terça-feira, 17 de junho de 2008

"Na Curva do Rio" - parte 3:

O Começo

Os irmãos Benevides estiveram ocupados durante o primeiro ano em seu novo negócio de extração de areia nas margens do Rio Paraíba. Longe da atenção popular, os dois caminhões seguiam pela manhã, voltavam à noite e faziam uma nova viagem noite adentro. Contra as recomendações e o bom-senso, eles viajavam pela Via Dutra, que se tornava um tapete opaco durante as madrugadas.
A razão de viajarem à noite também se fundamentava no fato que assim poderiam evitar as fiscalizações rodoviárias e policiais mais facilmente. “O Terceiro Turno é o mais fácil de dobrar. Quem tá trabalhando nessa hora da noite é porque é um fudido na vida, e precisa de grana”, afirmava Joaquim. Por isso, no porta-luvas ele sempre carregava, além do mapa e dos documentos, um pacote de notas de 20 cruzeiros para “desafogar” um vigilante rodoviário mais desavisado.
Nas primeiras viagens, quando ainda arrendavam parte da propriedade de Cido Borges, rizicultor com mais de duas gerações no ramo do arroz, eram apenas Pedro e Joaquim que faziam as viagens, em regime de rotatividade. Pedro de dia (por conta de sua vista), e Joaquim à noite (por conta de sua malandragem).
Conforme o tempo passava, dois caminhões e os irmãos Benevides não davam mais conta da demanda. Por conta de alguns contatos de Joaquim, conseguiram o fornecimento de areia para a criação de duas pontes no que mais tarde se chamaria Radial Leste. Com o contrato (e os 10% para o empreiteiro), Joaquim e Pedro viram o mundo se tornar a concha de suas mãos. A empresa ganhou registro, mais quatro caminhões foram comprados (com pequenas prestações), e um galpão foi construído na primeira instalação, que foi batizada de “Macabu”, em homenagem ao apelido do primeiro patrão de Joaquim Benevides.
Um dos contratados da primeira geração da Benevides Areia e Pedra foi Macário Gonçalves, um fluminense de Belford Roxo. Macário, um mulato de seus trinta e cinco anos, era conhecido por seu carisma entre os colegas de trabalho e por ser o único que não havia passagens pela polícia. Usava sempre uma camiseta vermelha, e pelo formato de sua cabeça era conhecido como “Cocão”.
O fato da empresa de Jô e Zoinho chamar a atenção das autoridades depois de certo tempo foi a política de contratação de ex-prisioneiros para cargos como motoristas, carregadores, e demais postos no setor braçal. Publicamente, os irmãos declaravam que “Deus foi justo conosco, por nos dar uma carreira que nos salvou da criminalidade – por isso, nada seria mais justo que compartilhar da mesma oportunidade com outras pessoas que querem melhorar de vida”. Para os policiais, inclusive para Sampaio, aquilo era fé demais para um único milagre.
O número de ex-prisioneiros começou a chamar a atenção, uma vez que eles começaram a se instalar em comunidades precárias nas imediações dos portos de areia em Caçapava, com suas famílias, amantes e filhos. Um novo núcleo de moradias tomou conta de algumas fazendas, inclusive com iluminação elétrica – uma comodidade bancada pelos irmãos Benevides.

*-*

Numa noite de quinta-feira, o delegado da Seccional de Taubaté ligou para o posto de Sampaio em Caçapava. Com um copo de suco de limão, ele atendeu ao telefonema, acreditando que fosse outro caso de briga de bar, que se tornara rotina na cidade, principalmente nas comunidades próximas aos portos de areia.

- Investigador Sampaio.
- Sampaio, aqui é o Delegado Marins, de Taubaté.
- Em que podemos ajudá-lo, senhor?
- Primeiro pára de falar como se fosse porteiro de hotel. E em segundo lugar, eu quero que vocês fiquem de olho nesses irmãos Benevides. Vejam se está tudo certo, se tem todas as licenças, e principalmente se não tem mutreta.
- Sim senhor.
- Ah, mais uma coisa – o juiz Soares me pediu para que levasse um garoto dele, um estagiário.
- E eu vou ter que bancar ama-seca de advogado agora?
- É uma ordem.
- Sim senhor.
- Ele vai chegar aí daqui a pouco. Pega ele, leva lá no Macabu e vê se não tem nada em cima deles.
- Sim senhor.

Na hora marcada, Aparecido chegou para partir na diligência de Sampaio. Enquanto se encaminhavam até a sede da Benevides Areia & Pedra, ambos começaram a conversar.

- Aurélio Aparecido?
- Isso.
- Não sabia que você era amigo do Delegado Marins.
- E não sou.
- O juiz te mandou aqui?
- É.
- Certo.
- Fiquei sabendo que você também é formado em direito.
- Isso mesmo.
- Onde?
- São Francisco. E você?
- Segundo semestre em Taubaté. Mas... não me leve a mal, Investigador, mas o que o senhor está fazendo nesse fim de mundo de Caçapava? O senhor tem família aqui?
- Estou sozinho na cidade. Mas, todo mundo tem que começar de algum lugar.
- Mas logo aqui? Pelo seu sotaque, você é da Capital. Por quê não começou por lá?
- E os crimes são diferentes em cidades grandes e pequenas? Um estuprador de crianças é igual nas duas cidades. Um golpista, um assaltante de banco, um comunista, são iguais em todos os lugares. E de mais a mais, prefiro começar em um lugar mais tranqüilo, só pra não ter que ficar correndo atrás de comunistas.

Aurélio pensou em cutucar o jovem policial civil com a pergunta “Medo de sujar as mãos?”. Mas, apesar de ser amigo do magistrado da cidade, era sensato o bastante para captar a mensagem de Sampaio: um crime é um crime em qualquer lugar – e um desacato é um desacato em qualquer lugar. Até mesmo na viatura a caminho de um porto de areia, no meio do nada.

*****

prometo que na 4a parte começa a ter um pouco mais de ação. Mas veja bem: o negócio vai longe...

1 comentário: