domingo, 17 de junho de 2007

Magick

"Live Forever", do Oasis, foi aclamado pela eminência parda New Music Express, como o "maior hino indie jamais lançado". Cá pra nós, faz sentido.

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Ah, sim. Fui eliminado na fase final do concurso de Taubaté. Coisas da vida.
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Ah, a vida em Bauru. Eu me lembrei de novo como é ser 'casado', dividir dinheiro e tudo o mais. Coisas boas, coisas ruins. Melhor que a vida em cryo-stasis que eu andei levando no último semestre.

A volta também é por motivos mais culturais. Esperando que eu encontrasse os portões da Arcádia novamente abertos, dei com os burros n'água. Coisas da vida. Mas, como é a ordem do Universo, acontece na hora que tem que acontecer. Time will tell.

Outra coisa boa foi a descoberta tardia da apresentação ao-vivo do grupo "O Teatro Mágico". Vindos do mundo mágico de Oz-asco, fazem mais do que apenas cantar. O som deles, de orelhada, não difere muito de outras bandas do circuito alternativo que fazem o gênero folk-underground-manguebeat, como "Cordel do Fogo Encantado", o exemplo que mais puxa os meus neurônios. Se fosse apenas pelo som, passaria em brancas nuvens. Mas treino é treino, jogo é jogo; estúdio é estúdio, palco é palco. E é no palco que se ganha uma multidão - Freddie Mercury que o diga, esteja onde estiver.

GONZO ON ou "MENINOS, EU VI" - Faltava cerca de 25 minutos para as onze horas da noite na úiltima quinta-feira e a fila dobrava a esquina. As quatro esquinas do ginásio da Associação Luso Brasileira de Bauru. Uns pintados como os integrantes da trupe (como se autodenomina O Teatro Mágico), patricinhas de RP, bichos-grilos, um cara que parecia o mulato com cabelo de poodle da "Malhação", caras com a namorada implorando por um ingresso (sabendo-se das propriedades de amansa-mulher do show, todo cristão quer salvar seu relacionamento), colegas dos 'longínquos' tempos de Unesp. Por sorte, não levei a jaqueta de couro para uma estréia, aconselhado por Viv, a moça do telemarketing, ou teria um overheat e ficaria de fora do espetáculo que se viria a ser grande. Depois de uma hora de atraso, como era de se esperar de um show de tamanho calibre (facilmente chegando à marca de 2000 ingressos vendidos, número vencido apenas por artistas com exposição intermitente nos meios), um a um vão surgindo os integrantes do grupo, e começa a ser recitado o número de abertura: "Sintaxe à Vontade":

Sem horas e sem dores
Respeitável público pagão
a partir de sempre
toda cura pertence a nós
toda resposta e dúvida
todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser
todo verbo é livre para ser direto ou indireto
nenhum predicado será prejudicado
nem tampouco a vírgula, nem a crase nem a frase e ponto final!

Cada música que eles cantavam, a platéia sabia a letra de cor. Não é de graça que o nome da turnê é "Entrada para Raros". Raramente vi uma demonstração de sincronia e comprometimento entre uma banda não-convencional (segundo os padrões judaico-cristão-ocidentais) e seu público. Desde Los Hermanos em sua tour "Ventura" não tinha visto uma coisa assim.

Não apenas a poesia, mas também o punho de quem sabe o gosto da terra. Quando chamaram a atenção nos primeiros versos da canção "Comercial":

pode vir de dois de três de quatro!
eu não to aqui pagando o pato!
sem salto... sensato,
num ato falho, cê resolveu sair do armário e trocar o figurino o cara que era do contrário agora é só no sapatinho!

e me aparece na televisão!
segurando uma latinha na mão
me dizendo que o milagre da transformação
é primavera virar verão!


... à procura da palhaçada perfeita. Com esse golpe final, deve ter calado no subconsciente metade da turma que estava lá, apenas acreditando no hype.

