sexta-feira, 6 de junho de 2008

"Na Curva do Rio", o novo projeto que eu vou enrolar os quatro leitores do The Coke...


N.A.: Pelo visto consegui encontrar um argumento para escrever uma historieta novamente. Por isso, resolvi chutar o balde e comecei a escrever feito um doente mental novamente. Sabe o mangá "Vagabond" de Takehiko Inoue (aquele que coloca em imagens os dois tomos do livro contando a vida de Musashi)? Então. É aquilo que eu tenho em mente.

Os envolvidos

Joaquim Benevides, o Jô, chegou com seu irmão Pedro à Cidade Simpatia pouco depois de 1965. As coisas andavam tranqüilas, não havia muito a se fazer na cidade de Caçapava. Como os dois eram simpáticos com a cidade, a cidade devolvia as gentilezas. Mas ainda eram meros forasteiros. Pensando em melhorar um pouco de vida, ambos tiveram a idéia: continuar o trabalho que desempenharam de maneira indireta no Oeste Paulista: a extração de areia e pedra para vender à construção civil.
A questão inicial era: por onde começar? Ambos não tinham posses suficientes para comprar uma propriedade em uma área apropriada e começar a extração de areia. Principalmente na área do Rio Paraíba, que era muito usada para o cultivo de arroz – ainda que de uma maneira quase que economicamente inviável. Como os irmãos Benevides eram especialistas em seduzir com as palavras, conseguiram convencer um velho produtor rural a arrendar parte do terreno que possuíam para a extração de areia. Em um mês, conseguiram levantar fundos para comprar toda a fazenda. Em seis meses, já eram donos de mais de cinco propriedades ao longo do rio. Com dois caminhões, realizavam viagens para São Paulo quase que diariamente, afim de alimentar o crescimento da metrópole que despontava no horizonte.
Joaquim Benevides, o mais velho, tinha mais de cinqüenta anos de idade e carregava um coração com o nome “Verônica” em uma fita tatuado no braço direito. Os cabelos grisalhos não desabonavam sua presença de espírito, que era imponente e, com as correntes de ouro, até mesmo amedrontadora. Pedro era mais discreto, e vivia escondido sob os óculos escuros: eram uma recomendação médica depois de brincar bêbado com fogos de artifício aos dezessete anos, quando explodiram próximos ao rosto, ferindo o olho direito a ponto de deixá-lo com a íris esbranquiçada (o que rendeu o apelido íntimo de “Zoinho” pelo irmão mais velho). Andava pelas ruas de Caçapava com um terno de corte sóbrio, mas de qualidade duvidosa para o pano.
Joaquim já tinha tido passagem pela polícia por estelionato aos dezesseis anos, por passar cheques falsificados. Cumpriu pena no reformatório, e como estímulo para uma vida de bons atos recebeu uma indicação para trabalhar numa empresa de extração de minerais nos arredores de São Manuel. Com o tempo, conseguiu esconder seu estigma e colocou seu irmão mais novo, Pedro, que se tornou auxiliar de contabilidade depois de dois anos como contínuo.
Um dos contratados da primeira geração da Benevides Areia & Pedra foi Macário Gonçalves, um fluminense de Belford Roxo. Macário, um mulato de seus trinta e cinco anos, era conhecido por seu carisma entre os colegas de trabalho e por ser o único que não havia passagens pela polícia. Usava sempre uma camiseta vermelha, e pelo formato de sua cabeça era chamado por “Cocão”.

