sexta-feira, 3 de novembro de 2006

70 mil e demais devaneios.

Dia de eleição. Dia de votar. Nulo ou Lula? Não sabia no caminho, pensava nisso quando vi o odômetro (o contador de quilometragem do carro). Setenta mil. Esse carro me acompanhou bastante. Boemices tolas, paixões, separações. Medo e delírio. Cinquenta mil deles foram nas mãos de minha famiglia. Estranho pensar nisso. Ainda mais quando ele completa a marca na frente da minha antiga escola. Penso e acontece. Começa a tocar Verve. Música besta e manjada segundo alguns. Coisa de menina. Lembro dela, naquela noite. Noites educativas. Acendi um cigarro e agradeci a vida que levava. Direto com o Chefe. Sem intermediários.

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Cidade de São Paulo. Grande. Imponente. Quente. Imprevisível. Pensei em comer alguma coisa com substancia. Algo que nunca tinha feito antes. Mas era algo que eu já tinha feito antes. Um Blues Folk de Verdade me acompanhou por grandes partes do trecho na Cidade da Garoa. Precisava daquilo. Precisava conhecer mais o mundo. Mal sabia que o mundo iria se abrir um pouco mais para mim.
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O filme? O Balconista 2, de Kevin Smith. Em outras palavras de resenhista, não poderia encontrar um final melhor para aquela que era a saga mais completa sobre a vida, o amor, o conhecimento útil e fútil. Amei o filme. Não poderiam ter escolhido película melhor para fechar.

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Cidade de São Paulo. Traiçoeira. Doentia. Venenosa. Tentou me pegar novamente. Melhor sorte na próxima vez. Meu Cartão "Com Intifada" me rendeu uma honra maior que eu imaginava. Apenas acendi o cigarro da moça e segui o meu caminho. Meu coração, minha mente, meus pensamentos, já não eram apenas meus. Eu era um corpo e meia alma. Ainda sou um corpo e meia alma longe dela.

O Diabo Veste salto agulha. Minissaia e uma boina de brechó. Usa maquiagem malfeita e tem um português desgraçado.

Jorge da Capadócia
Racionais Mc's
Composição: Jorge Benjor


Jorge sentou praça
na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também
sou da sua companhia

Eu estou vestido com as roupas
e as armas de Jorge.
Para que meus inimigos tenham mãos
e não me toquem.
Para que meus inimigos tenham pés
e não me alcancem.
Para que meus inimigos tenham olhos
e não me vejam.
E nem mesmo um pensamento eles possam ter
para me fazerem mal

Armas de fogo
meu corpo não alcançarão
Facas e espadas se quebrem
sem o meu corpo tocar.
Cordas e correntes arrebentem
sem o meu corpo amarrar.

Pois eu estou vestido com as roupas
e as armas de Jorge

Jorge é de Capadócia
Salve Jorge!
Salve Jorge!

Jorge é de Capadócia
Salve jorge!
Salve jorge!

Sabia que nunca mais teria que passar por essa tentação. Não preciso mais dessa droga. Sou um homem comprometido com a Deusa de Kevin Smith.

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Fotos. Mais fotos. Uma sessão de fotos. Sentado naquele bar, vendo a luz da camera ligar e desligar. A luz da vela. A luz dos isqueiros. A luz que vinha da rua. A luz de dentro de cada alma que estava naquele lugar. Naquele lugar existiam almas. E elas vagavam pelo espaço apertado. Uma beleza sem igual. Aquela luz deixava-me feliz e ébrio. Precisava de ar. Todos precisavam de ar.
"De caipira, eu só tenho a fala e o andar".
Todos ficaram felizes naquela noite. E isso me basta. Me basta para continuar de pé.
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É curioso encontrar pessoas na noite paulistana. Um autor vendendo seus livros mesa-a-mesa. Uma moça que, cantava com a força de um tanque T-84 mas que, na minha opinião estética, parecia-se com a Fafy Siqueira num dia muito ruim. Sabrina Parlatore, no Bust Mode. Um bêbado trilíngüe nas portas do Paraíso. Aborrecentes rebeldes querendo cobrar a passagem do metrô. Exibicionistas a bordo de seus Golf GTI na Vergueiro às 4 e quarenta da manhã.
Sou normal demais para tudo isso. Mas ainda sim posso aprender um truque ou dois. Usar do meu memorário e vocabulário fanfarrão e canastrão. Despertar o velho safado para dar uma volta ou duas, sem correr o risco de parecer falso demais. Sou um gênio nisso.

Autopsicografia
(Fernando Pessoa/ Bernardo Soares)

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


Agora só espero as fotos ficarem prontas.

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