sábado, 15 de março de 2008

Rajadas intermitentes

- Quero falar com o seu supervisor.
- Ele não está no momento.
- Não quero saber, eu quero falar com ele agora!, disse o jovem furioso.

Ele tinha seus vinte e tantos anos. Tinha cabelos revoltos, encaracolados. E uma cara de turco. Coçava o nariz de maneira intermitente. A namorada estava longe dele por alguns metros. Também coçava um pouco o nariz, mas tinha o corpo todo em cima. Culpa das cirurgias plásticas.

- Meu senhor, as ordens são superiores. Recebemos uma cota dentro do planeja-
- Eu não quero saber! Vocês vão mudar isso agora mesmo!

O atendente tinha lá seus quarenta e tantos anos. Tinha cabelos finos, com entradas nas laterais e no "kippah". As bochechas eram um pouco caídas, e ele tinha uma marca de briga no lábio superior. Por causa de uma garota de cabelos cacheados quando estava na oitava série do ensino fundamental.
E o jovem continuou.

- Escuta, "galã": você não espera que eu saia daqui com isso amarrado no meu carro, né? Como espera que eu saia com uma coisa dessas me identificando para todo mundo ver? O que vão pensar de mim? E da minha família? Eu sou filho do prefeito dessa bosta de cidade, e agradeça-me por estar emplacando e registrando meu carro novo, meu Sentra, nessa cidade. Com o IPVA que eu vou pagar, eu posso sustentar a porra dos seus filhos na escola por seis meses. SEIS-MESES! E como espera que eu saia com uma placa com letras "HIV" marcadas?
- Mas Sr. Videla, a culpa não é nossa! Apenas recebemos o lote de letras do Detran,
Para tal, não podemos fazer nada, a não ser usar as placas que nós temos direito. A quantidade de carros que emplacamos aqui não é suficiente para dar mais opções de jogos de letras. Não podemos fazer nada!
- Mas então como é que o presidente da Câmara de Vereadores apareceu com um carro com as iniciais "DNZ"? Isso é inconcebível! Eu tenho o direito - não, eu MEREÇO ter um carro com as placas personalizadas! E não com um atestado de que eu sou um viado aidético do caralho! Como assim, "HIV"? Você tá louco? Quer perder o emprego? Eu consigo fazer da sua vida um mundo de merda antes de tomar o café da manhã! Eu é que mando nessa porra de cidade!
- Muito bem, Sr. Videla. Eu conversarei com o chefe do Departamento de Trânsito Municipal, e verei o que pode se feito pelo senhor.
- É bom mesmo.

No fim das contas, ele conseguiu trocar as letras do emplacamento no último momento. A placa não saiu com o "DVL" que ele esperava. Saiu com as letras F, A e G como iniciais da matrícula do carro. Dado Videla nem reparou na pequena homenagem. Ele foi preso horas mais tarde, por atropelar uma velha doente mental há algumas quadras do local onde ele ia buscar cocaína.
A doente mental era conhecida por ser uma ótima "cabo eleitoral".

***

Essa é uma história fictícia. Qualquer relação de fatos, personagens ou diálogos retratados com a realidade é mera coincidência.

1 comentário:

Deco Ica disse...

Sensacional!