sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Roubos e Votos. Uma colagem e uma promessa. Não na mesma ordem.

Em linhas normais... Apoio você tem uma cara já. Sua trilha é apenas sua. Mas o fardo faço questão de dividir nos barrancos mais sujos.
Quem serei eu se não estiver lá pra te ajudar?
***
Agora, um pouco de diversão e sarcasmo.

DOSSIÊ FRAUDE SOBRE AS DROGAS ESQUISITÍSSIMAS - By Cardoso
(2002)


É impossível precisar o exato momento em que o ser humano iniciou o seu duradouro - e porque não dizer eterno? - caso de amor com as substâncias alteradoras da consciência. Justamente por culpa dessa lacuna é que existem um bilhão, trezentas e vinte e quatro mil teorias tentando explicar esta relação que, convenhamos, é confusa pra caralho. Apesar dos avanços da ciência, até o presente momento somos incapazes de saber com certeza se o primeiro Neanderthal tentou levantar vôo correndo em um pasto louco de cogumelo ou se o primeiro Australopithecus se divertia tostando as pontas do bigode com aquele gordo e suculento bafão da cannabis. Isso, na verdade, nem é muito importante: já vai longe a época em que a maconha e os cogumelos eram o delírio do momento.

Com o desenvolvimento da química e a expansão do tráfico de drogas, o mundo moderno tem todo um cardápio de pancas esquisitas e malucas para agradar aos mais sofisticados paladares. Para você não ficar completamente perdido em festinhas coalhadas de alternativetes e publicitários, trazemos até você o sensacional DOSSIÊ FRAUDE PARA AS DROGAS ESQUISITÍSSIMAS, que deve ajudá-lo a se mover com desenvoltura nas mais badaladas rodas da alta sociedade.

A

Anfetamina - Muitas pessoas tendem a acreditar que anfetaminas são drogas decadentes e horrendas, extremamente caras, bizarras e difíceis de serem encontradas no mercado. Pois bem: nem tudo isso é correto. Apesar de serem realmente bizarras, decadentes e horrendas, anfetaminas são extremamente baratas e muito fáceis de serem adquiridas. Em qualquer farmácia é possível comprar uma cartela de pastilhas para a garganta contendo benzidamida por menos de cinco reais. Em contrapartida, as anfetaminas têm três grandes defeitos. Primeiro, elas demoram pra caralho pra bater. Segundo, só funcionam em grandes doses misturadas com álcool. Essa combinação geralmente acaba mal: o cara bebe tanto achando que ainda não bateu que acaba vomitando tudo - inclusive as boletas. O terceiro grande problema é a ressaca supressora de sentidos, que pode se estender por períodos de até um mês. Se tem gente que chega a chorar quando enfrenta o segundo dia de ressaca de trago, imagine ficar quinze dias sem nenhum paladar. É de fuder.

B

Benzina - Ok, você tem que estar mesmo no fundo do poço pra perder tempo dando bafo por aí. Mas na hora do desespero, tem muito neguinho que curte. O cara geralmente cafunga na benzina quando tá dando uma festa improvisada justo num dos muitos períodos de “seca”, já acabou o fumo, a bebida e o pó e aí alguém descobre na garagem uma latinha de benzina seminova dando sopa. Se você tem amigos desse tipo, uma dica: mantenha-os longe da sua irmã, do seu carro e principalmente do seu banheiro. Sério. Depois não diga que eu não avisei. A benzina tem esse mérito de deixar todo mundo noiado, violento e com um cheiro insuportável de combustível. Pior: não é só cheiro. Deixe aquele cabeludo que veio de carona com a sua ex começar a brincar com o Zippo pra ver o que acontece.

C

Cogumelos - Muito em voga em colônias hippie e em praticamente todo o estado de Santa Catarina, os cogumelos são cada vez menos visados pelo doidão moderno. Cogumelos são muito difíceis de serem achados, especialmente porque os hippies que os consomem com alguma regularidade costumam acordar muito, muito cedo mesmo para colhê-los. Além disso, são assustadoramente grandes as chances de você acabar com uma tremenda caganeira dos infernos mesmo que encontre o material quente. São raras as pessoas realmente capazes de fazer um chá de cogumelos decente hoje em dia, até porque a maioria delas já não consegue mais voltar de onde quer que tenha ido parar.

D

Daime - Beberagens e xamanismos são muito perigosos para o homem urbano cagalhão e as suas tensões pós-modernas. A utilidade desse tipo de droga ritualística é fazer com que você confronte (e vença) todos os seus demônios internos. Pois bem: tente comparar os demônios internos dos índios peruanos que passam o dia fazendo cesta de palha, caçando porco do mato e fudendo aquelas índias de peito mole com os demônios internos de alguém que nasceu e se criou em uma cidade com todas as suas regras de conduta, propagandas e rádios FM. Não é uma idéia muito boa. O homem urbano cagalhão procura as drogas para fugir de alguma coisa, não para enfrentá-la. Essa é a idéia central.

