sábado, 7 de abril de 2007

O Retrato do Blogueiro Quando Velho: Re-Publicanos.

Tá certo, tá certo. Eu SEI que é o viral pro novo Nissan Sentra®, só que como essa história é sobre um tiozão, a imagem acima bem que poderia ser a formação dos Strokes, daqui a 20 anos. Nunca se sabe.


Previously on Re-Publicanos...

********** estava no último quarto de sua vida. Aos quarenta e quatro, numa vida sedentária e nervosa, era um repórter de certa fama. Mas com uma vida familiar destruída pelo recém-divórcio, e uma conta bancária lisa como as costas de uma adolescente virgem. Só o que ELE (que poderia ser qualquer um, eu ou você) queria era retomar a vida, colocando o pé na estrada sem olhar pra trás, como na canção de Ray Charles. Só que sua última posse - o Uno Mille 1996, uma raridade na São José de 2028 - fora desfeita por seu sobrinho (um jovem universitário sem muita noção). ELE tomou as rédeas da portentosa república, na tarde de uma "Celebração" (conceito de festa universitária: uma mistura de festa, churrasco, sarau, orgia e jogo de futebol). E em uma noite ele viu tudo o que sonhou ter quando era jovem, mas nunca teve coragem de tomar para si.



Parte 3: Nayara. Para os íntimos era Ná.

Sonhos e mais sonhos. Daqueles premonitórios, eróticos, psicodélicos. Doze horas dormindo e sonhando. O sol não era páreo para meus óculos escuros. Acordei relativamente normal, com meu corpo ainda inviolado, no que se refere à festa na noite anterior. E foi naquela manhã que comecei a ver com olhos menos vidrados a minha nova posse, o Solar Paiva.
Eles não conheciam a instituição burguesa do aspirador de pó – se eu mencionasse esse instrumento do século XX, talvez fossem chamar o Wilsinho. Como todo rescaldo de festa havia vômito, camisinhas, pontas de cigarros, garrafas de cerveja (que foram todas para a reciclagem. Que juventude responsável e ecologicamente correta nós criamos!), e carne de churrasco pelo chão, até onde a vista podia alcançar. Alguns aloprados ainda estavam jogando bola no campo, tirando onda enquanto uma das meninas do Grupo de Estudos, agora com uma roupa mais normal, estava debaixo da árvore com uma garrafa de 600ml, direto e reto.

- Long Dong Neck mesmo, guria?
- Pois é… Dormiu bem, tio?

Não consegui não rir ao ouvir uma pirralha loira me chamar assim, depois de tanto tempo.


- Dormi sim. E pode me chamar pelo primeiro nome. Meu nome é-
- Tio, chega aí! Tá faltando um!
- Tem goleiro?
- Tem.
- Então vai lá dentro e coloca a caneleira, que hoje eu tô inspirado.

Aqueles meninos, eu acho, não tinham idade para ver Diego Lugano, Antônio Carlos, Índio e Júnior Baiano. Eu iria mostrar para aqueles pivetes o que era realmente um volante de futebol à moda antiga. Não que eles não soubessem o significado do futebol-arte-marcial, mas até que foram gentis comigo. Depois de vinte minutos, como para qualquer um que passou os últimos vinte anos – entre algumas pausas esporádicas – fumando como uma chaminé de fábrica e bebendo como se não houvesse amanhã, parei como qualquer um pararia.

- Já, Tio?
- Já. Acontece.
- Se separou quando?
- Como assim? Quem te deu essas intimidades, oras?
- Sou psicóloga. E você está tomando cerveja quente da minha garrafa, e se bem me lembro, a gente trepou ontem à noite. Sim, acho que tenho intimidade.
- Hunf. Formada?
- Terminando.
- Quantos anos ainda faltam?
- Amanhã encaro banca.
- Parabéns de qualquer jeito.
- Então... Quando aconteceu?
- Ontem.
- Quanto tempo durou?
- A briga ou o casamento?
- O casamento.
- Dezenove anos.
- E a briga?
- Quarenta minutos.
- Até que você está bem inteirão.
- Acha?
- Até que sim. Não tá chorando e aquilo tudo.
- Talvez. Uma hora eu vou desabar, como qualquer um desaba. Enquanto essa hora não chega, eu só quero o dinheiro que o pau d’água do meu sobrinho deve pra mim.
- Quanto?
- Dez mil reais.
- Aquele carro do senhor não valia tanto assim.
- Como não? Sabe quantos Unos 1996 ainda estão rodando praticamente inteiros por aí?
- Não.
- Poucos, guria. Eu era do Clube do Uno!
- Heh. Coisa de tiozão mesmo.
- De mais a mais, é o que eu preciso no momento. Preciso da grana pra sair daqui.
- Por quê? A República Sinhá Boça é uma das melhores da cidade, se não for a melhor...
- Primeiro que não estamos em Ouro Preto. Aqui é São José. Repúblicas, ou qualquer outra forma de democracia, não valem mais que o barro na minha calça. Segundo, como você mesma pode notar ontem e hoje, eu SOU um tiozão. Eles me querem aqui tanto quanto eu mesmo quero estar aqui.
- Nem é tão ruim assim. O povo achou você até que um cara legal. Como um professor porra-louca.
- Ah é? E quem é aquele senhor distinto que vem com o Wilson com cara de ressaca?

(Continua no próximo episódio)

1 comentário:

leshrac disse...

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http://www.clubedounobrasil.com.br/

HAUHUAHUAHUAHU