quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Seção Literária ataca novamente: "Na Curva do Rio": "Dividindo os ovos da cesta"

O começo de 1979 se tornou difícil com a aproximação de Sampaio e Maranhão da Seccional de Taubaté. Os negócios oficialmente se tornaram mais difíceis, pois a publicidade negativa do crime contra os Kuriyama afastou muitos dos amigos de interesse dos Benevides, inclusive dentro do Legislativo e do Judiciário na Praça da Bandeira em Caçapava. Num quadro de agito, Jô e Zoinho deram ordens para todo mundo ficar na paz, numa relax, e esperar que a palha se queimasse por completo. Aproveitando os lucros obtidos antes do fatídico dia 15 de novembro, os irmãos compraram uma propriedade de 5 hectares em um planalto, próximo à Via Dutra, cuja vista dava para o Rio Paraíba e para o primeiro porto de areia, na antiga propriedade dos Borges.
Numa manhã de março de 1979, Pedro Benevides olhava através da janela de seu quarto na mansão próxima a Macabu, e viu algo que fez um estalo em sua cabeça. Muito mais que a ressaca de vinho do Porto e as duas garotas de programa paulistanas que dormiam em sua cama king-size. Pela janela de seu quarto, via-se a Via Dutra, e ali teve uma idéia para um novo negócio para os irmãos de São Manoel.
Na Via Dutra, havia um comboio de caminhões parados. Enquanto que o caminhão da frente estava consertando um pneu furado no cavalo mecânico, os outros dois caminhões que o seguiam aguardavam poucos metros adiante. Uma cena que não diria absolutamente nada, se não fosse o fato que os três caminhões, com carreta dupla, eram “uniformizados”. Ali teve a idéia: de nada adiantaria ser os reis da Areia de Caçapava, se dependessem de caminhões de outras companhias para levar seus produtos para outros lugares.
Na mesma manhã, foi até a parte do irmão na propriedade para tomar um café-da-manhã e colocá-lo a par da idéia.

