terça-feira, 10 de abril de 2007

E eu que iria resenhar '300' e falar da fala mais gay do cinema desde Brokeback Mountain...

N. A.: Uma boa amiga pediu uma colaboração, um texto sobre os Anos 80, principalmente pelo aspecto dos jogos da geração Atari. Extrapolei novamente as fronteiras e ensaiei um tratado da razão de amarem tanto os "oitenta" hoje.
Desculpem os erros de gramática mais abusivos. Preciso aprender a imprimir o que escrevo e depois corrigí-lo by myself.
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Pitfall e a Saudade

Qualquer um, com um pouco de boa-vontade e alguns minutos, pode ir até a Rede Mundial de Computadores e fazer o download do emulador (programa que faz-de-conta que é) do videogame Atari 2600. E, com isso, matar as saudades daquele monte de pixels pulando através de pântanos e bocas de jacaré em busca do ouro (em menos de vinte minutos). Se você tiver o console original (não apenas o Dactar, licenciamento brasileiro para o Atari), mais pontos para ti, meu rapaz. Se esse console funcionar, com certeza você será o deus da nostalgia de seus amigos modernéticos - com camisas estampadas com bandas desconhecidas e óculos horn-rimmed.
Esse efeito de arqueologia cultural na nova juventude inconformada brasileira não acontece apenas com o Atari, mas também com o Genius - trambolho cuja única função era fazer a sequência de cores na ordem certa, antes que se perdesse no mal da labirintite. Junto com os tênis com cheiros de chiclete e as ombreiras, o heavy-metal poser e as primeiras boy-bands (não apenas na América do Sul, como na cena européia e norte-americana), ícones da década de 1980.
"Mas por quê diabos todos querem lembrar de um tempo desses?", qualquer um pergunta. Ainda mais DESSES Anos 80, de indústria cultural, vazio e gosto requentado. Quando na mesma época surgiram fenômenos dos mais diferentes gostos: Joy Division abrindo a década dizendo que "O Amor Vai Nos Separar, Novamente"; Kraftwerk usando a informática da época como instrumento pela primeira vez, inventando o som eletrônico. Afrika Bambaata reinventando o eletrônico dos robôs de bicicleta do Kraftwerk e colocando o suíngue dançante da música "dos negros" (como era dito há 50 anos) através dos mandamentos da Zulu Nation e inventando o Miami Bass, avô do funk que toca nos morros e que desceu até o asfalto. Isso apenas para citar os maiores chavões desse tempo que, como MC Thaíde cantou no fim dos 90, era bom e que não voltava nunca mais.
Se minha opinião como remanescente da rebarba dos oitenta contar, acho que são dois os motivos bem plausíveis a repaginação dos anos oitenta. O primeiro deles é a justiça histórica. A tosquice da música, da cultura e do estilo de vida oitentista é com certeza inegável e inexorável, quando se compara o parnasianismo e o engajamento dos anos sessenta e a fúria e a contra-revolução de costumes dos setenta. A década de oitenta, perto deles, é uma década de deslumbre, ostentação (maior que os saltos-plataforma da Disco e os cabelos Big 'Fro) e falta de apuramento crítico. Duran Duran que o diga. Só que, ao contrário dos anos noventa (e aparentemente nos 00), ainda existiam heróis musicais e culturais na Década Perdida. Foi na década de 80 que muitas ditaduras caíram na América Latina. Foi nesse tempo que redescobrimos a liberdade. E foi nesse tempo também que nasceu o entretenimento eletrônico caseiro como o conhecemos - os videogames caseiros, que doutrinaram nossos tios, e até alguns de nossos pais e nós mesmos, dependendo do caso. Keystone Kapers (o jogo em que se persegue um bandido pelos corredores de um aeroporto) foi o prólogo de Max Payne da Rockstar (a empresa de jogos politicamente incorretos de maior sucesso do momento). Enduro nos preparou para Gran Turismo. Pitfall, mesmo por alguns momentos antes de cair no gigantesco escorpião no submundo da tela, não apenas doutrinou a geração anterior no que acontece conosco nos jogos de aventura. Foi quando nos ensinou a sonhar em ser Indiana Jones.
O outro motivo, como ficou meio subliminar no parágrafo acima, é a própria nostalgia. Muitos de nós só descobriram os 80 quando estavam acabando. Mesmo minha primeira lembrança dessa época foram as mortes de Cazuza ('ele morreu de AIDS, meu filho. É uma doença que dá em pessoas ruins', minha mãe disse ao jovem André de 5 anos) e Chacrinha, o Velho Guerreiro. Crescemos ouvindo Angélica, Radio Táxi, Blitz e afins. Foi algo que ficou impregnado em nosso inconsciente por associar a um tempo em que não haviam para nós preocupações como aquecimento global, preço do dólar, violência em ascendência geométrica. Até mesmo as guerras tinham um inimigo bem conhecido - o bloco soviético. Hoje não sabemos de onde virá o próximo golpe.
Bons tempos. Nosso Atari, nosso álbum de figurinhas de super-heróis japoneses. A perua da escola e a vontade de assistir Rocky IV no Domingo Maior, antes de ir pra escola na segunda. Bons tempos.


André Diniz


Jornalista desempregado, quebra-galhos e escreve quando dá no seu pequeno blog de ficção e afins: http://thecokeinc.blogspot.com

1 comentário:

Deco Ica disse...

Cara, eu tenho muito medo das coisas dos anos 80 e mesmo das do começo da década de 90. Aliás, agora você pode resenhar tbm o começo dos 90, com coisas bizarras como Vanilla Ice, Rede Manchete, Topa Tudo Por Dinheiro, New Kids On The Block e aquelas coisas coloridas e cafonas que os artistas de hip hop chamavam de roupas...

Aff...