Lá pelas tantas, enquanto a banda cantava, uma roda se abriu no meio da platéia. Não era uma briga, como foi com LH. Foi uma 'intervenção', como gosto de chamar. Gabi, uma das "bonecas de pano" - como são chamadas as personagens que executam as acrobacias de fundo das músicas, começa o número de trapezismo a menos de um metro de onde nossa comitiva estava.

Tetéia, meus filhos. Que tetéia! Um dos co-espectadores ficou embasbacado, literalmente, parecia com o Kevin Spacey em "Beleza Americana", ajoelhado e hipnotizado pela ballerina. Nessas horas eu realmente eu concordo com Cristina Quina, vereadora pelo PSDB de Jacareí, que insiste em reabrir o Circo-Escola na minha velha cidade-natal.

A temática segue a linha popular, mas tem variações que escapam do mesmo tom. Seja a celebração do popular em "Zazulejo" e "De Ontem e Hoje", o romantismo de "Ana e o Mar", ou o forró de raiz em "Camarada D´água" e covers de Cordel, grupo irmão-em-espírito, até mesmo uma improvisação com Balão Mágico, na canção que fechou o show oficial. Mas...

Fernando Anitelli, frontman e uma das cabeças criativas, sabe como um vendedor de Polishop, na falta de uma metáfora melhor, atrair o público. Mas sem cair no ridículo que erroneamente sua pintura no rosto pode demonstrar. Com personalidade, força moral e um carisma inquestionáveis, levou os pagantes pela palma da mão. Tirou palavras de ordem quando tocou em temas como mercado fonográfico e MP3, política, consciência cultural contemporânea, galanteios para a moça da primeira fila, para os roadies, para quem organizou a vinda deles para Bauru, para a platéia. Fez todos sentarem para um luau improvisado no salão de baile bauruense. Interagiu com cada uma das dezenas de bexigas lançadas ao palco, com raiva, com brincadeira. Aprendeu com os grandes show-men, não deixando de lembrar das acrobacias de Bono Vox na última passagem do quarteto irlandês U2 pelas terras tupiniquins.

Mas muita gente lá queria apenas uma coisa: a "faixa de trabalho" que os projetou para dentro do hype: "O Anjo Mais Velho", a hora que todos se congregam e cantaram até ferir suas cordas vocais:

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minh'alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar


E... como era de se esperar, fui catapultado à duas décadas no futuro, espreitando o pôr-do-sol sobre um telhado num solar republicano em São José dos Campos, quando acompanhei a massa: "Só enquanto eu respirar, eu vou me lembrar de você; só enquanto eu respirar".

4 comentários:

NandaPrado disse...

"Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minh'alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar"

Não poderia ser mais perfeito... mas eu nunca ouvi isso e nem usaria essa letra, porque o Thiago me mataria. Ele odeia esse grupo.

Depois que ouvir vou poder ter opinião sobre o som, mas não sobre o espetáculo. Tem pessoas com o dom da carisma, e isso faz toda a diferença.

Whiskey Jack disse...

Eita que o negócio foi bão hein, fio?

Fortuna e Felicidades pra vc.

abraços.

Whiskey Jack disse...

Ah, cara, eu adoro essas coisas bicho-grilo. queria muita ter estado lá.
Sinto saudades dessas coisas.

There was a time in this city...

abraços.

Vivian disse...

ai... amo amo amo amo amo Teatro Mágico...
fiquei arrepiada, com vontade de chorar e eu quero muito ir a um show deles de novo, nesse ano só rolaram 4... contra 15 do ano passado...
gostou?! impossível não gostar... queria q vc tivesse conhecido antes, mas cada coisa na sua hora... saudade... mta saudade de: Anitelli, Rafa, Edu, Willians, Charlão, Galdino, Trevisan, Louis, DJ HP, Miguelito, Gabi, Ligia, Donela e é claro Roberval... saudade dessa trupe...
Valeu pelo post... precisamos conversar sobre isso... e vc lembrou de mim em "Só enquanto eu respirar... vou me lembrar de vc"
Beijos da amiga apaixonada por TM - Vivi