domingo, 27 de janeiro de 2008

Os olhos de uma criança, os olhos de uma mulher


Persepolis, o Filme (França - 2007)

(....) E tudo, por quê? Por eu ser judeu. Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos? Se em tudo o mais somos iguais a vós, teremos de ser iguais também a esse respeito. Se um judeu ofende a um cristão, qual é a humildade deste? Vingança. Se um cristão ofender a um judeu, qual deve ser a paciência deste, de acordo com o exemplo do cristão? Ora, vingança. Hei de por em prática a maldade que me ensinastes, sendo de censurar se eu não fizer melhor do que a encomenda."


- Shylock, em "O Mercador de Veneza" de William Shakespeare

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Eu sei que é meio contra o bom-senso colocar uma citação de um personagem judeu, criado por um autor ocidental, para ilustrar a premissa de "Persepolis", de Marjane Satrapi (que ganhou uma versão animada através de uma parceria da autora com Vincent Paronnaud). Mas por outro lado, a citação do judeu rico da peça "O Mercador de Veneza" (sobre a condição humana que é inalienável a todas as etnias, crenças e escolhas) não poderia ser melhor aplicada em todo o contexto do filme.

A obra de Satrapi (que Ana Paula me perdoe, mas é uma bella signora) é autobiográfica e confessional. Mostra, sob a ótica de um único indivíduo, toda uma perspectiva social, política, e ética de uma das sociedades mais controversas da segunda metade do século XX, a da Pérsia Islâmica. A pergunta "Como pode um país que tinha uma boa fluência entre o Ocidente e o Oriente se tornar um poço de ódio e petróleo?" é respondida aqui. E não é respondida por um orientalista (Apesar de Edward Said ser da terra E um dos grandes, leitura recomendada para leigos e especialistas), mas por alguém que esteve ali, viu como tudo aconteceu. Mesmo pelos olhos de uma criança, sem a malícia e a astúcia dos mais velhos - como antes da Árvore do Bem e do Mal.

Marjane tinha nove anos na Teerã 1978. Gostava de Bruce Lee, fritas com ketchup, e tinha tênis Adidas. Sonhava em raspar as pernas e ser a próxima profetisa de Deus (Alá). Conversava com Ele todas as noites, antes de dormir, face-a-face. Mas ao longe, ela nota a convulsão social das décadas do governo do (último) Xá da Pérsia Reza Pahlevi, com as passeadas pedindo a morte do Rei dos Reis da Pérsia. O que faz a diferença no caso da família de Marjane é o engajamento de seus familiares: tios, avôs e os pais contrariam o estereótipo do "iraniano fanático e psicótico". Assim como muitos outros, fez parte da revolução que derrubou o Pahlevi.

A partir desse ponto (da queda de Pahlevi e a instalação da Revolução Islâmica), fica o ponto que vai levar Persepolis para o prêmio do Oscar, no próximo dia 24: o retrato intocado do que realmente aconteceu no Irã. Nada de Chuck Norris, nada de nacionalismo barato, nada de "Leste contra Oeste". Apenas a verdade dos fatos. A Pérsia, depois do levante popular (onde comunistas, liberais e muçulmanos se uniram contra a ditadura) acaba sendo vítima do tapetão da maioria - o clero xiita muçulmano. E os liberais e comunistas (que não são poucos) são enquadrados nas leis de Alá, distorcidas pelo Homem.

Mas a fita não é um manifesto político, é autobiográfico. E nesse momento vemos como pequenas iniciativas se tornam ao mesmo tempo atrativas e arriscadas: dos laboratórios clandestinos de álcool, às festas às escondidas, do mercado negro de filmes, livros, músicas e esmalte de unhas. Como escapar das fanáticas, sobervivendo aos ataques durante a Guerra Irã-Iraque. A sombra medonha de ver amigos, parentes e queridos sendo mortos, presos, torturados. Uma das cenas mais marcantes é a revolta da pequena Marjane com a prisão de seu tio Amouche, quando recebe um cisne feito com migalhas de pão duro, e sua execução. A pequena chora em sua cama, quando Deus a vem visitar, e ela o renega com fúria.

A raiva e o ceticismo com o novo regime levam-na a um atrito cada vez maior com seus professores. O medo de retaliações (uma vez que segundo a Lei Islâmica ninguém pode ser enforcada virgem) leva seus pais a mandarem-na para o exterior - Viena. A história deixa de ser uma possível panfletagem anti-Irã para se tornar realmente um filme francês, com a mostra de toda a sorte de sentimentos possível para a personagem autobiográfica. Das descobertas da adolescência, a puberdade, o primeiro amor, a primeira desilusão.

A partir daí, os spoilers comeriam solto, por isso paro por aqui. Mas a mensagem principal do filme é que, assim como o personagem criado por Shakespeare, os iranianos sentem medo, saudade, paixão, remorso. Se divertem, fazem coisas erradas. As mulheres iranianas são apaixonadas, sinceras, sensuais. O Irã é um país feito de terras, tradições e, parafraseando o grande Nelson Rodrigues, "sangue e excrementos". Um tapa na cara de todos aqueles que não apenas temem, mas odeiam e sonham com o fim da nação dos aiatolás.

Em suma: recomendo Persepolis pra cacete.

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A propósito, já está nas prateleiras das livrarias o livro em sua versão integral pela Companhia das Letras (os quatro volumes, lançados anualmente entre 2000 e 2003). Para aqueles que possuem um bolso grande, vai a dica.

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