quinta-feira, 31 de maio de 2007

Nova parceria Lesh-Magrones! + Tributo a Dahmer

N.A.: Na falta de perspectiva de trabalhos remunerados, aproveitemos a liberdade que só o desemprego pode trazer pra você. Com isso, entramos em nova parceria literária com Guilherme Lesh (http://grognement.blogspot.com) para a criação de um arco de 4 histórias sobre professores com sérios desvios éticos, morais, sexuais e futebolísticos.




“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”
Evangelho de S. João, cap. 8:32




- Nós estamos condenados à liberdade. Alguém aqui faz idéia do que Jean-Paul Sartre está tratando aqui?

A sala permaneceu quieta com a primeira frase. O que era realmente normal naquele caso - jovens que não sabiam o que era o existencialismo até então resolveram entrar de cabeça no grupo de estudos de Carlos Gaudi, professor de um modesto grupo de estudos.
- Imaginei.

A risada de Gaudi, cáustica e sarcástica, nervosa e teatral, enchia os quatro cantos da sala e quebrava o gelo de todos que ali estavam. Sua risada era sua marca registrada nos corredores e na sala dos professores do grupo escolar do subúrbio de São José dos Campos. Decidiu então que pegaria leve com os garotos na primeira noite. Fez um discurso en-passant sobre a vida de Sartre, explicando que ele não foi um corredor de Formula 1 na década de 80, junto com Nicola Larini e Keck Rosberg. Explicou a natureza do existencialismo, de uma forma que até mesmo uma criança de sete anos entenderia.

- Quem aqui conhece Nietzsche?
Todos levantaram a mão.
- O que vocês sabem dele?
- Que ele matou Deus, disse Paulo Gustavo, jovem com trejeitos que era um dos poucos que não tingia o cabelo e pintava as unhas de preto.
- Mas como ele fez isso? Ele congelou Deus com Nitrogênio Líquido o Todo-Poderoso e disse “Hasta La Vista, Baby”? Hahahahahaha.... Mesmo porque isso não funcionou, vocês assistiram o filme. Não meus queridos, ele tomou mais uma atitude parecida com a tomada num seriado de desenhos japoneses – sim! O seu professor já viu um anime na vida! – chamado “Lain”, recomendado para quem quer continuar tendo boa base pra discussão no nosso grupo de estudos. A heroína do seriado descobre a entidade que se diz ‘Deus da Internet’ e o derruba com uma simples frase: ‘se ninguém acredita em você, VOCÊ NÃO EXISTE.’ Foi assim que Nietzsche chegou ao axioma “Deus Está Morto”. Nós matamos Deus, quando fizemos a Revolução Francesa, quando nós usamos o raciocínio científico em cada fenômeno da natureza. Quando explicamos que a santa que aparece na janela é apenas limpa-vidros feito no fundo de um quintal. Quando ensinamos numa escola que Deus Está Morto e não há soldados batendo na nossa porta nesse exato momento porque é uma blasfêmia. Acreditem, isso acontecia há até mais ou menos uns 30 anos no Brasil, com a Tradição, Família e Propriedade. Deus é apenas uma coisa que as mães contam para os filhos ficarem com medo antes de dormirem, por mais pílulas recheadas de fé e placebo venham até nossas bocas por intermédio de São Galvão Bueno.

O orientador educacional fez menção de interromper, mas Gaudi foi mais rápido:

- Não se esqueça que estamos num país de ENSINO LAICO, meninos e meninas. Mas, continuando, essa frase de Sartre é ao mesmo tempo aterradora e ao mesmo tempo libertária. Como chegamos a esse conceito? Pegando o cadáver de Deus, crianças nojentinhas. Hahahahahaahahaha...... Sem termos um Deus sobre nossas cabeças, estamos livres para tomar toda e qualquer decisão que nos der na telha. Se quisermos explodir o mundo dois prédios de arranha-céu por vez, ótimo. Se quisermos ressuscitar o Reich, e matar todos os bolivianos que tocam flauta pan, ótimo. Se quisermos usar carne de bebê como comida-
- Como o Neil Gaiman disse?, disse Vanessa Einbrücker.
-.... Tal como o Neil Gaiman disse, ótimo. Mas não venham chorar suas pitangas e misérias depois. A liberdade é a coisa mais perigosa que se pode dar a um ser humano. Porque com essa pequena palavrinha, precisamos carregar o mundo todos os dias sobre nossos ombros, nós perdemos o calor materno-edipiano que Freud fez questão de trazer à baila no começo do nosso século, com a bênção da madrasta cocaína. Desdobramentos desse conceito no nosso próximo episódio.

