terça-feira, 11 de novembro de 2008

"Na Curva do Rio", a continuação!

A Corrida do Frangote

Sampaio saiu para o pátio dos rabecões com um passo calmo, que contrastava com o olhar vidrado. Sentia uma fúria contida, calma, quase que matemática. Sabia exatamente o que aconteceria: pegaria o Fusca da delegacia, iria até sua casa, ligaria para seu amigo Caio, na Capital, dizendo que deveria pegar uns papéis com ele em Caçapava. Desligaria o telefone, iria até os Benevides, mataria Jô sem um pingo de remorso. Sabia que poderia ser preso ou perder tudo aquilo que lutara para conseguir: carreira, nome, respeito. Mas a morte do chefão da areia balançaria as operações. Eles ficariam descuidados, não aparariam as arestas. Deixariam pistas de crimes do passado e do futuro. Seriam pegos. Todos eles. De todas as maneiras, por todos os crimes: ambientais, financeiros, contra a pessoa – tudo. Tudo porque alguém um dia teve culhões de apagar aquele tremendo filho da puta. O futuro recompensaria quem teve atitude.
Antes que pudesse colocar a mão na maçaneta do fusca, Dr. Arlindo foi ao seu encontro:

- Vambora daqui, eu odeio ficar nesse lugar. Esses rabecões cheiram a cu.
- Preciso resolver um negócio.
- São cinco da manhã de uma segunda-feira. Esse negócio pode esperar.
- Ah, não vai dá.
- Ah, vai sim. Antes que você pense que é o Charles Bronson e brinque de caubói. Não agora. Tem uma padaria aqui perto que vendem cerveja, dessas novas em lata de alumínio. Vambora.

Na padaria, a primeira a abrir 24 horas na cidade, ambos comiam um pedaço duro de torresmo, sobrevivente da fritada da tarde anterior e colocavam a cabeça em ordem:

- Novato. Menos de um ano no serviço. Nunca tinha matado ninguém, ou visto um cadáver que não estivesse em uma única peça. Tinha 28 anos quando comecei a trabalhar na Civil. Em São Paulo – sim, nós dois viemos do mesmo ninho, filhote. A questão é que eu comecei com um triplo homicídio. A mãe, o feto e uma criança de dois anos. Queimados vivos. A casa inteira fedia a chifre queimado, puta merda, dava pra sentir o cheiro do fim da rua. Era numa casa miserável num lugar esquecido de Deus chamado Engenheiro Manoel Feio. Nem era mais São Paulo, mas eu estava de plantão e eu queria sair um pouco, quando me chamaram pelo rádio-patrulha. Todo mundo sabia quem era: o marido goiano e corno que descobriu que nenhum de seus rebentos era o seu. Como eram pobres, dormiam todos na mesma cama de casal. Ele levantou, usou dois galões de querosene e colocou o quarto abaixo.
- E daí?
- Daí que eu quebrei a minha mão direita inteira, inteira mesmo, na cara daquele goiano safado. Pra mim, eu estava fazendo algo que merecia uma medalha, porque um puto como aquele não merecia nada menos que virar geléia na minha mão. Ele virou um vegetal. E eu fiquei dois meses suspenso e com uma seqüela na minha mão, que não me deixa mais tocar violão. Eu adoro tocar violão, e hoje sai com um som de merda porque não parei dois minutos para pensar qual seria o melhor jeito de fuder com aquele corno psicótico. Se eu não tivesse quebrado ele inteiro, ele não estaria hoje num manicômio judiciário, ocupando uma cama de hospital e comendo sopa de ervilha como um bebezão. Ele estaria no Carandiru, na Masmorra, com anemia e rezando toda noite para que possa acordar morto no dia seguinte, porque um traficante está louco para cortar a garganta dele com um pedaço de colher de sobremesa. Essa possibilidade, perto do que ele recebeu, é o verdadeiro inferno.
- Tá querendo o caso? Pode tomar. Eu já te adianto, não vai adiantar. Vai ter que ser pela Vara de Caçapava, e ele ta com o Judiciário na mão. Manda prender e manda soltar. Além do mais, não tem como colar a foto dele no crime da fazenda do japa.
- Eu não quero colar a foto dele, eu quero colar a foto do atravessador dele. Porque esse Jô Benevides não é idiota pra fazer qualquer coisa assim. Sabe o que eu acho? Ele chamou um amigo que contratou dois pé-de-breque por aí que toparam se divertir um pouco. Quem vez essa zona toda com eles eu aposto que é o amigo desse Benevides. E vai ser desse jeito que a gente vai pegar ele. Na hora que ele cair na mão da gente, ele canta feito um sabiá. E aí, depois que passa uma pica, passa todas, e ele vai abrir tudo.

