terça-feira, 4 de novembro de 2008

"Na Curva do Rio" chega na 2ª Temporada

O meio, ou “Bons Companheiros”

Conforme as previsões de Vanderlei Soares, o pior cenário aconteceu: o novo juiz da Primeira Vara Criminal de Caçapava se apresentou um mês depois da saída do seu antecessor. O Dr. Carlos Augusto Bacchi, de São Manoel, tomou posse da posição de Magistrado prometendo “um tratamento justo e igualitário para todos os munícipes”, dizendo que “o tempo da fanfarronice com a autoridade judiciária acabou”.
A primeira coisa a declarar foi a doação por parte de “membros da Comunidade que desejaram permanecer no anonimato” de um sistema de Teletipo para a rápida transmissão de dados entre o Fórum de Caçapava e o Tribunal de Justiça do Estado. Ao longo dos meses seguintes de 1975, o Fórum ganhou novas cadeiras, nova iluminação, e outras regalias para os demais ocupantes do Poder Judiciário.
Paralela e coincidentemente, as ações movidas contra a Benevides Areia & Pedra acabavam misteriosamente em um Universo Paralelo, que estava localizado na mesa de Osmar Castro, novo assistente da Primeira Vara. A gaveta comportava todos os pedidos de averiguação, mandados de busca e ordens para impedir os trabalhos da companhia de areia. Os pedidos, que ficavam numa mesa no canto da repartição onde se arquivavam os processos, acabavam por desaparecer como que por encanto. Por conta disso, oito auxiliares de limpeza foram demitidos em menos de um ano de trabalhos do Juiz Bacchi.
No mesmo momento em que as ações contra os Irmãos Benevides sumiam, os sintomas de uma nova crise apareciam no horizonte. Com o crescimento vertiginoso da empresa de Jô e Zoinho, outras companhias areeiras viram com bons olhos a região de Caçapava para seus negócios. A cobiça pela Cidade Simpatia devia-se ao fato que era a única cidade no Alto Paraíba que ainda não possuía uma legislação municipal que tratava diretamente da questão dos areeiros.
Para os prefeitos e vereadores, era suficiente que as empresas de extração de areia cumprissem seu papel no desenvolvimento da cidade – fornecendo impostos e cidadãos felizes, que votariam em quem os areeiros quisessem: neles, que também recebiam polpudos “auxílios”. O ponto alto foi um showmício realizado na Vila Donatelo, na região rural de Caçapava, que contou com a dupla em ascensão Alan& Aladin, em prol do prefeito Josué Gomes Barrada, abençoado pelos areeiros.
Por um momento, pareceu um jogo em que não havia chance de derrota. A Justiça segurava a onda que vinha contra Jô e Zoinho, que devolvia a gentileza com doações por parte da Comunidade. A Comunidade, em questão, era a Associação Comercial e Empresarial, onde ambos eram presidentes com menos de um ano de participação. A cidade, em seu setor econômico, apoiava o trabalho dos irmãos Benevides, que auxiliavam por meio de parcerias e ações beneficentes o hospital do município, escolas de Educação Infantil e a Associação Cívica, no Desfile do Dia de Homenagem aos Veteranos de Fornovo Di Taro e na comemoração dos 100 anos da elevação da Vila de Caçapava à categoria de Cidade, em 1975.
A competição dentro do ramo de extração de areia chegou a ser problemática por algumas semanas para os irmãos Benevides, mas foi contornada em tempo com uma guerra-relâmpago. A ação foi coordenada com o Judiciário local que, desejando mostrar que “não protegia os areeiros” conforme se comentava entre o povo, começou a ir atrás das companhias de extração de areia – as concorrentes da Benevides. Ao mesmo tempo em que Castro lacrava as bombas de um lado, Cocão e seus colegas de trabalho montavam seus equipamentos do outro lado, com a conivência dos oficiais de justiça.
Porém, apenas uma pessoa resistiu à onda-de-choque do juiz Bacchi: Elias Onishi Kuriyama. E por resistir ao primeiro impacto, foi vítima de um suplício dez vezes maior.