E

Ecstasy - Eis aqui uma droga idiota pra caralho, que ocuparia o trono da mais imbecil de todas as drogas se não fosse pela incontestável liderança da nicotina. Pense bem: o cara paga quase cinqüenta reais por uma pílula que vai fazê-lo ficar agitado feito um adolescente excitado pelas próximas doze ou quatorze horas. Se o cara tomar água de menos, o aumento galopante da temperatura do corpo pode cozinhar todos os seus órgãos internos. Se enxugar demais, pode morrer por intoxicação causada pela água. E como saber se aquela pílula contém mesmo algum MDMA? Pra terminar, o ecstasy tem a irritantíssima propriedade de converter os seus usuários em seres cheios de amor pra dar, o que significa que pode ser que você acorde amanhã com um braço peludo apertando o seu tórax e uma bruta dor de cabeça no rabo.

F

Freebase - Se você é um chinelão fudido que mora embaixo da ponte, é bem provável que você tenha fumado mais de uma vez aquelas pedrinhas amareladas que os caras chamam de crack. Agora, se você é um rapaz bem alimentado da classe média que anda com um monte de surfistas semi-analfabetos e umas minas que usam argolas como brinco, você misturou o farelo dessas pedrinhas num baseado e saiu por aí dizendo que deu uns tapas num freebase. É tão viciante, degradante e desagradável quanto o crack mas a malandragem juvenil nem se liga. Outro ponto importante é que 90% das vezes que um rapaz bem alimentado de classe média vai buscar uma rocha pra pipar, nosso simpático negociante vai vender só a borra de todas as borras - a preço de ouro - e o máximo que o cara vai conseguir é uma fulminante e persistente tosse seca.

G

GHB - Aparentemente, o GHB foi sintetizado a partir de uma mistura de fluido de bateria com detergente. Sejamos francos: você realmente quer tomar isso? Com tanta porcaria mais divertida - e relativamente menos agressiva - por aí, você quer REALMENTE enfiar esse lixo no seu corpo? Vai fundo, o corpo é teu mesmo. Mas pense por este lado: você já percebeu o que o simples contato de uma pequena porção de detergente faz com as sua pele? E o fluido de bateria? Sabendo disso você quer mesmo misturar essas duas coisas e enfiar goela abaixo? Vou perguntar mais uma vez e depois não vou perguntar mais nada: mesmo?

H

Heroína - Depois de Kurt Cobain e Trainspotting, a heroína ganhou todo um status de droguinha trimmassa da Europa, mas a verdade é que apesar de ser mesmo a melhor de todas, a heroína é a droga que cobra o preço mais fudido pelo prazer que fornece. Não existe usuário de heroína - existe apenas viciado em heroína, aquele cara que, cedo ou tarde, vai ter que enfiar uma agulha no pescoção ou na cabeça do pau, correndo o sério risco de causar uma gangrena se errar alguns milímetros na hora da aplicação. Outro grande problema é o fato dos usuários de heroína perderem rapidinho todos os dentes e também o amor-próprio, o que pode ser um grande problema na hora de arrumar uma nova namorada - o que geralmente acontece depois que a primeira bate as botas.

I

Ice - Como se o vício de se estar permanentemente conectado à internet já não fosse um hábito ruim o suficiente, ainda inventaram esse cubinho mágico que, acrescentado ao refrigerante de nerds gordinhos, produz euforia, energia e vigor. Na verdade, o ice é uma versão mais light - mas não muito mais light - da metanfetamina, um bagulho desenvolvido pelos japoneses na segunda guerra para distribuir entre os kamikazes antes de enviá-los para a morte em seus flamantes jatos Zero. A grande desvantagem da versão moderna da droga é o fato de nerds de computador não serem muito bons pilotos - descartando-se o Flight Simulator, é lógico. Isso elimina totalmente a finalidade inicial de toda a coisa.

J

Jurema - Se você não mora na Amazônia ou tem algum contato realmente muito bom com alguém que mora por lá, é possível que você jamais venha a saber que diabos é Jurema. Mas se você já deu uma lambida na seiva de gosto horrendo produzido por essa árvore obscura, é bem possível que você não recomende a experiência nem para o seu pior inimigo. Como no exemplo do Daime, essas drogas selvagens definitivamente não são para bundinhas da cidade grande como você. Contente-se com aquela alfafa amiga, aquela farinha batizada, essas facilidades do mundo moderno. Deixe a Jurema pra lá. Sério.

K

Ketamina - Durante muitos anos a ketamina era a droga de escolha dos doidões decadentes de Hollywood, já que era conhecida por provocar gigantescos pesadelos de até três dias. Nesse meio tempo - dizem - eles faziam a festa no anel de couro da gurizada mais distraída, ao som de Bauhaus ou dos primeiros álbuns do Cure. Nos anos 90, sob a forma de tranqüilizante para cavalos, a droga voltou com toda a força para o ambiente das pistas de dança. A julgar pelo físico, inteligência, aparência e, principalmente, o hálito de diversos freqüentadores dessas pistas, torna-se bastante compreensível a sua nova onda de popularidade. Inclusive pela sodomística da coisa.

