quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Notes of a Defeatist - com todo o respeito, Joe.

Nove e quarenta da noite.

Dois dias sem dormir. Dois malditos dias. Num deles eu acordo gritando no meio da noite, colocando taquicardia na minha mãe e fazendo o meu velho ter a idéia de ir rezar em Aparecida. True faith. No outro dia, no estado hipnagógico da fronteira da vigília e do sonho, eu vejo de novo. A mesma pessoa. No pé da porra da minha cama. Novamente eu desperto, só que dessa vez sem gritar. Fico como um zumbi na frente do teclado por mais de cinco horas, esperando que fique pronto o download do OVA do Sanctuary. Eu vejo-o como uma porra de filme mudo, porque as caixas de som viraram torrada no último churrasco - um erro de voltagem que pode acontecer com qualquer um.

Cinco coisas que estão no meu alcance visual, exceto o monitor: a minha foto emoldurada com a Pretinha, onde ela morde minha bochecha direita com uma cara marota. O caderninho de cartões, com o cartão do Roberto C. separado do bando. O calendário, com o mês de dezembro me encarando. Um Mikoyan-Gurevitch 15 com pinturas de camuflagem e matrícula da Força Aérea Popular da China em posição de decolagem. Um controle para computadores com os botoes trocados, que me custou bastante dinheiro.

Acho que perdi o sono desde que eu percebi que, nesse exato instante, o Via Vale é a melhor coisa que eu consigo nessa porra de universo. Talvez no Universo Paralelo, o mesmo onde eu escolhi ir para o Rio, ou o que eu fiquei fumando maconha e cheirando cocaína em vez de estudar e ser um nerd, seja melhor que este. Talvez seja pior. Eu não sei.

Só sei que eu estava esperando o gordo aparecer. Tinha marcado com ele ao meio-dia. Mas apareci 1h da tarde só de sacanagem. Ele ainda não tinha chegado, no caminho ligou para avisar que demoraria um pouco, precisava levar o carro dele ao conserto. Conversamos sobre o tempo, sobre Taubaté, como aquela cidade promete muito mais que aquela cloaca fissurada que se chama Caçapava. Cidade de gente mesquinha, cidade de Vilelas e Doutores. Cidade que abriga Césares Nascimentos. Se não fosse pelo Exército estar montado lá, não seria melhor que Jambeiro.

Tentei falar sobre o motivo do encontro com o cara: a possibilidade de voltar a trabalhar no Via Vale. Deixei bem claro: não antes de janeiro. Eu queria ter um gole a mais de liberdade, um gole a mais de independência, uma chancezinha a mais, à la Oskar Schindler, de conseguir salvar minha alma do limbo que é o Vale do Paraíba (na questão jornalística).

Saio acenando um retorno. Eu sou o Diego Lugano do jornalismo caçapavense.

No curto-prazo, me ofereço para fazer um free-lance sobre uma sessão de Câmara do barulho. Um bando de perueiros não quer perder a boquinha no Transporte Público e foram com cartazes de WWE, fizeram encenações. O outro lado respondeu à altura e bateu boca. Um vereador minimalista cede tempo e desconhece o que está votando. Mas sai aplaudido de pé pela claque. Deus abençoe a democracia brasileira.

Mas não querem apenas o meu dedo. Querem o meu joelho, as minhas duas rótulas. Querem que eu volte. Volte para mim, meu amor. Eu sei que fiz errado. Eu vou mudar. Eu serei uma pessoa séria. Minha vida profissional virou um rascunho de letra do Tim Maia depois da ressaca de brizola quando a sua primeira esposa o largou.

Uma república de paulistanos carcamanos. O ostracismo de escolhas erradas. O medo alheio de que eu virasse um pastiche de Cho Seung Hui. Dívidas com um bando de maconheiros japoneses-brasileiros. A prepotência de um professor "in the closet" que troca minha saída da Unesp por um livro sobre "homossexuais que fizeram história", como se precisasse fazer um livro sobre pessoas homossexuais que fizeram história. Meus pulmões vendidos para a Souza Cruz. Chorar de raiva até dormir porque eu estava separado por 450km da mulher da minha existência atual.

Tudo isso para acabar no Via Vale.

Para sair do Via Vale. E trabalhar para um judeu que não sequer cumpre suas promessas (me avise se conhecer um deles, quero abatê-lo, empalhá-lo e levá-lo ao Museu de História Natural em Nova Iorque).

By the size of this squeeze, I hope the juice has a wonderful taste.


PS: Meu dente dói. Pré-molar, canto direito da parte de baixo. Uma coisa "mara".

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De qualquer maneira, imaginem esse post em quadrinhos.

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