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Primavera da Guerra

Não demorou muito para que a “Guerra Fria da Areia” saísse do ponto de congelamento e começasse a um novo passo. Em menos de dois meses, duas pessoas desapareceram depois de deixar o trabalho, em portos de areia que competiam pela calha do Paraíba.
O caso mais traumático na primeira disputa entre os areeiros de Caçapava aconteceu entre os Irmãos Benevides e o diretor da Kuriyama Materiais-Base Ltda, Elias Onishi Kuriyama. Elias era um engenheiro formado em São Paulo que, durante um estágio em uma empresa de construção e, observando os números, percebeu o tino comercial para o investimento no mercado de areia e pedra para construções. Com a ajuda de dois primos, um irmão e dois cunhados no Japão, levantou os fundos para a primeira empreitada no mercado de areia, que começou no litoral do Paraná. Depois de alguns revezes, percebeu que a qualidade da areia estava em bancos geológicos mais antigos, como os do Vale do Paraíba.
Chegou a Caçapava em 1975, duas semanas após o aniversário de 100 anos do município. Sem que nenhum dos irmãos Benevides pudesse dizer algo, Elias Kuriyama montou seu escritório em uma residência afastada, próximo à Vila Militar do município. De uma simples casa, comandava pelo telefone acordos com um proprietário de um arrozal na divisa com Taubaté, onde conseguiu mediante a promessa de manter uma porcentagem de 5% sobre o lucro líquido dos contratos de extração.
Conforme o negócio começou a expandir, mais pessoas do grupo de Kuriyama começaram a chegar para auxiliar nos trabalhos. Em 1977, ele esteve à vontade para comprar um sítio em Jambeiro e se mudar para lá com sua família. Sua esposa Karen, e seus dois filhos Roberto e Leonardo não encontraram problemas para se adaptar ao clima provinciano da cidade.
Porém, não foi apenas tranquilidade que Kuriyama ganhou conforme foi se estabelecendo, à sombra do trabalho de Benevides e do juiz Bacchi. O sansei ganhou uma empáfia depois de derrubar três sentenças da justiça municipal, se tornando mais que um grão de areia entre os dentes dos tubarões de Caçapava.

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O ponto alto do desafio de Kuriyama foi durante a inauguração da nova sede da Associação Comercial e Empresarial do município, onde a obra teve grandes contribuições da empresa de Joaquim e Pedro. No momento em que entrou no recinto, onde afirmou, diante de todos, que estava concorrendo ao cargo de presidente da ACE para a próxima gestão.
Todos na sala sabiam que a ACE de Caçapava existia unicamente por conta da Benevides Areia & Pedra, e ela era um dos sustentáculos da influência de Jô e Zoinho.

- Japa, o que tu ta pensan-
- Eu não to pensando, eu to fazendo, seu merda. Acha que você é o cara mais durão daqui, só porque tem umas tatuagens de cadeeiro e é de fora da cidade? E daí, eu também sou de fora. No mato que você lenha, eu também vou lenhar, goste disso ou não.
- Negócio de areia e pedra não é tinturaria, muito menos banca de pastel. Se você ta achando que é fácil, eu quero ver como você vai reagir na hora H – disse Jô, murmurando ao ouvido dele no final da cerimônia da ACE.

***

Depois de semanas sem se concentrar por causa da rebeldia abaixo da linha da cintura, Ricardo Sampaio descera ao nível mais baixo dentro da sociedade conservadora de Caçapava e contratara os serviços de uma profissional. Obviamente não executara o serviço em sua própria residência, sabia que aquilo renderia comentários e poderia colocar sua autoridade em risco, por isso matou sua fome nos quadris de Lídia, uma ruiva natural que fora apresentada por Silvana Borges (cafetina conhecida e preferida entre a classe do combate à lei no Vale) na vizinha São José dos Campos. Chegara tarde da noite e, cansado pelo esforço que as duas horas lhe tomaram, se limitou a engolir um comprimido pós-bebedeira e ir para a cama.
O telefone soou escandalosamente por volta das cinco horas da manhã do dia 18 de novembro de 1977 na casa do único delegado de Caçapava. Pensou ser apenas um sonho, onde ele via ninfetas de quatorze anos fazendo coreografias à la Esther Williams, e a campainha poderia fazer parte da trilha sonora, enquanto pequenas loiras e morenas desfilavam de biquíni. Irritado pela interrupção do sonho, Sampaio arrastou-se até a sala.

- Doutor Sampaio? Aqui é o Linhares.
- Fala mas fala baixo. São cinco da manhã e eu ainda quero dormir um pouco.
- Achamos o japa.
- Vivo ou morto?
- Morto. Só que tem um porém.
- Ele ta meio morto, é?
- Não. Pegaram a família inteira dele.
- IML de Taubaté, né? Chego aí em meia hora.

