domingo, 30 de dezembro de 2007

Darwinismo Acadêmico – A sobrevivência do mais magro e emo?



“Batalha Real” (Batoru Rowaiaru, JAP – 2000)

A vida estudantil não é o mar de rosas que todos pensam. Principalmente no Japão. Partindo desse princípio, Koushun Takami pegou um pouco dessa “teenage wasteland”, misturou com algumas idéias usadas em outros lugares, e escreveu em 1999 o romance “Battle Royale”. O romance narra um gameshow em um futuro distópico chamado “O Programa”, onde uma turma da Nona Série (1º Ano do Ensino Médio) é jogada numa ilha deserta num combate letal e sem regras.

E do romance, foi para os quadrinhos, e dos quadrinhos para a telona. E quando se fala em cinema japonês, Beat Takeshi (carinhosamente chamado por minha pessoa de “o Wagner Moura do cinema japonês” por estar em 82% de todas as produções cinematográficas daquele país) não poderia estar de fora.

Na película, há uma pequena introdução do contexto político do universo caótico de BR: as instituições democráticas foram para o saco, a economia está uma merda. Hordas de desempregados entulham as ruas e os necrotérios (a tradição por lá diz que é questão de ordem possuir um emprego, ou se mata tentando. Literalmente), e ainda há o conflito de gerações, que agrava ainda mais a convulsão social. Diante desse fato, só restou ao governo baixar a “Lei BR”, que seria um misto de Panis & Circensis, um desencorajamento à insurreição (instituindo o princípio de “Não confie no seu amigo de escola – você pode ser morto por ele"), e uma grande bolsa de aposta para os oficiais de alta patente do Estado Policial japonês. No final, a banca vence.

A história foca a luta pela sobrevivência de Shuya Nanahara e Noriko Nakagawa. Em geral, os dois são dois emos que choram o tempo todo, fazem juras de proteger um ao outro e ficam desviando das balas enquanto o chicote canta. A despeito da violência e civilidade dos dois, eles se unem a Shogo Kawada, um recém-transferido estudante para a turma.

O grande atrativo do filme é ver o crescendo da desumanização dos personagens. De adolescentes despreocupados e até mesmo indolentes (como na cena em que aparecem na “viagem da escola” onde serão cooptados para O Programa) em terroristas, hackers, alpinistas sociais, psicóticos e todos os elementos nocivos à sociedade. E como pequenas picuinhas e o “bullyism” se desdobram em conseqüências aterradoras. Desde pessoas presas no banheiro a namorados roubados, tudo vira motivo para passar o rodo sem piedade. Da cena da cozinha onde uma das “miguxxxas” da turminha coloca cianeto no miojo (levando a uma tensa discussão de quem seria a responsável, onde na seqüência começa um tiroteio feroz), fica a possível mensagem: somos seres educados e corteses apenas pelo simples hábito - coisa que três dias podem resolver tranqüilamente.

Outro ponto que pode ser reparado como uma ironia é a disputa e a dualidade entre o poder dominante (os adultos) e o povo (os jovens). O povo é ensinado a temer o poder, que em contrapartida toma providências impedindo o levante do povo. A Batalha Real seria mais uma disputa de gerações que um jogo para o controle ideológico. (ZONA DE SPOILER) Na cena final, em que Shogo e Noriko escapam da Ilha com a ajuda de Shogo - que é um sobrevivente de outra edição do Battle Royale - e possuem a cabeça colocada à prêmio por ASSASSINATO, a idéia de "quem teme mais quem" fica ainda mais palpável ainda. (FIM DA ZONA DE SPOILER)

A única sacanagem do filme foi que o personagem gordinho foi o segundo a morrer. Maldito preconceito! Depois de orientais, negros, judeus, muçulmanos e albinos, pessoas acima do peso são as mais esculachadas na indústria cinematográfica.

E vale a pena também pela participação da Chiaki Kuriyama, a colegial-fofinha-psicótica-japinha-com-nariz-de-boxeadora do Kill Bill volume 1. E não, não é o mesmo uniforme de colegial nos dois filmes – o IMDb está errado.

1 comentário:

Whiskey Jack disse...

Ainda nao assisti ao filme, mas vou pegar com vc logo logo, ou depois da minha visita aérea ao Japão pra ver o filme na TV aberta, heheh.
Estou lendo os quadrinhos e só posso concordar com o que vc escreveu,
Foi uma ótima descrição da história "nada que 3 dias não resolvam"adorei esta parte, abraços e feliz ano novo.