domingo, 25 de novembro de 2007

Joana, à Contragosto*

Quando eu conheci Joana, eu ainda estava duro e sem dinheiro, vivendo de favores na casa dos meus velhos. Havia conseguido um bico como repórter num jornal Deus-Sabe-Onde, ralando as pontas dos meus dedos e com meus bagos na mão. Tinha que fazer um trabalho numa loja de instrumentos musicais quando a encontrei.

Senti o que Mario Puzo, décadas atrás, escreveu para Michael Corleone quando viu pela primeira vez Appolonia, a siciliana: o Raio. Foi como se tivesse sido tomado por um raio, desses que te faz ser o condutor da vontade divina entre o Céu e a Terra, torrando todas as suas terminações nervosas entre o topo da cabeça e a planta dos pés. Senti minhas mãos formigarem – elas queriam que eu possuísse aquela ruiva. Queriam que eu abraçasse seu corpo, suavemente, enquanto eu abaixava minha cabeça suavemente para sentir seu cheiro, perceber seus detalhes, cada ínfimo detalhe que a fazia única, imperfeita e ideal.

Mas sabia que naquele momento, estando tão duro que não podia nem trocar os pneus do meu carro (que estavam mais lisos que o cocuruto de Yul Bryner), não poderia nem conversar com ela – para aquele tipo de caso, não basta ter uma boa personalidade e um papo legal, precisa ter bala na agulha pra chegar na chincha. No primeiro momento, deixei para lá, tinha coisas mais importantes para pensar – como nas contas, nos documentos que me farão ser um cidadão completo e cumpridor de leis, e nas linhas do meu currículo. Não tinha mais idade, ou idealismo, para me aventurar com um estojo de guitarra nas costas, uma mochila na mão e óculos John-lennon.

Passei dois meses trabalhando feito um cão magrelo para conseguir fazer meu nome. E toda vez que visitava a loja de instrumentos musicais, eu passava e olhava com o canto do olho a Joana. Ela continuava lá, na dela, pensando em coisas que eu sinceramente não conseguiria compreender naquele momento. Claro que existiam outras gurias por lá, e confesso que elas eram mais interessantes em um ou outro aspecto, mas Joana era diferente.

O que a fazia diferente das outras? A idade. Confesso que sempre fui apaixonado por gurias mais velhas, e até mesmo por muito tempo saí com uma – fomos apresentados durante os dias de cursinho, a Faye. Ficamos juntos muito tempo, conhecemos São Paulo inteira – dos arranha-céus aos porões de bares no meio do Estado. Mas de uns tempos pra cá, eu confesso que ela não me empolgou mais. A gente se afastou, e eu mesmo mudei.

Ontem eu e Joana finalmente tivemos nossa primeira conversa. Depois de passar pelo pai dela, numa negociação do tipo “minha filha não é osso pra ficar na boca de cachorro”, de que eu precisava ter referências, conta em banco, CPF limpo e toda aquela coisa de Cidadão-De-Bem. Todo aquele zelo tinha um motivo – o último cara que ela teve foi um grandessíssimo filha-da-puta. Notei que ela tinha uma cicatriz na cintura, além de ter o lóbulo da orelha rasgada, “por causa de uma briga de bar”.

Mas depois de passar por tudo isso, eu finalmente consegui ouvir sua voz. Puta madre, como aquela voz era suave. Minhas entranhas gelaram, pensando no que poderia ser de mim ao lado daquela moça cheia de curvas, um corpinho estilo Pin-Up Sessentista, ruiva com algumas sardas. Depois da conversa, eu a chamei para tomar um sorvete logo ali. “Em duas semanas, que tal?”, perguntei. Ela disse sim.

... Ela não é uma graça?

***

* “Joana à Contragosto” é o nome do mais recente trabalho do escritor Marcelo Mirisola. Este conto não tem qualquer relação com a obra de Mirisola, e foi inspirado numa história fictícia publicada na Revista Playboy (a edição da Fernanda Paes Leme), escrita por Gisela Rao.

1 comentário:

Silvana disse...

é uma graça mesmo, do tipo pra casar...rs