terça-feira, 1 de julho de 2008

Gil Grissom de cu é rola! - Uma breve resenha sobre "9MM - São Paulo".

O líder é jovem, carismático, aparece muito na televisão. Mas chegou trepando nas costas de um deputado federal de direita, dono de fazendas e de uma posição reaça como o Olavo de Carvalho. A "mocinha" da trupe é dedicada ao trabalho de combater os bandidos, mas não reconhece um playboy cheirado levando a filhinha do coração pro caminho dos tóxicos. O "carregador de piano" faz parte da parcela da população que cresceu com a criminalidade ao redor, mas resolveu mudar de lado - não completamente. O "aprendiz" faz sua "debut" comendo uma prostituta de 16 anos, trincadaça de pó, no banco de trás de uma viatura policial. O experiente da turma acaba reunindo tudo o que há de melhor e pior em cada um de seus colegas de time.

Há muito tempo esperava por um produto televisivo que fosse ao mesmo tempo emocionante, cáustico com a sociedade de consumo hedonista pós-anos 80 e fora do Padrão Globo de Qualidade (que dá um aspecto razoável, boas interpretações e elenco, mas carece de gosto). O seriado 9MM - São Paulo (Fox) (que infelizmente se tornou minissérie) surge (infelizmente surgiu) na selva de sitcoms e seriados baseados em textos do Luís Fernando Veríssimo como um "copinho na oreia" de toda a estética americanizada de produção televisiva. E o faz com o máximo da ironia: num seriado policial, supra-sumo da ianquitude.

Primeiramente apelidada de "CSI: Brazil", a série produzida pela Fox Brasil está mais para o cinema de autor de Beto Brant (Os Matadores, O Invasor e Ação Entre Amigos, entre outros trabalhos) que para a série dos policiais científicos americanos. Em poucas linhas para pessoas que vivem com um QI abaixo da linha dos 100, é possível dizer que 9MM é um "Seriado policial em São Paulo com investigadores mas sem aquela coisa de ser incorruptível". Na comparação, o show brasileiro está para CSI como um Churrasco Grego está para um lanche do Burger King americano.

Para os reaças de plantão (que provavelmente deram gritinhos de alegria quando ouviram falar de um seriado sobre a Polícia Civil de São Paulo), o programa pega pela muleta de amparo de toda produção audiovisual nacional: a Lei Rouanet. Isso faz com que, em alguns momentos, as mensagens de bom-mocismo social acabam soando mais alto (no exemplo mais gritante, dois investigadores apertam um elemento que mexe com camelôs e perdem alguns segundos praguejando sobre os CD's piratas que ele vende, falando sobre os danos à 'indústria do audiovisual' - avise-me se eu estiver sendo Reinaldo Azevedo demais). Mas, superando o ranço inicial, a proposta supera as expectativas de todo e qualquer bom amante dos contos de 45 minutos.

O formato do seriado faz questão de desmitificar o trabalho dos policiais. Não existe supertiras, não existe supermáquinas de evidências, sprays de luminol ou qualquer outro truque de salão com as câmeras. Porém, referências com a realidade-cão estão sempre lá: reality shows, piadas com Jornal Nacional e Novela das Oito, personalidades políticas, tudo está lá para nos mostrar. O conchavo entre os dois lados da lei, o jeitinho, os contatos, está lá para ser visto. Não da maneira lúdica e inofensiva, mas quase visceral, gutural. Só não é mais gutural pelas interpretações dos atores, que infelizmente não encontraram a mão no princípio, mas foram melhorando conforme os episódios passavam.

A campanha viral que precedeu a série, com pessoas algemadas em orelhões por São Paulo e outas intervenções (como o Mr.Manson mostrou no Blog de Guerrilha), também mostrou o caráter de vanguarda da produção. Você provavelmente se perguntaria "que porra é essa" se visse uma pessoa careca, com uma camiseta preta com os dizeres "Bandido" na frente, algemado no poste de um orelhão. Atrás, os dizeres: "Para cada bandido preso, 13 estão soltos".

Pela primeira vez estava sendo feita uma série com os moldes dos contos de Rubem Fonseca, da maneira que deveria ser feita: sem pudores, sem controle na língua, sem qualquer freio moral ou ético. As personagens são tão humanas que o espectador não tem como evitar a empatia (ou antipatia). Apesar das limitações do talento do elenco (que, devido ao caráter indie, não conta com Lázaro Ramos e Wagner Moura,a Katie Holmes de Salvador), a fluência dos episódios é perfeita.

Como a natureza do show é tensa, a escolha das cores (sempre puxada para o cinza e o preto, da selva de pedra), os closes tremidos (como se estivesse correndo, e se escondendo de algo que acontece diante dos olhos), a trilha sonora que oscila entre o rap, o funkadelic e o rock de garagem (principais elementos cognitivos à criminalidade no inconsciente coletivo)... enfim, a "estética de cinema nacional tr00" faz com que as limitações sejam evaporadas em poucos instantes. Prova disso é a perseguição, durante o auge do primeiro episódio, realizada na estrada do M-Boi Mirim, à noite, entre um Opala preto e uma Caravan "de cor indefinida". Quer coisa mais "filme da Boca do Lixo" que isso? E empolga, o que é pior.

Neste momento, creio que o último episódio da série, morta no ninho, já tenha passado. Lamento por isso, e espero que alguma alma caridosa resolva levar a idéia adiante. Uma vez que o desperdício de uma boa idéia é quase um crime hediondo. Ademais, apenas me encorajou a fazer melhor o meu "Na Curva do Rio", além de reescrever algumas passagens de "Código de Honra", meu primeiro trabalho (pausa para "Risadinha do Arbex") como escritor de contos policiais, há mais de quatro anos.

2 comentários:

Whiskey Jack disse...

Eu vi umas imagens sobre o seriado numa revista.
Me pareceu bom.

Só assistindo pra eu opinar melhor.

abraços!

Deco Ica disse...

Não vi mais do que 4 minutos finais de um episódio, então não sei bem detalhes sobre a série. Os detalhes que eu sei são de bastidores, embora não muitos. Hahaha...

Abraço e leio a Curva do Rio assim que tiver tempo hábil.