terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Leste 23, parte 2

"O que acontece, infante?"


Phillippe Bernot, um velho francês dono da Casa do Moinho (que ficava não muito longe do ribeirão onde Stavros fora vítima do trote), vira tudo o que ocorrera entre Stavros e Mirna. Bernot não tinha muitos amigos no povoado, e vivia exclusivamente de sua prensa onde produzia um folhetim mensal que retransmitia as notícias do resto do mundo, com dois meses de atraso; convites de casamento, panfletos para funerais. Mas no fundo, longe das vistas de todos, Phillippe era um artista. Correra o mundo por mais de trinta anos, conversando com pessoas, vivendo de trabalhos braçais e intelectuais. Recitou os romances de Flaubert para uma platéia desinteressada numa casa de ópio em Macau, estudou o Islã na Turquia, trabalhou nos poços de diamantes na África Negra. De pequenas experiências e grandes tragédias, o andarilho francês descobriu num delírio de Sálvia a resposta para os novos tormentos. Trazia uma barba ruiva longa com alguns cabelos brancos, como os cabelos de Stavros Ioannides. Não apenas por ambos compartilharem o mesmo tom nos cabelos, mas pelo velho acreditar que os dois compartilhavam uma alma sonhadora, os dois tinham uma certa cumplicidade e simpatia entre si. E o jovem tratava-o por...

- Nada, Sr. Barba.
- Nada? Uma roupa suja de lama e olhos marejados não são "nada", jovem.
- Ah.... Mirna.
- Ah, sim sim sim sim... Mirna, a maçã de ouro.
- Como?
- Uma história antiga da sua terra, sobre maçãs de ouro e discórdias entre os homens. Às vezes penso que entendo os antigos pensadores, em colocar a mulher como submissa à vontade do homem. Talvez porque, quando elas descobrem seu verdadeiro potencial, Deus sabe o que será de nós. Uma revolução pior que a que aconteceu aqui, pior que as guerras que surgem no horizonte.

Por mais alguns minutos, Bernot continuou em suas explicações, aliando lendas, teorias e coisas que deduzia das notícias que chegavam atrasadas dos outros cantos do mundo. Stavros absorvia cada palavra vinda do senhor de meia-idade com uma dedicação e um esforço para entender cada metáfora, cada mensagem. Guardava os momentos de inspiração e sabedoria do forasteiro como tesouros em sua mente, esperando o dia certo para abrí-los e compreendê-los.

- Bom.... mais tarde eu passo aqui para entregar o folhetim, tá?
- Não se apresse. Ainda preciso colocar umas linhas, quem sabe fica pronto amanhã, certo? Mas pense nisso: beleza é boa apenas de se ver, pois não cai muito bem no estômago.

+++

- Oi, vó.
- Mas o que aconteceu contigo?
- A Mirna...
- Ela te empurrou no riacho?
- Não... Eu caí de lá.
- Ela te fez de bobo de novo, né?
- .....
- Tá. Entra. Troca de roupa e joga essas no tanque, que sua mãe tá logo chegando de Atenas.

A avó de Stavros não podia fazer outra coisa senão lamentar. Lamentava não pelo incidente com o neto, nem por ser o alvo favorito da garota loira, mas pela cadeia de eventos que a levara até ali. Os conflitos e os longos períodos de estresse levaram Livia Ioannides a ter uma gravidez difícil. O agravante de ter sido estuprada por um soldado italiano durante a ocupação da Grécia não foi muito agradável, na mesma época em que se casara com um comerciante inglês, que foi preso e não foi mais visto. Logo, na dúvida entre abortar o provável elo com seu marido e ter um filho bastardo, ela fez a escolha.
Com isso, Livia acabou tendo apenas a ajuda da mãe para criar o pequeno Stavros, enquanto trabalhava como motorista de um ônibus intermunicipal na região de Atenas. Como problema derradeiro, Stavros veio num parto difícil, e acabou ficando mais tempo que o que os médicos chamam de "saudável". A falta de ar para o recém-nascido durante o nascimento fez com que seu intelecto fosse levemente comprometido. Não era um vegetal ou uma besta completa, apenas era "inocente".
Mas na sua inocência, poderia contar com algo que faria a sua existência destoar dos destinos de todas as outras crianças da vila no interior da Macedônia.

(continua)

2 comentários:

saddam gos disse...

gordo feio!!! eu te odeio!!!

Deco Ica disse...

Macedônia? A estória não se passa na Grécia?

Espero pra ver o resto.