segunda-feira, 2 de junho de 2008

“Na Curva do Rio encontrei dois pés flutuantes”, ou “A Primeira Vez de Ricardo Sampaio”

N.A.: O que segue é ficção, mas conta com alguns fatos reais como base para o motor dos acontecimentos. Qualquer lugar, pessoa, situação ou sentimento mencionado é puramente coincidente com a realidade. Não se pretende acusar ninguém de crime nenhum, apenas criar um ambiente adequado para um romance policial.

1. A Cena


A cidade de Caçapava tem esse nome por causa do seu nome tupi: “Clareira da Mata”. Ela se chama assim porque há muitos e muitos anos a cidade era nada mais que uma falha no meio da Mata Atlântica, que servia de descanso para os viajantes, bandeirantes e espoliadores em geral, que seguiam para o Rio de Janeiro ou para Taubaté, que era o ponto de saída das expedições rumo ao sertão bandeirante. Com o tempo, a Velha Caçapava, que ficava incrustada no meio das montanhas da Serra do Mar, no lado de dentro do Vale do Paraíba – um corredor geográfico que ligava as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo – deu lugar à Caçapava que se conhece hoje: um ajuntamento de pouco mais de 70 mil habitantes, espremido entre São José e Taubaté.
Ao longo dos anos, as cidades ao redor de Caçapava tiveram melhor sorte no amor e no jogo. Jacareí recebeu indústrias têxteis, de bebidas e a sua mundialmente famosa fábrica de biscoitos e bolachas. São José, no século XX, recebeu a bênção das Forças Armadas e lá foi instalada a fábrica de aeroplanos da Embraer. Taubaté se tornou pólo têxtil e, mais tarde, abrigou indústrias de automóvel e universidades. Campos do Jordão, por seu clima europeu e pela inventividade de seus administradores, transformaram a antiga colônia de tuberculosos no que hoje é um pólo turístico, principalmente pela ostentação que se apresenta nos meses do inverno brasileiro.
E Caçapava continuou parada. Inerte. Apegou-se ao título de “Cidade Simpatia”, pela hospitalidade com que abrigava convidados com alto poder aquisitivo. Apenas conseguiu notoriedade pelo seu lado militar, ao receber o 6º Batalhão de Infantaria Leve, que mais tarde recebeu o sobrenome “Aeromóvel”, no começo do século. De lá, partiram tropas para defender São Paulo dos mineiros no Túnel da Mantiqueira; pracinhas para vencer os fascistas italianos em Fornovo Di Taro; e soldados bem treinados para combater os subversivos focos de rebelião no Sul do Brasil em abril de 1964. A cidade transpirava tradição, famílias e propriedades. Principalmente propriedades, do tipo rural, durante os primeiros anos da década de 1970.
A rodovia Presidente Dutra, que segue o traçado geológico do Vale do Paraíba, ainda não era a grande rodovia do final dos anos noventa. A péssima qualidade do asfalto e os acidentes constantes de caminhões assustavam a maioria dos motoristas, que ainda trafegavam pela velha Rodovia Rio-SP, que por muitos momentos se fundia com a Rio-Santos, margeando o Litoral Norte de São Paulo e o sul do Rio de Janeiro.
Entretanto, ao final dos anos sessenta, as propriedades de rizicultura não eram tão lucrativas como costumavam ser antes – o cultivo da cana-de-açúcar e outros derivados não iam muito bem da mesma maneira.
Em uma paisagem bucólica, estereotipada pelos filmes de Amácio Mazzaroppi e pela cultura do “frango com polenta no fogão de lenha” que dois irmãos, vindos do Oeste Paulista, tiveram a idéia. E como eles tinham os meios para realizar seu intento, foram em frente. O negócio envolvia o desenvolvimento que o Brasil tanto clamava precisar: afinal de contas, não se alimenta o futuro sem concreto. E o concreto não é nada sem areia. Na necessidade universal de se explorar as entranhas da Terra, dois homens fizeram o seu paraíso e o seu inferno.
Um crime que não é um crime por si só, mas o resultado de toda uma espiral que se construiu para o nascimento de um costume e uma crença que estaria acima dos santos de barro, dos santos etéreos e do próprio Jesus Cristo: o culto ao dinheiro. Culto esse que leva seus seguidores a abandonar o limite, até que se percam no caminho do presídio ou do manicômio. Ou a dois pés que flutuam na beira do Rio Paraíba, num domingo de pesca.


(continua na sexta-feira)

3 comentários:

Deco Ica disse...

Eu não sei se já lhe disse isso antes, mas gostaria de escrever como você.

saddam gos disse...

qdo q começa o tiroteio?

Tanya disse...

Hummm... mas eu conheço esse guri de algum lugar... hehehe!

Saudaaaaaaaades