sábado, 14 de abril de 2007

Kurt Vonnegut, Jr (1922-2007) + Re-Publicanos, parte 4

Kurt Vonnegut. Escritor. Um dos melhores narradores do século XX. Apenas isso. O que pode ser dito além disso sobre ele é mera masturbação.


Bill Pilgrim:

"O fato mais importante que aprendi em Tralfamador foi que, quando uma pessoa morre, ela apenas parece morrer. Ela continua bem viva no passado, portanto é tolice chorar no seu enterro. Todos os momentos, passados, presentes e futuros, sempre existiram e sempre existirão. Os tralfamadorianos podem olhar para todos os momentos diferentes, assim como nós podemos olhar, por exemplo, para uma extensão das Montanhas Rochosas. Eles podem ver como são permanentes todos os momentos e podem olhar para qualquer momento que os interessar. É uma ilusão que temos aqui na Terra, de que um momento se segue ao outro, como contas num fio, e que, uma vez um momento tenha passado, ele se foi para sempre.

Quando um tralfamadoriano vê um cadáver, tudo o que ele pensa é que a pessoa morta está em más condições naquele momento particular, mas que essa mesma pessoa está muito bem em numerosos outros momentos. Agora, quando me dizem que alguém está morto, simplesmente encolho os ombros e repito o que os tralfamadorianos dizem a respeito de gente morta: ‘Coisas da vida’".
(trecho de "Matadouro Cinco", um de seus romances mais consagrados, tido até hoje como
uma referência na narrativa do romance moderno.)
***
Re-Publicanos, Parte 4 (e final)
Aquisições e Litígios

Vinha o Senhor Paiva, tataraneto do verdadeiro Paiva dono daquele bendito casarão. Você conhece o tipo – político, dono de imobiliária, safenado, gordo como um balão de banha e suando pela calvície. O típico chefão das políticas locais.

- O senhor é o tio do Marcelo?
- O próprio. Prazer.
- Pois bem, gostaria de saber o que está fazendo na casa do meu filho sem-
- Primeiramente, a casa do seu filho não te pertence mais.
- COMO OUSA FALAR ASSIM COMIGO E COM MEU FILHO?
- E em segundo lugar, como meu pai costumava dizer, ‘vamos baixar a bola pra conversar feito gente decente?’ Não precisa falar alto comigo, eu não sou da “Geração MP5”, eu ainda tenho audição. E ficaria agradecido se não usasse esse tom ofensivo comigo. Eu estou aqui devido a uma negociata do meu sobrinho e do seu filho. Eles pegaram uma propriedade minha, que eu confiei aos garotos – o meu carro – e venderam para fazer melhorias na casa. Logo, foram melhorias com MEU dinheiro, o que me torna sócio dessa casa. Cada festa, cada orgia, cada ‘Celebração’ que acontecer daqui pra frente, vai ter uma porcentagem beeem pequenininha no meu bolso, para despesas. O menino Wilson tem quantos anos?....
- Vinte e dois.
- Ótimo. Vinte e dois anos, então pode ser processado por peculato... ou melhor, ROUBO mesmo, que assim deixa de ser crime do colarinho-branco. Grosso modo, vocês roubaram meu carro ao vendê-lo e ficarem com o dinheiro. Então... Vai querer dar o meu dinheiro ou deixar um jornalista que conhece, e até ensinou, metade de todos os editores de jornais daqui até São Paulo, muito puto da vida? Inclusive, eu tenho um bom amigo que é advogado. Procurador do Ministério Público aqui logo ao lado. “TRUCO”.
- Foi daí que conseguiram o dinheiro pra me pagar, Wilson?
- Foi... – disse o pequeno playboy, cabisbaixo.
- Então... Agora é a minha vez de falar, amigão. Não importa quem você seja, quantos amigos tenha nos jornais mundo afora, mas isso o que está fazendo é invasão de domicílio. A casa está arrendada no nome do meu filho e ele tem domínio dessa casa, e responsabilidade em cima de todo mundo que mora embaixo desse teto. Se você entrou sem a ordem do dono, é invasão de domicílio e isso não te faz maior que um sem-teto. E que tal a gente condenar a sua pessoa por sedução de menores de quebra?
- Aqui não tem nenhum menor de idade.
- E na festa?
- Não conseguiria forjar nem a morte do ACM Neto nas minhas costas. Tenho testemunhas de que eu não fiz nada.
- Quem, seu cu-de-ampola?
- Ela.

E aprontei para a menina que ontem mesmo estava chupando o meu pau na festa dos moleques.
Era o melhor blefe que tinha no momento. E sabia que não iria funcionar, mas é como naquele momento em que a gente joga truco no escuro sem saber que o parceiro tem a mão perfeita. Ou quando as fichas saem da sua mão e acertam o feltro. Você não sabe o que tem até abrirem o jogo do outro lado.

- Ô... Qual o seu nome mesmo?
- Nayara.
- Eu fiz algum ‘ato libidinoso’ ontem com sua pessoa ou com alguém na festa, Nayara?
- Não que eu me lembre.
- Eu tenho testemunhas. Você tem uma testemunha confiável de que eu sou culpado, além do seu filhão aí?
- Não.
- E quanto ao senhor me chamar de sem-teto, você vai saber o que é sem-teto quando eu for até o orelhão do outro lado dessa rua e chamar o Movimento dos Sem-Teto, dois jornais e um canal de televisão – onde trabalhei por uns bons anos – pra contar a minha versão dos fatos. A escolha é de Sua Excelência: quantos ‘sem-teto’ o senhor vai desejar na sua propriedade? Um ou, quem sabe, uns trinta? Todos convivendo no quarto do senhorio, o filho do deputado estadual... e tudo e tal....?
- Não tenho escolha, por enquanto. Está bem. Vai ter o seu dinheiro. E eu vou permitir que more aqui.
- Muito obrigado pela consideração, deputado.

Nisso o velho foi embora, pensando como criou aquela pequena cobrinha nojenta, e como ele tinha ensinado mal o próprio filho a mentir. E enquanto o pequeno Wilson olhava mastigado em minha direção, no momento em que os outros vinham ver o que tinha acontecido, juro por Deus, não consegui segurar. Wilsinho passava perto de mim com cara de nojo quando o parei e cochichei não-tão-ao-pé-do-ouvido dele:

- Guarda o teu pai no bolso, que eu já tinha que encarar seu tipinho quando EU era universitário. E li Sanctuary o bastante quando você usava fraldas pra reconhecer um mauricinho pé-de-breque, que nem você, pela sombra.
- Seu velho nerd.
- E com orgulho.

Eu, definitivamente (assim como o Rain Man), iria gostar daquele lugar. Definitivamente.

2 comentários:

Vivi disse...

É meu amigo... gostei! mas voto para outras partes.. ou então aproveite o teu tempo para colocar novas...
Abraços da sempre Vivi

Deco Ica disse...

Curti tbm. Tem mais?