domingo, 20 de janeiro de 2008

SEÇÃO LITERÁRIA Apresenta: LESTE 23 - Um prólogo

Hora de tocar um jazz: tinha escrito quatro protótipos do primeiro capítulo dessa história, mas mandei tudo às favas e resolvi postar aqui direto. Sem anestesia, ou assepsia. Vamos ver se agora vai. Pense nessa história como "A derradeira historinha à la Amélie". Com direito à trilha sonora do Yann Tiersen e tudo. Se mais de 3 pessoas esboçarem alguma reação, bom, continuaremos.

***

"Stavros, venha cá!"

Ele tropeçava pela estrada sinuosa e cheia de pedregulhos. Não por ser estranho à estrada: ele a conhecia desde a mais tenra infância, nascera naquela parte esquecida do mundo. Sempre que se pensa na Grécia, pensa-se na acrópole, nas ilhas, nas casinhas brancas encravadas nos penhascos. Aquele lado da Hélade não era grandes coisas. No final das contas, não era nada. Ainda continuava atrasada, intocado aquele pedaço de chão, da mesma forma que deixaram depois da Segunda Guerra, dez anos atrás. O jovem de cabelos ruivos e a garota de cabelos loiros e pele queimada pararam sobre um barranco, que se debruçava sobre um riacho que corria rápido, mas de tão raso não era mais que a força-motriz do moinho alguns metros acima.

"Sim, Mirna?"

Mirna Gutiérrez era filha de argentinos. Seus pais tinham uma pequena mercearia no povoado. Nada demais, apenas para manter os cobradores longe de casa, e pagar um luxo mensal: a ida ao cinema em Komotini, capital da periferia (como são chamadas as províncias gregas). Por herança genética, ela tinha uma beleza que aliava dois continentes: os cabelos louros, olhos verdes, e a pele bronzeada pelo sol do Mediterrâneo, faziam-na ser o centro das atenções.

- Sabe, eu não ligo do que dizem de você, Stavros. Eu acho você um garoto legal. Até que acho bonitinho...
- Ah, não é também assim...
- Mas sabe, eu preciso saber se você realmente gosta de mim.
- Uma prova... de amor?
- Sim, acho que sim. Vamos fazer o seguinte...

Mirna apanhou do bolso do vestido um desenho que tinha feito alguns dias atrás de uma paisagem do povoado, mas que não havia lhe agradado. Fez dele um avião de papel, e disse:

- .... eu vou jogar esse avião. Se conseguir pegar sem que ele toque o chão, posso saber que você realmente gosta de mim. E aí então eu te darei um beijo.
- Na... boca?
- Claro! É assim que os namorados fazem, ou você nunca viu um casal de namorados?
- Ah... bem....
- Então vamos deixar de lado, e quero ver se você é realmente o meu príncipe!

Mirna arremessou o avião de papel como a um dardo, por sobre a cabeça do jovem de cabelos ruivos. Por afobamento, reflexos lentos ou qualquer outro fato, ele deixou que a dobradura passasse por sobre sua cabeça. Mas girou-se nos calcanhares e perseguiu o seu passaporte para aquilo que sonhava desde que tomou conhecimento do que é o sexo oposto: o sonho de ter nos braços a jovem loira de olhos verdes e pele bronzeada.
Mas quando conseguiu apanhar o avião de papel, seu corpo estava muito além da borda do barranco, e acabou caindo no riacho de águas revoltas e caudalosas. Por sobre sua cabeça, emergindo do barranco e de trás das árvores, outras crianças surgiam, às gargalhadas.

- Mas Mirna...
- Acha mesmo que eu sequer pegaria na mão de uma aberração como você? Vê se aprende, seu retardado!

Mirna Gutiérrez também era dotada de um cinismo e um humor negro dignos de um carrasco. Muitos de seus amigos a mantinham por perto apenas para não ser alvo de seu veneno e suas movimentações, que sempre buscavam humilhar quem estivesse à alça de mira de seus olhos verdes. No final, ela se tornara (in)voluntariamente a líder dos jovens no pequeno povoado. Transformara-nos em seus vassalos.
Quanto a Stavros, o filho-sem-pai, parvo e tímido, só restava-lhe sair do leito do riacho, com as roupas molhadas e sujas de lama, e ir para a casa de sua avó. Mas algo no caminho poderia mudar seu caminho, de maneira indelével. Stavros Ioannides estava prestes a fazer história.

***

Continua. (eu acho)

2 comentários:

Deco Ica disse...

Cheiro de épico no ar. Continue!

Guilherme Grünewald disse...

esperando proximo capítulo