segunda-feira, 17 de março de 2008

"Um Canalha entre Caros Amigos", ou...

Notas de um Jornalista Convertido.

Eu sei que a burguesia fede
Mas tem dinheiro pra comprar perfume
E além do mais o high society
Leva chifre e não tem ciúme
Eu sou "in", não sou "out" - eu sou VIP
(Falcão, in "Um Bodegueiro na Fiec")

Estava eu, com minha jaqueta de couro falso - presente de Sra. Belo Macagnani - a caminho da Escola da Cidade, no centro nevrálgico de São Paulo. Aquelas coisas de sempre: mendigos, putas, moleques de rua. Um cara tentou me vender um deck de peças de dominó "feitas com bolas de bilhar - olha que beleza!". Eu não tinha um tolerante no bolso, mas perguntei de curiosidade o preço. Pra quê. De quarenta, ele quase implorou pra fazer por 10. Filhos da puta.

Depois de uns perdidos aqui e ali, passando pelo setor dos mendigos, pelo setor das putas de 1 real e pelo setor nigeriano do centro de SP (onde eu posso jurar que encontrei a reencarnação do Sr. Eko), eu finalmente achei a Escola da Cidade. A tal Escola é uma pequena faculdade de arquitetura, que fez uma parça com o pessoal da Caros Amigos para realizar o "2º Anticurso de Jornalismo Caros Amigos - Como não Enriquecer na Profissão".

O esquema era bem "alternativo" - entre pranchetas e projetos de reurbanização da região da Luz (vulgo Cracolândia), um monte de esquerdistas, ativistas, comunistas de botequim e, ocasionalmente, um ou outro jornalista canalha. Coisas do tipo que acontecem em igrejas neopentecostais, que aparecem no fim de noite da Emissora do Bispo.

O primeiro palestrante, Milton Severiano, mais conhecido como Miltainho (o pica-grossa mór da revista), se apresentou rapidamente, causou aqui e ali, e chamou pra briga, dizendo que "os militares ainda comandam o país". Como assim, cara-pálida? Eu, que venho da cidade mais reaça que existe no reaça Vale do Paraíba, ainda precisa que um coronel do Exército peça baixa para que possa se candidatar. Mas isso foi apenas o gatilho para que todos começassem a falar.

Ah, que saudades dos tempos de bixo de faculdade de Jornal. Era quase a mesma coisa, mas com baixos teores. Não havia ninguém correndo feito o Neto do Tropa de Elite, no meio do fogo-cruzado, só pra mostrar que poderia conseguir alguma coisa. Mas ainda sim as coisas eram melhores - melhores argumentos, melhores histórias, melhores elogios. Mas ainda sim continuava uma versão distorcida dos primeiros tempos de faculdade.

Os dias foram passando, e com isso uma palestra era fodástica, a outra era mais ou menos (como em um bom show de música, onde um chega chegando, ou aquece a platéia para outro). No meu critério de interesse, Miltainho venceu Zibordi (irmão de FAAC, só que seguiu pelo outro lado), Cláudio Tognolli, com seu discurso sobre jornalismo investigativo útil venceu Hamilton de Souza, e tudo ia bem na primeira semana.

Pelos lados de lá, descobri que havia um colega (ainda aprendiz) de Taubaté, e nisso acabou se tornando o único contato conhecido que tinha por aquelas bandas - além da carioca magrelinha que tinha o sotaque mais arrashtado que eu já ouvi (superando até mesmo o sotaque dos "Irmãos Metralha Pimentel" da Comunicação da Prefeitura de Caçapava).

A segunda semana chega, e com ela a ansiedade. Afinal de contas, cada palestra que existe é uma palestra a menos até o reencontro com José Arbex Jr, o rockstar da revista (na minha humilde opinião). Lembro de uma palestra do cara ao lado de César Tralli (patrono de nossa turma, e suspeito que também deu uns cutucos em uma colega de classe). Queria confrontar o cara, inicialmente, por dois motivos:

1) Como foi que ele, um dos cabeças do Jornalismo Alternativo, dividiu uma mesa de seminário com um jornalista global que usou meios calhordas para dar o furo (ui, santa!) da prisão de Paulo Maluf?
2) Que mal há em fazer dinheiro com o Jornalismo?

Sim, meninos e meninas. Eu estava indo com o Diabo como cliente. Seria o advogado do jornalismo corporativo, nos tempos de uma mídia cada vez mais multisetorizada (graças aos usos da Internet, e afins). Mas no fim das contas, devagar, devagarinho, fui conseguindo ser convencido. Iluminado. Desperto.

No fim das contas, descobri que existe um mundo além do paradigma de "se deu porrada em mim, eu uso o jornal pra dar porrada e sair correndo". Do clientelismo, da troca de favores. O jornalismo político não precisa ser feito da mesma forma que os políticos fazem o jogo deles - para isso temos nosso jogo. Apesar do próprio Tognolli comparar o furo jornalístico com o "âmbar cinza" (um troço que sai do cu do cachalote pra virar perfume), vi que ainda dá para separar o repórter da matéria que ele cobre. E que se pode colocar a cabeça no travesseiro no fim do dia sem grandes problemas.

No segundo fim de semana, Ferréz e Sergião Almeida chegaram num empate técnico (ambos abordaram fatos que me interessaram e disseram coisas que me fizeram pensar. Um disse sobre como a mídia trata movimentos de minorias, e o outro mostrou como maus jornalistas fazem seu trabalho ser superestimado para alimentar o ego do perigo da inanição intelectual. Sendo mais JT: Sobre como picaretas arrotam peru enquanto comeram linguiça de chouriço).

O sangue do Jornalismo Alternativo tem poder! Aleluia!

NOTA: Lá, fiquei sabendo que Olavo de Carvalho, pseudofilósofo e reaça de plantão, começou como foca de Sérgio Almeida no Notícias Populares. Desde então, ele não perdeu o tino para as notícias sensacionalistas.

***

PS: No afã da coisa toda, esqueci de mencionar que Arbex respondeu a uma das perguntas, sobre dividir seminário com César Tralha - "E como eu ia saber que ia dividir banca com ELE?"

3 comentários:

Long John Silver disse...

Certa vez ouvi uma teoria de conspiração que dizia que a prisão do Maluf nada mais foi do que a maior jogada de marketing pessoal da história brasileira e que o comentado César Tralha teria recebido, além do furo, uma certa quantia em dinheiro oriundo de umas contas estrangeiras de propriedade de um certo turco-sírio-libanês com sotaque engraçado. Mistéééério...

Deco Ica disse...

A pergunta que não quer calar: pra quem vai a grana das altas taxas cobradas aos participantes desse curso? Pro Lar dos Jovens Comunistinhas Orfãos?

Mas de qualquer forma, deve ter sido uma coisa divertida de se ver.

Whiskey Jack disse...

Devo estar ficando velho, ou talvez seja sono.
Me perdi sobe o que ia comentar e estou com preguiça de ler de novo.

Se vc se divertiu , que bom.
Aleluia, hehehe.