Bateu o telefone e cheirou levemente os dedos, se lembrando do perfume no colo de Lídia e pensou que o dia poderia ser bem pior, se não houvesse comido uma boceta.
O delegado da Seccional de Taubaté estava na porta do Instituto Médico Legal de Taubaté, encostado no batente da porta corrediça para o pátio onde ficavam os rabecões. Dr. Arlindo Maranhão, veterano no certame, fumava um cigarro com uma cara de asco e de revolta. Quando o novato no comando da Civil na cidade vizinha chegou, chamou-o de lado com um tom de voz baixo, porém nitidamente amedrontador, como um pai que dá uma bronca sem levantar a voz: “Eu não sei como você trabalha, não interessa como você trabalha. É uma coisa sua. Mas eu realmente gostaria de saber, se não for incomodar, o que em nome de Deus você está fazendo na sua cidade. Porque uma coisa é um fazendeiro matar um desafeto numa briga de bar. Uma coisa é um assaltante que deu azar. Outra coisa são sete membros de uma família torturados, mutilados e afogados na piscina de casa, já estando azuis porque estavam desaparecidos há três dias”. O tempo demorado para a descoberta devia-se à natureza reclusa dos Kuriyama e a dispensa dos criados da casa de campo, pois a família viajaria para Bastos no feriado prolongado de Proclamação da República. Mas nunca conseguiram chegar à estrada.
A notícia sobre a família Onishi já corria pela cidade, mas ninguém acreditava que todos os sete familiares (Elias, sua esposa Mariko, seus três filhos, um irmão e um cunhado) estavam afogados no fundo da piscina da casa da família. Entretanto, nada que Ricardo Sampaio tinha visto o preparara para a paisagem sombria da sala do necrotério: os sete corpos, alinhados, abertos como peixes limpos. “Isso era realmente necessário?”, pensou ele alto demais, sem ver Josué Motta, legista responsável pelo caso.

- Sim, era necessário.
- Lamento, estava aqui pensando...
- Não lamente. Um necrotério não é o Louvre. E isso aqui – apontando para os corpos - não é a Pietà, não precisa ficar admirado ou chocado.
- Meu nome é Ricardo Sampaio, sou delegado na cidade onde ocorreu o crime, vamos aos fatos.
- Preparado? Bom, deu pra notar que todo mundo foi pego de surpresa, porque ainda vestiam roupas de dormir, como pode perceber pelas crianças. O trabalho foi demorado, talvez coisa de horas, porque os ferimentos na face já apresentavam hematomas. Hematomas também nos pulsos e tornozelos mostram que foram amarrados fortemente. O que teve mais sorte, na minha humilde opinião, foi o cunhado, porque foi o primeiro a morrer, nas nossas contas. Ele estava seco e leve quando o encontramos, talvez porque alguém deu com algum objeto pesado na nuca dele. Pode ser um podão, uma pá, uma enxada, qualquer coisa assim. Tchuf.
- Certo. Você mencionou que ele estava seco e leve, o que isso quer dizer?
- Agora começa a parte interessante, se me permite. Os outros seis cadáveres, nós encontramos na piscina de luxo, sob quatro metros de água. Eles foram amarrados e, de alguma maneira, eles foram recheados. Com areia. Dos pequenos conseguimos tirar seis quilos de dentro do estômago e intestino grosso. Sim, eles enfiaram areia no estômago e no cu de duas crianças de cinco e oito anos, além de uma menina de doze. Filhos da puta.
- Puta merda...
- O irmão da senhora... Mariko, o fortão aqui, eles ainda tiraram bifes das costas dele. Veja essas marcas de facão – disse Motta, enquanto virava o corpo e mostrava profundas marcas com algo que lembrava um chicote. “Claro que eles também jogaram areia em cima dos ferimentos dele. A mulher teve os olhos arrancados e sua vulva costurada, e encontramos lá dentro meio quilo de areia também. Todos eles tiveram as mandíbulas quebradas, para facilitar a entrada do funil. Sabemos que eles usaram um funil por causa das marcas na garganta deles e, francamente, eles não fariam a brincadeira do aviãozinho. Dentro dos corpos dos adultos encontramos quinze quilos, arrebentou o estômago, órgãos internos, tudo. Estava uma zona quando abrimos. Depois disso, das torturas, dos cortes, do recheio de areia, eles foram jogados na piscina, para ter certeza que morreriam do jeito mais dolorido possível. Eu já vi muita coisa na vida, meu primeiro trabalho foi juntar os pedaços da segunda vítima do Chico Picadinho, mas eu juro pela alma da minha avó Enriqueta que eu nunca vi uma demonstração dessas. Quem fez isso não tem mãe”.

Sampaio saiu da sala de interrogatório sem dizer uma palavra, apenas conferindo o seu Smith & Wesson calibre .38 – checando a mira e se o tambor estava cheio, girando como uma roleta russa. Na sua mente, ele só tinha um desejo: colocar duas balas em cada joelho de Jô Benevides, sorrir enquanto ele agonizava de dor e deflagrar os dois últimos tiros nos culhões e entre os olhos do chefão da areia de Caçapava.

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