E, no final da primeira palestra, Gaudi assim matou Deus, mas não como todo mundo esperava. A platéia era mais ou menos 'comprada' na ocasião: jovens bissexuais e enrustidos de periferia que se escondiam sob cabelos espetados e livros de RPG xerocados, símbolos egípcios e camisetas de heavy-metal-bands. Cada um ali queria subir em sua minúscula "sociedade dos poetas enforcados" com o cérebro, já que não contavam com músculos nos braços ou pernas para se destacar como defensores contra as hordas de hip-hoppers, skatistas, pagodeiros de botequim e demais subtribos suburbanas de um sub-país. Mas nem mesmo eles esperavam uma abordagem tão carnal de um tema tão distante dos ouvidos dos jovens.
A palestra acabou no tempo esperado, sob os olhos do coordenador pedagógico que espumava de raiva das atitudes do novo professor de Geografia, Filosofia e Sociologia do Ensino Médio – só por ser uma escola pública não quer dizer que aquela era o puteiro da mãe-joana. Oficialmente, tudo ia bem. O problema foram as conseqüências.

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Vanessa Einbrücker usava o nickname “NightWish Gode$$” nos canais obscuros do mIRC, versão medieval das salas de bate-papo. Ela decidiu abandonar apenas a pose de menina atormentada, e começou a ler livros de Aleister Crowley, apenas como jump-start. Ela não voltou mais aos grupos de estudo de filosofia existencialista. Abandonou gradualmente as roupas pretas, passou a ouvir outras músicas. Aos vinte e seis anos, foi condenada por se envolver em cultos satânicos no Amapá.
Paulo Gustavo trabalhava meio-período como recepcionista numa revista sobre noivas. Seu salário não pagava as humilhações de sua patroa, uma frígida de meia-idade. Após cinco anos, depois de conseguir uma transferência para o help-desk da companhia de telefones, passou pelo estacionamento riscando os carros dos repórteres, até urinar dentro do Volkswagen Golf recém-adquirido por Carlota Patrezzi, a dona da revista.
Mas eles ainda não sabiam que iriam fazer aquilo, Vanessa, Paulo Gustavo, Carlos, ninguém sabia. Eles sabiam apenas que a palestra de verdade ainda estava para começar. Saindo de lá, na noite de sexta-feira, fizeram apenas o percurso que fizeram tantos jovens tantas outras vezes: passaram no hipermercado para comprar destilados baratos em embalagens de plástico, refrigerante, salgados e acamparam na praça. Mas naquela noite o roteiro seria um pouco diferente.
Com mais alguns jovens sem terem muito a fazer (e cujas vidas são tão desinteressantes que nem compensa receberem menções aqui, a despeito do impacto de Gaudi, o filósofo, na vida deles) entraram no Santana 91 do professor. Os alunos pegaram carona direto para a casa do professor, sem que o orientador pedagógico (que mais tarde receberá um relato também) notasse. Na casa de Gaudi, encontraram livros, revistas, garrafas de uísque vazias e uma caixinha com a figura de um pequeno ciclista subindo os Alpes. Não precisa ser muito descolado ou "do underground" pra saber o que aconteceu quando a caixa de Pandora foi aberta.


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TRIBUTO AO HERÓI DA MINHA GERAÇÃO!
Parabéns pela 1000ª Tirinha do www.malvados.com.br! Torna nosso dia melhor, vendo a desgraça alheia.

3 comentários:

LESHRAC disse...

Sim, sim... um bom primeiro round... mas estou enferrujado demais... argh!

Whiskey Jack disse...

Aeee, muito bom o conto.
Vou terminar de ler o seguinte e depois vou visitar o blog do Lesh.

LESHRAC disse...

Magrones, essa é pra ti: http://esportes.terra.com.br/futebol/brasileiro2007/interna/0,,OI1665235-EI8817,00.html