Na manhã seguinte, a notícia do que acontecera na casa de campo havia percorrido todo o Estado. Jornais e rádio noticiavam o crime de Caçapava, sobre uma família inteira morta e torturada por assaltantes – a versão oficial dava a entender que era um acidente. Detalhes sobre como os Kuriyama haviam perecido ficaram obscuros por conta dos policiais, instruídos por Sampaio e Dr. Maranhão da Seccional. “Segredo de Segurança Nacional”, afirmaram em coro na reunião com todos os envolvidos, desde os investigadores aos motoristas dos rabecões.
Na continuação, a ordem era “arrochar” os negócios dos Benevides. “O negócio agora é fazer pressão. Nós sabemos que eles tem o motivo, que eles tem como fazer e que estão esperando a repercussão pra colocar como troféu de que ‘é isso o que acontece quando mexem com Jô e Zoinho Benevides’. Não vamos deixar esses filhos da puta ficarem se vangloriando. Cada um de vocês vai começar a bater forte nesses putos. Se ele mijou fora, se ele encostou o carro em cima da calçada, se roubaram uma bala da quitanda, é pra ir com tudo. Não alisa com esses putos. Eles vão ficar nervosos, vão fazer merda, vão deixar escapar alguma coisa. Sempre alguém fica com medo e pede arrego. E quando essa porta abrir, a gente entra e pega todo mundo”.
O plano contou posteriormente com a ajuda de Aparecido, de dentro do Fórum, que servia como um olheiro dos passos do juiz Bacchi, que estava no bolso dos areeiros. Ele notou uma movimentação maior dentro do Fórum. Doações de máquinas de escrever elétricas, ventiladores de teto e bebedouros gelados para o Fórum; casas, carros e viagens para os amigos e parentes do juiz. Jô e Zoinho estavam reafirmando o compromisso com o Judiciário para que os ajudassem. Não pelos belos olhos azuis, mas pela sensação que poderiam vir a precisar de um “gela” na sanha daquele delegado.
Não adiantou: a pressão em cima dos pica-grossa da Benevides continuou por todo o final de ano e entrou em 1979 com duas prisões para averiguação, graças à dica de Aparecido, que canto a bola de dois tipos suspeitos comentando coisas sobre o incidente na casa dos Kuriyama em plena Praça da Bandeira. Dentro do carro os policiais encontraram funis, cordas, pás e um saco com 30kg de areia no porta-malas.
Da delegacia, foram colocados em uma Kombi para um lugar isolado da civilização, onde conheceram um lado do jovem delegado que ninguém conhecia. “Vão dar outra festa na piscina, malandragem?”, brincou Sampaio enquanto montava a pianola. Seis horas depois, descobriram que se tratava de fato de uma tentativa de intimidação, pois deixariam o carro num porto de areia rival. Porém nenhum nome foi dado: nem de quem os contratara, nem sobre o que acontecera no 15 de novembro anterior. O caso dos japoneses virou um recado entre o submundo areeiro: se você gosta de areia, esteja pronto pra se entupir dela.
Quando Aparecido viu o zelo com que Sampaio tratava os dois durante as seis horas de “arrocha”, fazendo do pau-de-arara quase uma instalação artística hedionda, e o modo com que apagava um charuto nas costas de cada um para acender de novo, ele questionou o delegado sobre onde estava o espírito tranqüilo e conciliador que conhecera no primeiro dia. “Eu não vou atrás de comunista, eu já disse. Eu não sou da Oban. Agora com esses filhas da puta eu não tenho dó não”.

*-*

Era uma tarde tranqüila de quinta-feira, e Sampaio aproveitou para colocar a papelada em dia, sobre as ocorrências. Lentamente ele percebia que a história de que uma cidade do interior teria menos trabalho não passava de conversa para boi dormir. Os crimes eram os mesmos, e aconteciam na mesma proporção. Apenas não havia tanta gente para ver e comentar.
Foi quando seu subordinado, o escrivão Carlos Mendes, entrou na delegacia com um olhar de quem havia visto o próprio diabo e escapara do inferno, buscou os cigarros de Sampaio na mesa e começou a fumar com um olhar misturando terror e paranóia pura e simples.

- Fudeu, Ricardo, fudeu... me ajuda pelamordedeus, cara!
- Calma com o Brasil, meu filho. O que ta pegando?
- Faz duas semanas que eu não durmo, atiraram na minha casa, mandaram uma coroa de flores pra minha mãe, mataram a porra do meu cachorro e agora vieram terminar o serviço. Tem um filha da puta lá fora. E ele veio me pegar.
- Como sabe disso?
- Por que ele me falou que ia me matar hoje? Como acha que eu vim aqui no meu dia de folga?
- Ah, é? Tá certo. Vem comigo.

