segunda-feira, 14 de abril de 2008

"A Convenção dos Desesperados", ou "Desobediência Nerd: como esculachar o sistema de concursos públicos sem perder a chance de conseguir um emprego"

Eles decidiram estudar como maníacos. Decidiram jogar pelas regras do Sistema; compraram os manuais, frequentaram os cursinhos, fizeram as aulas de reforço. Conheciam todas as dicas, macetes e reentrâncias do assunto que seria abordado no concurso público. Estudaram à exaustão: perderam casamentos, despedidas de solteiro, férias, a sanidade. Outros perderam muito mais que as coisas supracitadas. Eles eram cinco no começo, mas um deles - um japonês - se enforcou faltando duas semanas para a grande prova. Sabe como é: muita gente não aguenta a pressão. Talvez a prova tenha sido o estopim de um namoro de dois anos que acabou sem futuro, o câncer linfático em estado terminal do tio favorito na infância, e as derrotas seguidas do Corinthians, time do coração.

Ele se chamava Carlos Mishiyama, e era fã de quadrinhos, animação, coisas nerds sortidas. Os quatro amigos decidiram fazer uma homenagem ao amigo no dia do concurso para o cargo de assessor da prefeitura de São Paulo.

Nas quatro escolas selecionadas, entraram calados no ambiente. Esperaram vinte minutos para o início da prova. Calculadamente, sincronizaram os relógios. Faltando cinco minutos para o início da avaliação, começaram a primeira parte do plano.

Os quatro, rumaram para quatro salas diferentes, senão o plano poderia ser catastrófico. Os quatro se fantasiaram de personagens do desenho japonês. Com partes da "armadura" montadas com espuma, plástico e papelão, fizeram entradas triunfais para dentro dos recintos. Os quatro recitaram em conjunto com o relógio:

"VAI SE DANAR! MEU NOME É CARLOS MISHIYAMA, E EU SEREI O PRÓXIMO ASSESSOR DA CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO PAULO!"

Todo mundo achou que fosse uma piada de um fiscal que, num momento de insatisfação com os 40 reais ganhos com um domingo de trabalho, estivesse fazendo uma piada de mal-gosto. Pensaram isso até que viram um jovem gordo, com cabelos pixaim e pele de ébano repetindo isso numa escola na Zona Leste.

No instante em que o examinador soltou o trivial "Boa prova para todos", um transeunte chegou a dizer "boa sorte" e estendeu a mão para um dos Quatro Nerds. Karl era o mais alto de todos, e se chamava "O Primeiro Nerd" e era o único que não tinha a aparência física de um salgadinho. Por isso, decidiu que faria a prova com um roupão amarelo e vermelho, com o famoso símbolo do Comunismo (a foice-e-martelo), shorts vermelhos sobre as calças cor de creme e botas de boxeador por cima das calças. Ele respondeu com sotaque de Dolph Lundgren: "Vaaaai perrrrrdeeeeerrrr....", e tocou a palma da mão do concorrente de forma ruidosa, para se ouvir até no corredor.

Pirica, o Segundo Nerd, foi conforme a tradição: cortou o cabelo para se parecer com Dustin Hoffmann, colocou um terno barato e dobrado, e se limitou a ficar a primeira hora do concurso repetindo num tom quase inaudível a contagem para a hora em que começaria a passar Naruto na televisão. "Vinte minutos para Naruto, vinte minutos para Naruto, vinte minutos para Naruto, eu preciso saber se ele vai conseguir a bandana, eu preciso saber se ele vai conseguir a bandana...". No que um fiscal se aproximou para saber o que ele tanto repetia, ele respondeu "eu preciso sair daqui! Faltam cinco minutos para começar Naruto, e eu preciso saber se ele vai pegar a bandana finalmente!", e na seqüência todos os concursandos desataram as risadas.

A maioria deles havia crescido com aquele tipo de entretenimento - eram, por definição, nerds que precisavam de dinheiro, mas eram orgulhosos demais para assumir. Um ou outro era mais cabeçudo, era da velha-guarda, e chegou a reclamar do "cara ali na frente que não fica quieto". Mas como não falava alto demais para quebrar a concentração da classe inteira, apenas o velho que aceitou sentar no fundo teve que ouvir o mantra de Pirica.

(continua)

(N.A.: Devido a um "enter" na hora errada, o conto saiu antes do esperado. Por isso, ele vai sendo atualizado regularmente até que esteja em plenas condições. Imagine como uma história escrita em "open beta".

1 comentário:

Deco Ica disse...

Cadê o resto?

E tinha que botar o Corinthians no meio, né? Mas saiba que japonês normalmente torce pro São Paulo! No máximo pro Santos, já que teve uns japas que chegaram pelo porto e acabaram ficando por lá...

Mas japonês corintiano, nunca conheci...