quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Meu Nome Não É Duda Vilela - um relato sobre 14 meses na Cidade Antipatia.

Nos últimos três dias, pensei e muito para escrever essa coisa aqui. Te juro, cara. Pois é uma coisa que não volta, assim como a pedra lançada e o busão para Pindamonhangaba saindo da rodoviária de Caçapava depois das onze da noite.

A Cidade Simpatia não me deu régua e compasso, mas ainda sim me deu gravador e um curso relâmpago de fotojornalismo. Todos os paradigmas que eu havia conhecido no curso de jornalismo - ética, comprometimento com fontes, uso do off, tudo isso - acabaram virando mais inúteis que o barro ressecado no carpete do meu carro em frangalhos. Dizem que as coisas no interior são bem diferentes da capital. Concordo. As meninas são relativamente mais fáceis, a cerveja é mais barata, a cachaça é mais forte e os ânimos mais exaltados. 

Quando cheguei, eu era o caipira, o forasteiro, o elemento avulso. Mas com o tempo acabei por ganhar a confiança dos nativos e comecei a ter o privilégio de presenciar algumas das manobras. No meio dessa roda-viva, tive tempo de conhecer gente interessante. Gente que eu só tomava conhecimento pela televisão. Gente picareta. Gente honesta. Vi negociatas sendo fechadas na minha frente. Muitas. Ouvi histórias que me inspiraram em outras coisas que escrevo aqui (inclusive o Na Curva do Rio, que eu tenho ele todo na cabeça mas ainda não achei tempo para colocar no papel). À bem da verdade, Na Curva do Rio foi um crime real que aconteceu no começo dos anos 70. Mas isso não importa.

Voltando aos trilhos... Depois de quase um ano no esquema governista terceirizado, o grilo da minha consciência começou a chutar. Por todos os lados, eu começava a me coçar com a mão dos Demoniocratas em torno do Vale. Via nisso algo de errado, e eu resolvi chutar o balde. Pedi as contas do meu primeiro emprego, e resolvi apostar tudo no meu sonho universitário: participar da equipe de imprensa que colocaria um cara de esquerda no poder.

Nessa empreitada, conheci um mundo à revelia dentro do microcosmo caçapavense. Pessoas que tinham muito mais a mostrar, a contar, a oferecer para aquela cidade que dois cariocas picaretas, um joseense com a cara do Zacarias e dentistas que, por fornicarem com o Executivo (literal e figuradamente), conseguiram a pasta da Saúde. Dentre as principais descobertas, foram a jovem idealista e corinthiana fanática, que provou ser uma irmã de armas como há muito tempo eu não via, e que não aceitava desaforo de ninguém, nem mesmo do supervisor hebreu, que é tricolor doente. E sem dúvida, o Sr. "S". Sindicalista velha-guarda. Maloqueiro das antigas, sempre de calça branca e camisa vermelha. Conhece os sambas das antigas, e cada bar, cada biboca e cada muquifo de Taubaté a Jacareí. Sempre com um sorriso que desarma a intenção, mas que posso apostar que esconde algo além dos limites da aparência. Pois, venhamos e convenhamos: ninguém é envolvido na luta operária por mais de 30 anos sem ganhar cancha, marra, conhecer pessoas e fazer coisas que até mesmo Papai Noel duvida.

Confesso que, por um breve momento, eu lembrei da passagem de Musashi no castelo de Yagyu (na visão do cartunista Takehiko Inoue). Da mesma maneira, eu quis saber um pouco sobre o homem que cativou não apenas a mim, mas a todos que o conheciam. Ele se negou a dizer sobre a vida dele, mas deixou apenas uma frase, durante uma das conversas dele movidas a cigarros Roliúde vermelho e conhaque Dreher: "Talvez eu lutasse em 32 se estivesse lá, mas se lutasse 32 jamais poderia estar em 68".

Para uma pessoa desatenta, essas palavras podem não ter muito sentido prático, mas permita-me uma interpretação: por mais que os dois movimentos possam ser colocados como "gritos de liberdade", nenhum deles poderia coexistir no mesmo espaço ideológico. Deco Ica está aí pra me dar razão. Mais do que derrubar um regime fascista militaresco para o retorno da democracia, eu compreendi que a luta de 68 era para derrubar o regime fascista por uma democracia que não seria abalada por crise econômica, de egos dentro de um partido político. Era poético, como todos os textos comunistas (Não socialistas) o são.

Mas para cada rosa, dois espinhos. Uma coisa que eu temia que poderia acontecer e acabou acontecendo foi a natureza humana que aquilo tudo foi conduzido. Não falo apenas da campanha onde estive do lado de dentro do balcão, mas como pessoa que enxergava todas as campanhas. Comparado com cidades próximas como Taubaté e São José dos Campos, onde existiam carros de som de verdade, equipes de imprensa de verdade (sim, pois sou autocrítico, e vou falar sobre isso no próximo parágrafo),  com campanhas e convidados de verdade. E que eram bem explorados pelos marqueteiros. 

Mas "pelos bagos de Marlon Brando", como pode dizer que não trabalhou em uma equipe de imprensa de verdade, André? Simples. Porque éramos imprensa, jurídico, almoxarifado, radioescuta. Tratávamos dos egos, apagávamos incêndios. Éramos, em essência, o comitê condensado em uma sala. E para cuidarmos de uma campanha inteira, não éramos pagos o suficiente. 

Mas a despeito das dificuldades e da própria mediocridade que a cidade de Caçapava - a quem eu sempre vou dever muito - tem, eu vesti a camisa da campanha. Parti pra cima. Torci junto como um jogador de futebol nos bons momentos. Talvez tenha sido este o meu erro. Eu acabei acreditando no meu trabalho. Acreditando na mágica. 

No fim, a mágica acabou micando. No último minuto, no Deus Ex Machina da urna eleitoral, o caldo entornou completamente. Por uma diferença pornográfica, a coligação para a qual trabalhei (e que por muito tempo disse que era "minha") foi derrotada pela vontade popular. Por um cidadão com 22 processos na Justiça, e uma família inteira sendo mantida em regime de sem-escravidão em uma fazenda no extremo-norte de SJC. Com um filho que faria o João Estrella ser um ladrão de padaria perto dele. Sem brincadeira. Com R$ 400 mil no bolso todos os meses para que uma empresa co-irmã possa recolher o lixo de Caçapava e mandar os dejetos para Tremembé. Com quase dois milhões de reais todos os anos, limpos no bolso, para permitir que empresas areeiras trabalhem com o mínimo de reposição ambiental nas calhas do Rio Paraíba. 

Diante disso, eu só posso dizer: Um povinho bunda merece um prefeito de merda. 

Nos vemos em quatro anos, se Deus quiser. 

3 comentários:

saddam gos disse...

vai vendo...

Bel disse...

Saudade de você! ^_^
Beijoca!

Deco Ica disse...

Se eu, que vejo a coisa daqui de fora, tenho nojo de política, imagino como não deve estar essa sua cabecinha... Linguiças e política é melhor a gente nunca ver como são feitas.

Mas não posso deixar de ressaltar que admiro a sua devoção à causa e você me dá a impressão de acreditar no que faz, meu caro André. Acho isso uma qualidade imprescindível para quem deseja chegar a algum lugar, e torço pra que você chegue logo, faça o buraco na areia e finque seu guarda-sol.

Abraço, meu amigo. E que a luta continue!