caindo de boca no morrinho da moça, que começava a gemer mais e mais alto. Nisso eu vi que estava na hora de começar o segundo movimento, quando ela parou e disse:

- Tá na hora de mostrar um truque, amorzinho.

Ela pegou uma camisinha embaixo da cama, e falou com a cara mais bebada do mundo: "é de framboesa". Colocou na boca, e colocou meu meninão no encaixe.

Sempre que ouvi essa lenda, eu achava que era apenas um lance de fumaça e espelhos, tipo mágica de circo. Mas dessa vez, a mágica micou. Foi uma combinação de azar e destino: na hora que eu, bêbado pra caralho e mais loco que Robocop na chuva, dei uma estocada garganta adentro da moça, ela teve um soluço. Façam as contas.

Pois é. Ela começou a engasgar com a maldita camisinha sabor framboesa, e se debatia como um pombo envenenado no parque. Começou a derrubar as coisas, tentando pedir ajuda. Como eu tinha feito um curso de Primeiros Socorros nos escoteiros, resolvi fazer a bendita manobra que você carca a pessoa por trás e faz com que ela cuspa o objeto estranho. Acabei dando um suplex nela, e ela bateu com a cabeça na quina.

Depois disso, o resto é história: obviamente eu apanhei do Crioulo até ficar fã de Mallu Magalhães. A Polícia me interrogou por quatro horas querendo saber se eu não tinha feito de propósito, porque acharam um "burdoguinho" embaixo do colchão - sem registro, é claro. Consegui um empréstimo para fiança, o que estou pagando até hoje. E até hoje estou esperando sair a decisão do prcesso que movi contra a fábrica de camisinhas de framboesa.

1 comentário:

Deco Ica disse...

O que eu posso dizer? O que você quer que eu diga?

Gostei pra caralho desse conto, só isso que posso dizer sem soar como bajulação gratuita.