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Ricardo Sampaio tinha meros 22 anos quando deixou a Academia da Polícia Civil, em São Paulo, no verão de 1973. Tinha finalmente alcançado o seu sonho de defender a população – vocação que sonhava em ter desde que conseguiu se formar com honras e méritos na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, como sendo o primeiro aluno da história da instituição de ensino a conseguir o registro da Ordem para advogar aos 19 anos.
Por respeito ao tio Régis, que lutou na Coluna Prestes depois de 1932, decidiu que não ficaria em São Paulo. Sabia em seu íntimo que, mais dia menos dia, se encontraria frente a frente com uma versão jovem de seu tio no Departamento de Ordem Pública e Social. E que, conforme rezava a norma da época, não deveria ter piedade ou remorso - como uma criança que brincaria com uma formiga à luz de uma lente de aumento. Pesquisou entre amigos advogados e soube que o melhor para si era começar a carreira numa cidade pequena. Por seus amigos na Polícia Civil e na faculdade de Direito, sabia que São Paulo sempre estaria lá para ele.
Com isso, conseguiu a indicação para começar numa cidade tranqüila – a cidade de Caçapava. Sabia que, no ninho de um quartel de militares, poucos seriam aqueles com a coragem de se levantar contra a “Revolução Democrática” sob a mira de um fuzil, ainda nas mãos de jovens ambiciosos em subir na nova carreira. Longe dos olhos, longe do coração – era assim que pensava sobre os subversivos.
Conforme a tradição local, Sampaio foi bem recebido pelo delegado de Taubaté, que o designou para a equipe de investigadores civis e plantonista, durante os fins de semana. “Lá, você só vai ter que cuidar de pederastas e vagabundos que bebem demais. Não há muito problema com o resto dos safados, como você tem lá em São Paulo”, adiantou o delegado da Seccional de Taubaté.
Na praça central, onde costumava ler o jornal e comer seu almoço de sanduíche de mortadela (conseqüência de ser um péssimo cozinheiro, e por não ser fanático pela culinária interiorana), ele chamava a atenção por ser jovem e, por conta do seu cabelo castanho-claro, ser um pouco mais atraente que a população média da cidade - queimada pelo sol da lavoura ou pelos exercícios do quartel.
As moças ainda suspiravam tímidas da janela das casas ao entorno, e passeavam com seus doces de praça. Entretanto, ele ainda mantinha sua mente voltada unicamente para o exercício do aprendizado e da paciência, esperando dias melhores para o mundo que o cercava.

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Aurélio Aparecido saíra do quartel de Caçapava com a patente de sargento armeiro, celebrado como um dos melhores da tropa há pouco menos de dois meses. Apesar do talento nato com o rifle e a baioneta, decidiu que o Direito seria o seu futuro. Como não podia sair de perto da família por questões afetivas, conseguiu vaga na Universidade de Taubaté, para a cadeira de Direito. De temperamento austero e pragmático – herança dos anos de caserna – Aurélio Aparecido manteve-se acima da média dos aspirantes a advogado.
Tal desempenho lhe proporcionou a predileção por parte do juiz da 1ª Vara Criminal de Caçapava para o posto de estagiário. Com isso, Aurélio conseguiria um pouco mais de experiência e contatos para a carreira que pretendia seguir: ser o magistrado responsável por sua cidade natal. Começou em trabalhos pequenos, levando papéis de um canto a outro do prédio, e logo estava auxiliando na correção de pequenos erros e palavras mal-entendidas nos autos do processo da vara.
Nunca escondeu sua antiga vida como militar e, como tal, exigia precisão e perfeição em tudo. Admirado por alguns, e já alvo de antipatia por outros, Aurélio Aparecido seguia com sua pose intocável e imutável de adepto da Justiça clássica: vendada para não favorecer um partido ou outro, com a balança que não mente e a espada que não perdoa.

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O Juiz da 1ª Vara Criminal de Caçapava, Dr. Vanderlei Lima Soares, era dono de uma personalidade no mínimo paradoxal: dentro das paredes de seu gabinete no Fórum Municipal era rígido, severo e conhecedor da Legislação como nenhum outro antecessor ou sucessor que pudesse surgir. Conhecido por seus pareceres dotados de um senso de humor cáustico (que beirava o que hoje se conhece como “Humor Britânico”), Dr. Soares não tinha amigos dentro do cargo de magistrado.
Entretanto, quando tomava o paletó e pisava para fora da soleira do seu local de trabalho, não havia pessoa em Caçapava que fosse mais galhofeira que ele. Uma de suas marcas registradas era o desejo de se mostrar adepto do nudismo. Para as questões que para ele eram pétreas, alegava que se acontecesse algo contra sua crença, ele “sairia pelado pela Praça da Bandeira” (ponto central da cidade de Caçapava).
Felizmente para o magistrado e os demais, ele sempre esteve certo no tocante às suas apostas. E infelizmente para as moças de família da Praça da Bandeira, que não se decidiam se cairiam de amores pelo jovem investigador ou pelo maduro e solteiro magistrado. Como não havia um cinema que apresentasse filmes estrangeiros na cidade, a única referência cinematográfica na cidade era Mazzaroppi.

(Se não houver nada melhor pra dizer no fim de semana, continua a historieta na Segunda Feira)

1 comentário:

saddam gos disse...

avô na coluna prestes? gostei.