segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Não com um estrondo, mas com um cochicho.

Xeque-Mate. Fonte: Wikimedia

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É assim que diz o ditado sobre o fim das coisas.

Não com um estrondo, mas com um cochicho. Não com uma briga, mas com um sorriso, mesmo sendo amarelo. Acabou. Meus dias como "namorido" de Ana Paula B. se tornaram passado. Pretérito.

30 de julho de 2007, data da última postagem deste blog. Ingmar Bergman decidiu entregar a partida de xadrez. Poucas horas depois, Antonioni também. Ambos deram a inspiração cinematográfica para o Destino e, o que era algumas horas antes um simples telefonema para saber como estavam as coisas no feudo jacareiense, se tornou na derradeira conversa.

Um ano e quatro meses, que começaram com uma visita insuspeita de uma caloura ao anfiteatro de uma universidade perdida onde Judas perdeu a camisinha com a companhia de seu anfitrião insuspeito, terminaram com as famosas palavras: "preciso falar sério com você".

Esperava o pior - que ela tinha 'enfeitado minha testa', destino inexorável a quase todos os homens - mas até nisso ela teve estilo. Terminou porque estava desapaixonada. E uma pessoa desapaixonada acaba fazendo esse tipo de merda: a traição. Como se estivéssemos pendurados num fucking desfiladeiro e ela cortasse a corda que nos unía. Ou não.

Fiz todo o Caminho de São Roberto Carlos e Odair José. Do estágio "negação-bebedeira-chooooorei largado", passando pelo "Estou-bem-mas-saia-daqui", o "Vou-meter-meu-pinto-no-lixo", até o "OK, estou melhorando". Os dias serviram pra colocar muita coisa em revista: o quanto a gente se compromete e os efeitos colaterais de nosso envolvimento, o quanto nos deixamos envolver, e toda a dinâmica do relacionamento entre pessoas de sexos opostos no Ocidente judaico-cristão. E, pela primeira vez desde que entrei nesse jogo como profissional (uma coisa de sete anos apenas), eu joguei limpo. Lutei o bom combate.

Não a traí (a despeito de todos os pensamentos, ações e palavras dúbias em contrário), nunca levantei a mão contra ela, a humilhei por qualquer coisa, ou a abandonei quando mais precisou de um colo (exceto uma única vez. Ela estava tão furiosa com seu emprego que deixei a raiva dela me tomar como uma febre. Fuckin' moron...). "Lutei o bom combate", como disse São Paulo antes de ir para a morte certa.

Com a ajuda dos meus amigos, eles quiseram me tirar do buraco deprimente no qual havia me metido, tudo para ter o "Velho Dinizão" (Dinizão NÃO! Sou Diniz, Dinizão é o meu velho. Literalmente) de volta às linhas de frente, de qualquer frente de batalha que pudesse aparecer. De recomendações ao "GP Guia", o famoso "Laissez Faire" ("Deixe Passar"), que eu voltasse para a bebida, que eu tentasse "um contrato de empréstimo com o outro time", colo, terapias com profissionais e com o Grande Mestre Kanafa. Para quem eu pedia conselhos, uma opinião diferente vinha.

Mas voltando ao Big Crunch, a Grande Implosão do Universo. Fazia um frio lazarento na Vila Madalena, em São Paulo. Ameaçava chover. E eu tinha esquecido o sobretudo e o buquê de rosas de diferentes cores. Mas Shinichiro Watanabe poderia me processar quando colocasse os olhos em mim. E estava tarde demais para o Anime Friends. Então me contentei com a jaqueta de brim verde-exército, a touca com uma queimadura de cigarro e uma flor que tentei apanhar, mas como por poesia o vento a espirrou para longe. Digna de Los Hermanos essa, né não?

O tempo passou e ela veio. E enquanto esperávamos os outros integrantes da comitiva de carona São Paulo-Bauru, deu tempo para um último beijo. Talvez por ser o último, aquele beijo foi o mais macio, doce e saboroso que tinha experimentado dos lábios dela.

E... Até que a gente é bom nisso, né?

Pra algumas pessoas, a vida é como um filme - com trilha sonora e tudo. Para outras, a vida é uma série de televisão, tão longa quanto "Barrados no Baile" e tão densa quanto "Serial Experiments: Lain". Nesse caso, em especial nesses 16 meses e 27 dias, foi apenas um piloto. Sim, o episódio-piloto, que os roteiristas fazem como um cartão-de-visita para os grandes canais, tentando vender o pacote inteiro e com isso fazerem grana até dizer chega.
Foi o começo de alguma coisa. O que é, eu não sei e pra ser sincero ainda não estou querendo saber onde isso vai parar.

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Dentre as coisas que ficaram como espólio não-material dessa fase da minha vida, estão o gosto por Harry Potter (coé? Jornalistas também consomem drogas. Tão ou mais fortes que um mero Harry Potter. Né não, Bial?), música 'banco e violão com cara de deprimido', uma tolerância maior ao mundo GLS (partindo da lógica "Melhor ela ter um amigo gay, que um amigo heterossexual que não sabe respeitar o namoro alheio").
Mas o que ficou mesmo foi "O Teatro Mágico". Pela poesia da coisa toda, por ela gostar de cultura forró-roots brasileira e pelos versos iniciais de "O Anjo Mais Velho", que se tornaram o epitáfio de nosso envolvimento. Da minha parte, fica:

"Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim"

Boa noite Ms. Macagnani, esteja onde estiver.

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Eleanor Rigby, morreu na igreja
e foi enterrada só com o nome dela
Ninguém veio
Padre McKenzie tira a sujeira
das mãos enquanto ele caminha da cova
Ninguém foi salvo

Todas as pessoas solitárias
De onde todas elas vem?
Todas as pessoas solitárias
De onde todas elas são?
(John Lennon & Paul McCartney, "Eleanor Rigby")

3 comentários:

Veranie disse...

Lindo texto, Dé. Lindo mesmo. Gostei do que li, se é que eu entendi o que vc quis passar.
;) bjo.

Whiskey Jack disse...

Hail!!!

Que dentre cicatrizes no coração e viagens e meses de amor e paixão, vocÊ está melhor.

Não digo bem, como as pessoa querem que estejamos após um relacionamento, mas "melhor" mesmo.
Experiências e vivências surgem em momentos como este.
Um abração a ti Diniz!

eagle disse...

queria eu ter tido o jeito com as palavras pra expressar o fim do meu relacionamento...
q fique melhor a cada novo dia... e possamos beber mais e mais juntos
bjão