domingo, 26 de outubro de 2008

Números perdidos gravados na parede do Forte Apache, Uma Festa em Casa e o retorno à Ilha

Muita gente fica nove meses dentro da barriga e passa o resto da vida tentando entrar, como disse o cientólogo John Travolta naquele filme do bebê falante. No meu caso, foi uma coisa mais prolongada - foram quatro anos bem passados. E sempre que preciso recarregar as baterias, vou para a Fortaleza da Solidão baurulina.

Chamo de Fortaleza da Solidão porque aqui quase ninguém me conhece. Posso andar de bermudas e chinelos supermercado adentro sem ser incomodado. Posso dirigir de havaianas. Posso ficar com a barba - mesmo que cheia de falhas - completamente cheia e descuidada. Se eu tivesse uma fachada um pouco mais rústica, poderia entrar num velório na Azarias Leite e dizer "Eu quero voltar!".

Depois das desventuras em Caçapava (onde acabei por fazer meu karma definitivamente para o PT, nos moldes de Fallout 2), resolvi sair do Vale do Paraíba por uns tempos, esfriar a cabeça e pensar no futuro olhando para o passado. Bauru, a Cidade Sem Limites.

Foi pelo telefone, como naquele samba, que eu soube que toda a minha batalha em Caçapava tinha sido em vão. Um misto de raiva, alívio, impotência e emputecimento foi a tônica interna nos últimos 220 Km da viagem entre o Rodoserv Star (em Bofete) e Bauru - imaginando onde, quando, como e com qual palavra o Doc Paul conseguiu jogar fora a chance de tomar o trono do Paço Municipal.

A maioria do tempo, confesso, fiquei morgando de cueca no sofá. Não necessariamente de cueca, uma vez que me hospedei em um ambiente feminino. A boa notícia é ver o fetiche de calcinhas penduradas no box, perto do chuveiro. A má notícia é acompanhar a mania das séries para meninas - a do hospital onde a doença é apenas um detalhe, no meio de pegações, lesbianismo e afins; a série das donas de casa mal-comidas; a série das patricinhas cheiradas e fãs de moda de Novaiórque.

No meio de tudo isso, apareceu uma festa. Na Palestina. Siiiim, a eterna Palestina, berço do céu e inferno adventista de 2003. Não sem antes encontrar os bons amigos: Rico, Betinho e Mário, bebendo e lembrando a thutcharia dos velhos tempos do Flambão, e principalmente tirando sarro com a cara do Dudu Nogueira.

Na casa mais underground dentro do mainstream de repúblicas, o reencontro de quatro ex-integrantes do cast original. "Festa em Casa". As cervejas e as gelatinas de pinga ajudaram a completar o clima de flash-back, que se fechou com o reencontro com o homem que está procurando espalhar o Kaoz mais rápido que a Máquina do Big-Bang. Infelizmente, por causa das cervejas e as gelatinas de pinga, eu não consegui encontrar nessas duas semanas a casa do miserável pra colocar a conversa em dia e zerar a garrafa de pinga caçapavense comprada unicamente para a ocasião.

Mais do que fugir um pouco do caos que se tornou o Vale pós-5/10, eu voltei para tentar descobrir a distância entre as coisas que eu era aqui (no passado bauruense) e o que eu me tornei lá (no presente do mundo real). Para isso, eu consegui encontrar talvez a única pessoa que assim como eu queria voltar para a floresta da Ilha da Unesp.

Andando no meio da noite pelas salas 50, eu encontrei os sinais do Kaoz. Senti orgulho porque eu vi que alguém estava fazendo algo para manter o lugar rodando, sem ser a mesma tacanhice. Passando pelo velho departamento, não passei por revista apenas por estar usando uma jaqueta, e pude mostrar que eu estava lá, gravado de um jeito ou de outro. Não tão espalhafatoso quanto o pessoal de RP, mas ainda sim é uma coisa.

A caminho da velha cantina, puxei um banco com minha parceira de arqueologia para, sob um céu quente e cheio de ventanias, sem o cheiro das Damas-da-Noite, ter uma pequena epifania sobre aquele lugar que hoje nos parece o paraíso perdido.

"Sabe, nós passamos por aqui, e tudo isso aqui é nosso, é a nossa cara. É o que somos. E ela nos torna o que nos torna. Depois que vamos, tudo fica fora de lugar, como se outros viessem e nos tomassem o lugar". Ela falou isso sentada num banco de uma imobiliária que não existe mais e que ainda está com o seu número de telefone com sete dígitos gravado na pedra-sabão.

"Então", retruquei, "devem ter um André Diniz e uma Juliana R. soltos por aí. Um moleque gordo sonhando com o futuro sem tirar os pés do passado, e uma jovem que passou sua vida inteira esperando viver e quando consegue, não sabe como agir. Não com os mesmos nomes, mas com os mesmos casos. A Unesp vai fazer com que aprendam".

Naquela hora concordamos que era hora de beber uma cerveja no Ubaiano. Não sem antes passar por alguém que parecia ser uma Flor Incandescente. Mas não era. Coisas da vida.

Em suma, ainda há muito para ver, mas o tempo e o dinheiro não permitem. Dia 21 estaremos aí de novo, para poder fazer a coisa do jeito certo.

2 comentários:

saddam gos disse...

se estiver em bauruland ainda, benjamin constant, 4-61

Deco Ica disse...

Seu texto me tocou, e não poderia ser diferente. Nesses mesmos bancos de pedra sabão, mais do que o nome de uma velha imobiliária, está gravada também uma parte da minha história. Mui lindo, André.

É a nossa vida.

Abraço!