domingo, 29 de junho de 2008

"Na Curva do Rio", continuando - "Quem tem amigos..."

N.A. NOS EPISÓDIOS ANTERIORES DE "Na Curva do Rio"....Ricardo Sampaio recebe a primeira diligência do ano, para averiguar supostas irregularidades na papelada de uma empresa de extração de areia em sua jurisdição: Caçapava. Auxiliado por um funcionário do Fórum local, parte para conferir se tudo anda bem em Macabu, o local onde os Irmãos Benevides iniciaram o negócio de extração de areia.

*-*

Chegando ao galpão onde funcionava o escritório da Benevides Areia & Pedra, foram recebidos por Ana, a secretária recém-contratada por Pedro para cuidar da papelada mais ordinária. A moça de cabelos cacheados e pele morena era recém-saída do Curso de Secretariado em Taubaté, e serviu aos quatro representantes da Lei (Sampaio, Aparecido, e os guardas Barbosa e Mota, que estavam lá em caso de necessidade) com a água de uma jarra de terracota – aquela noite estava particularmente quente.
Aguardaram por poucos momentos, até que Pedro Benevides os recebeu em sua sala.

- Boa noite, senhores. Há algum problema?
- Eu sou o investigador Sampaio, da Polícia Civil, este é Aurélio Aparecido, representante da Primeira Vara Criminal de Caçapava. Os dois de pé na porta são os guardas Barbosa e Mota. Eles estão aqui apenas para fazer figuração.
- Heh, o senhor tem senso de humor. É bom ver isso num policial.
- Em todo o caso, estamos aqui porque gostaríamos de conferir alguns papéis sobre o funcionamento do seu estabelecimento.
- Lamento, mas não poderão fazer isso.
- Por obséquio?
- A questão aqui é que não sei o que poderiam alegar contra a Benevides Areia & Pedra. Primeiramente, estamos registrados no Cadastro Geral do Comércio, e pagamos todos os impostos que o governo nos pede. Todos os funcionários aqui são registrados, e pagos de acordo com o que está em suas carteiras de trabalho.
- E poderíamos conferir todas essas suas afirmações? – perguntou Aurélio Aparecido.
- Claro (respondeu Pedro), desde que apresentem as requisições legais. Senhores, eu respeito a posição de vocês, uma vez que sou cidadão cumpridor da lei e, por isso, livro os senhores de ter dor-de-cabeça comigo. Mas é preciso que saibam que, apesar do momento em que vivemos na conjuntura política, não possuem o direito de entrar aqui, com o pinto de fora, batendo na minha mesa.
- O senhor sabe com quem está lidando? - Falou Mota em tom de desafio.
- Sim. Com um investigador civil, um estagiário e dois guardas, que compareceram aqui sem nenhuma acusação formal. E eu sou uma pessoa que conhece um ótimo advogado, em São Paulo. Inclusive, ele pesca em Itanhaém com o Desembargador Brava e Silva, do Tribunal de Justiça do Estado.
- Bom... O Sr. é quem fez Largo do São Francisco nesta sala – cochichou Aurélio, em tom de quem está acuado na posição de xeque. Se tiver alguma coisa pra tirar do bolso, seria bom tirar agora.
- Amanhã, na primeira hora do dia, voltaremos aqui o Aurélio, Mota, Barbosa e eu, com mandados pra enfiar goela abaixo. E é bom que esteja com tudo em dia.
- Amanhã.
- E mais uma coisa: pro seu bem, é melhor que isso apenas continue sendo um mal-entendido de autorizações e burocracia municipal.
- Mal lhe pergunte, mas por quê?
- Porque eu quero que a primeira pessoa a enquadrar nessa cidade, pra valer, seja um filho da puta que acha que é intocável. E quem acha que é intocável... mais dia, menos dia, acaba cagando no pau. E eu quero estar lá pra pegar esse tipo de gente no pulo.
- Eu estou a seu dispor, mas só amanhã.

No instante em que os homens da Lei deixaram o pátio do Macabu, Pedro Benevides ordenou imediatamente à sua secretária para que não deixasse ninguém incomodá-lo e começou uma frenética busca pelo irmão, que não estava na cidade. Até onde sabia, Joaquim estava em São Paulo, fechando negócios – que negócios eram esses e com quem eram, era um mistério até para o mais novo dos Benevides.
Duas horas e meia se passaram e mais de duzentos cruzeiros em interurbanos foram gastos, procurando em hotéis, escritórios, gabinetes de deputados estaduais. Até que, próximo da meia-noite, conseguiu uma pista: Jô teria saído com “uns VIP’s” para o Casbah, boate destinada à elite em São Paulo.

- Mano, como é que tu some desse jeito, porra?
- Take it easy, maninho, ta tudo ajeitado.
- Ajeitado a porra, os hómi vieram aqui agora, tão querendo arranjar um jeito de dar um fecha na gente! Tão vindo amanhã com mandado e tudo!
- ô Zoinho, tem problema não... Eu te coloquei como responsável da papelada porque sei que tu não daria ponto sem nó.
- É, mas esse povo se quiser ir mais fundo, eles acham. Eles sempre acham!
- Porra, Zoinho... Tu é muito neurótico. Mas, em todo o caso, eu vou te passar pra alguém que vai resolver isso agora. Segura aí...

Em alguns instantes, depois de risos e uma garrafa de champanhe estourando, uma voz alucinada surge do outro lado da linha.

- Meu filho, fala rápido que eu tenho mais o que fazer.
- Quem ta falando?
- Aqui é o Desembargador Rubens Coimbra. Anda logo que - ô minha filha, vem cá e me traz um lenço que o meu nariz aqui não pára de sangrar, porra - então, qual é o nome do juiz aí de Caçapava que tá bancando o macho?
- É... Não seria melhor mandar embora o invest-
- Olha, pensa bem comigo, meu filho: de que adianta cortar uma cabeça se vai nascer outra? Vou acabar logo com isso e resolver de vez. Fala logo, porra! A Silene vai entrar e eu não posso perder tempo. Anda. Me diz o nome do porra que ta atrapalhando o seu lado...
- Dr. Vanderlei Soares Lima.
- Podeixá que amanhã ele tá no inferno.
- No duro?
- No duro!
- Nossa, muito obrig-

O telefone foi desligado do outro lado da linha antes que pudesse sequer terminar o seu agradecimento.

1 comentário:

saddam gos disse...

éee''eeeé mano!!!