Antes de sair da sala, foi ao armário e tirou uma chave que trazia num cordão em volta do pescoço. No armário tirou um colete preto e uma submetralhadora alemã MP-40, de propriedade da delegacia. Do lado de fora, encostado em um Karmann-Ghia preto, esperava Cocão, um dos “amigos” de Jô Benevides, que aguardava a poucos metros da entrada da delegacia, numa esquina. Ambos pararam na porta da delegacia, onde fitaram o perseguidor.

- Hey, cidadão! É, você mesmo! – chamou Sampaio, da porta da delegacia.
- Pois não?
- Tu veio matar o escrivão porque ele trabalha comigo, né? Andou atirando na casa da mãe dele, mandando flor, o diabo a quatro?
- Não sei do que o Dr. Delegado está falando.
- Ele ta aqui. Mata ele agora.

Naquele instante, ele empurrou Mendes pela escadaria da delegacia, caindo a quatro metros de Cocão. Com a mão esquerda, que ele usou para empurrar o escrivão, fez um movimento diante do corpo, que encontrou o ferrolho da submetralhadora, que já estava à vista de todos os transeuntes. “Já ouviu falar de um cara chamado Tenório Cavalcanti? Então, eu sou mais loco que ele usando pijama. Se for matar o cara, mata agora, ou não mata mais. Se der a ordem, eu mato ele por você, depois eu encho essa jaca que você chama de cabeça de chumbo, depois eu vou atrás do seu patrão, que essa bosta de cidade inteira sabe quem é”, disse o Delegado Sampaio, usando o colete de identificação da Polícia Civil, usado em intervenções.
Cocão se limitou a dar dois tapas na parte esquerda do abdome, onde deixou transparecer a silhueta de uma pistola sob a roupa, e entrou no carro. Passou lentamente pela porta da delegacia, apontando para Sampaio com o dedo e o polegar em riste, como se fosse uma arma. O “forasteiro”, como era chamado Sampaio, se limitou a levantar a arma à altura da cabeça com a mão direita, enquanto que a esquerda acomodava as bolas sob a calça social preta.
Com toda a calma do mundo, com passos de dançarino, Sampaio tirou o pente da MP-40, ejetou a bala que estava na agulha, e colocou a arma no balcão do plantão policial. Puxou um telefone para perto dele e discou para a Benevides Areia & Pedra, onde foi atendido por Zoinho:
- Pronto?
- Oooopa, Zoinho, tudo em cima? Aqui é o Dr. Ricardo Sampaio, tudo bem? Não desliga que eu quero falar duas palavrinhas com seu irmão, ele ta aí?
- Espera um pouco...
- Fala, doutor – respondeu Joaquim.
- Oooopa, tudo certim? Escuta só, um amigo seu, o tal do Cocão, passou na frente da minha delegacia ameaçando de morte um dos meus. Eu só liguei pra avisar: se alguma coisa acontecer com qualquer um dos que trabalham comigo aqui em Caçapava ou com suas famílias ou amigos, eu mesmo vou aí e encho o seu rabo de bala, porque o seu Cocão trabalha na sua empresa, e a responsabilidade vai ser sua. Tenha um bom dia, passar bem.
- Você enlouqueceu, né? Dando arrocha nos caras do Benevides, sacando uma metralhadora no meio da rua, se não te matarem, eles te processam. Você quer virar herói nessa cidade? - perguntou o escrivão com toda a preocupação do mundo estampada no rosto.
- Não. Eu só vou contar um segredo, não espalha pra ninguém: quando esse filho da puta cair, eu vou embora sapateando como em filme do Fred Astaire, porque eu já estou de saco cheio dessa cidade, desse povo jeca, de não conseguir uma boceta pra comer por comer. Cansei de ser o cara bonzinho. Além do mais, não espere que eu seja educado com esses cornos, porque eles vão só tomar no cu enquanto eu for delegado dessa cidade. E agora você pode apostar que ele está correndo agora pra contar pro patrão, então o patrão dele vai ficar tão louco que vai fazer merda. Quanto mais a gente colocar adrenalina neles, mais fácil fica pegá-los. São que nem ratazanas.

(continua)

1 comentário:

ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga disse...

Diniz, a Íris me enviou um e-mail entitulado PARADA DA DIVERSIDADE HETERO... Muitíssimo válido o seu sacode, também tô se saco cheio desse papo de "cultura gay", "estilo de vida gay", "orgulho gay" e outras veadagens de bichas mal amadas que acabam se envolvendo com movimentos pseudo-políticos para aliviarem suas tensões sexuais. E daí se um casal hetero não quer ter um filho gay? É direito deles, não? Isso não significa que eles vão afogar a criança em óleo fervente caso o moleque goste de brincar de médico com os coleguinhas do futebol. Eu também não quero ter um filho malufista, fã do Black Eyed Peas ou assinante do O Globo... Tomara que eu não seja tomado como comunista ou petista da velha guarda por causa disso...