- Zoinho, essa idéia é até que interessante, mas você se esqueceu de uma coisa: a gente já tem nossos próprios caminhões para levar nosso material pra São Paulo. E olha que a gente acabou de fechar contrato federal com Resende e e um negócio perto de Angra. Tá tudo rodando sem trauma. Pra quê ficar complicando a coisa toda, caralho?!
- Mano, você não tá entendendo a parada. A gente é dono de tudo isso aqui, certo, é uma maravilha, eu não tô reclamando de nada. Mas a gente deu muita bandeira com essa história de “Guerra da Areia”. Daqui a pouco o pessoal encarniça na gente, e aí tamo fudido, pra pegar cana braba! Tá na hora de ter uma postura mais democrática. O país tá abrindo, você não viu na tevê? A gente pode até deixar que outros venham e tirem uma parte do bolo. Só que aí a gente combina que só tem uma empresa que trabalha com o transporte de matéria-prima. E é aí que tá a grana. Quantas empresas de transporte desse tamanho você conhece? Duas? Três? A gente coloca uns cinco ou seis caminhões nossos pra levar a areia deles pra tudo quanto é lugar, e beleza. E pra quê ficar só com areia? A gente começa a fazer carreto de tudo quanto é coisa pra tudo quanto é lugar. Ainda não tem muita gente pensando nisso, pelo menos nesses lados do Estado. Ontem eu vi três caminhões dando bandeira na Via Dutra – eles estavam trocando pneu, e eu reparei que eram de uma empresa transportadora. Grana limpa!
- Quer dizer que...
- Isso mesmo. A gente deixa os patos virem, eles tiram a areia, só que a gente oferece pra eles uma empresa trabalhe com caminhões retirando a areia dos postos. Eles passam o trabalho fácil e a grana deles pra gente. Todo mundo fica feliz, e todo mundo fica com grana no bolso. Eles com a areia, e nós com a grana deles, além dos nossos portos. Sem contar com o lance da transportadora.
- Isso se eles toparem. Afinal de contas, se a gente começou com nosso caminhão, por que ele não iriam-
- Mas é aí que tá o pulo do gato. Nessa hora, a gente coloca uns guerreiros nossos pra fazer a função. Deu certo antes, por quê não vai dar certo agora? Porra, a gente manda nesse negócio na cidade. Tá todo mundo fechado com a gente. Bem que podemos tomar parte nessa coisa e dizer quem entra e quem fica! Tá na hora da gente pensar grande!
- Tá certo. Cê faz idéia de quanto custa um caminhão, uma carreta, um motorista e toda essa porra que precisa pra rodar por aí?
- Quanto vai custar não é a coisa mais importante do mundo. Você precisa ver o quanto vai ganhar! Eu andei fazendo as contas e, de cada dólar que a gente colocar nisso, é bem possível que a gente ganhe quatro e sessenta. E isso em menos de um ano! Onde você vai conseguir quase tudo isso, só entregando areia em cinco caminhões basculantes? A gente precisa ficar de olho no que acontece lá fora: o milagre acabou! As obras tão acabando! Vamos vender areia pra quem? Pra conjunto habitacional? Pra favelado, descendo o caminhão no Rio? Tá na hora de ganhar dinheiro em cima de quem já tem dinheiro, Jô!
- Tem certeza?
- Vai por mim. O negócio é limpo! Seis dígitos no extrato! E em doletas!
- Certo. Só que vamos precisar de uma ajuda com esse negócio de convencer a concorrência a colocar a areia deles no nosso caminhão.
- E quem disse que o negócio vai tá no nosso nome? Aí é que está o drible da vaca: a gente cria uma empresa fora daqui, com outro nome, com outro dono, traz ela pra cá pra fazer as entregas pra gente, paga da gente pra gente mesmo e deixa um trocado pro laranja.
- Porra, você quer começar um negócio e quer me passar pra trás na caruda?
- Caaaalma, pra fazer dinheiro tem que gastar dinheiro, já disse o Sílvio Santos. Primeiro, a gente começa com contrato de exclusividade com a transportadora. Depois de um tempo, eles vão se impressionar – vamos comprar os caminhões mais fudidos que tiverem, pra chamar atenção mesmo, rodar no centro, bancar evento, fazer a transportadora ser notada. Se for preciso, a gente compra pauta em jornaleco daqui, rádio, coloca que somos a melhor empresa do Ramo segundo uma avaliação feita por não sei quem... A gente faz a imprensa trabalhar do nosso lado.
- E onde mais você acha que isso pode dar certo?
- Vamos rodar só na área tranqüila – aqui no Vale, em São Paulo, na entrada do Rio e olhe lá, não quero perder caminhão no começo assim de bobeira na mão de malandro. Depois de um tempo, a gente abre os contratos pro resto do pessoal, e o dinheiro que a gente pagava pra transportadora, aí os outros que vão pagar. E aí a transportadora aumenta o preço – culpa é dos energéticos, oras! Viu o preço do diesel? Pronto! Dinheiro limpo, sem treta, sem porra nenhuma enchendo o nosso saco.
- E quanto morre pra essa brincadeira toda dar certo?
- Cem mil.
- Cruzeiros?
- Dólares, né? Cinco caminhões, mais as carretas... É esse o preço mesmo!
- Aí você fode com o meu rabo. Cem mil dólares é a grana de um semestre inteiro de um dos portos. E olha que dois dos nossos estão começando a chegar na bita.
- Vai por mim que se paga. E de mais a mais, o geólogo que a gente contratou constatou que Caçapava inteira tem uns trinta lugares, na beira do rio e fora dele, que dá pra extrair areia.
- Alguém mais sabe?
- Pedi sigilo absoluto. O cara é virgem no assunto, tá fazendo tese de Mestrado sobre a geografia local. Banquei a parada dele, desde que ele assinasse um compromisso de que omitiria essas partes do trabalho final dele.
- Hmm... E quem você tá pensando em colocar pra ser o homem de frente da transportadora?
- Estou pensando no Cocão.
- Cocão?
- Por quê?
- Você sabe muito bem que nesse lance o cara tem que ser guerreiro, e dos nossos. Porque se der nele de tentar passar a gente pra trás, eu dou xeque-mate nele. E se você me aprontar, eu dou xeque-mate em você também. Pensa bem nisso, viu?
- Caralho Jô, eu sou a porra do teu irmão!
- Por isso mesmo. Eu aceito que pode aparecer sacanagem de qualquer um. Do Bacchi querendo mais grana, do Castro pra não aparecer mais que o Bacchi, do prefeito querendo mais pra continuar as concessões da Prefeitura... E até, e principalmente, do Cocão que pode dar uma de esperto se a gente der bandeira. Porque eu sei que aquele criolo, de tonto, só tem a cara. Só que do meu irmão eu não aceito falsidade. Tá compreendido?
- Como cristal.

4 comentários:

W. Fernandes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
W. Fernandes disse...

Ow Diniz,
vagando pelas esturturas de poder da região, é?
Cuidado em rapaz, se algum louco com mania de perceguição ler isso aqui... rs
Divide-se os ovos, mas a galinha já é outro papo...
mas ficou bem feito, tipo "O Invasor"
abraço!

P.H. disse...

Eu estudei com um cara chamado Cocão. Será o mesmo? rs

P.H. disse...

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