L

LSD - Você não usou nenhuma droga psicodélica de verdade se você ainda não usou LSD. E mesmo que você tenha usado, são grandes as possibilidades de você ainda não tenha usado. A grande verdade é que grande parte do LSD vendido hoje em dia não é nem um pouco confiável. Ou você acha que alguém que tomou mesmo um microponto seria capaz de ficar seis horas pululando entre flashes de laser e ouvindo ininterruptamente viciantes loops de música eletrônica? Se tem alguém numa pista de dança que tomou mesmo uma figurinha, é aquele cara travadaço ali, sentadão no meio do povo, sendo pisoteado por todas aquelas plataformas clubbers com um sorrisão inabalável rasgado no meio da cara.

M

Mescalina - Depois dos livros do Castañeda, todo mundo acha que sabe o que é mescalina, mas se você ainda não passou quinze minutos comendo os medonhos botões de mescal, duas horas vomitando as tripas e outras vinte fugindo do temível Mescalito, você não tem a mínima idéia do que isso significa. Mais uma vez, nesse caso se aplica o algoritmo das drogas xamânicas: se você usa sapatos, não as use. Quem tem sapatos tem muito a perder. Lembre-se disso e mantenha distância de experiências dissociativas. Será melhor não só para você, mas para todos os envolvidos. Indivíduos sob o efeito de mescalina só são encontrados no México - outro lugar onde é bom que você não vá de sapatos.

N

Nitroso - Todo aparelho de anestesia conta com um pequeno módulo de óxido nitroso, mas apenas os dentistas ainda o usam como anestésico principal durante os procedimentos. O gás do riso, como é popularmente conhecido, pode ser uma opção bastante divertida se você tem algum contato quente na área médica mas torna-se uma prática perigosa se você tentar as vias não convencionais. Algumas pessoas tem a manha de furar uma latinha de chantilly e aspirar o nitroso lá contido através de um mecanismo artesanal. Algumas pessoas, não todas. Principalmente não você. Se você ratear, o gás não só não vai lhe provocar risos como ainda vai CONGELAR o seu pulmão. Não tenho a mínima idéia de como isso acontece ou a sensação que provoca, mas não parece nada agradável.

O

Ópio - Em viagem pela China, Tailândia ou alguma dessas outras jóias da prostituição oriental será a sua única chance de fumar ópio. Hoje em dia ninguém mais fuma ópio, fora os velhinhos com bafo de ginseng que habitam essas bocadas assombrosas. É de bom tom esperar que o véio ofereça a parada - coisa que acontece com freqüência. Pedir um trago ou tomar o pito da mão do ancião só vai lhe causar problemas. Tenha calma e parcimônia ou o único ópio que você vai experimentar será sob a forma de morfina, horas mais tarde, quando o funcionário da embaixada lhe contar sobre o triste incidente que aconteceu com as suas pernas naquela tarde, em um bairro pouco recomendado do subúrbio de Xangai.

P

Pó - A cocaína ainda é a grande líder nas vendas de entorpecentes em todo o mundo. Não dá pra entender muito bem os motivos que levam alguém a enfiar um canudo na narina pra aspirar um pó branco que entra ardendo e cria um complexo de super-homem que se extingue em poucos minutos, mas suspeita-se que tenha a ver com um mau desenvolvimento da fase anal do sujeito. Isso também explica o porque de tantos cheiradores serem extremamente violentos e saírem quebrando o pau - e depois beijando a boca - de qualquer um que venha lhe chamar de puto. Resumindo: cocaína é muito gay. Só entre nessa se você quer acabar fornecendo o borogodó. Ou melhor: não entre nem assim. Vá fornecer seu brioco direto e pare de encher o saco.

Q

Queimar um - Depois de comer no Mc Donald´s, a atividade mais praticada pelos jovens na faixa dos 15 aos 25 anos é queimar um. Geralmente, quando se fala “queimar um” está se referindo à maconha, essa abençoada erva que caiu na desgraça de ser associada ao reggae. Se o reggae já deixa você lento, a maconha é o golpe final. Existem relatos de pessoas desenvolvendo velocidades negativas após misturar as duas coisas. Outro grande problema da maconha é o incrível futum que ela proporciona ao ser queimada. Maconheiros se conhecem pelo cheiro. Por outro lado, indivíduos sob o efeito da erva costumam ficar no canto deles, sem incomodar ninguém - a menos que estejam sem seda ou tenham esquecido como chegar em casa.

R

Rapé - Usar rapé já foi associado à nobreza e ao luxo, mas atualmente o conceito do pozinho de tabaco caiu bastante. Vendido em embalagens metálicas redondas a preços populares, o rapé vem em vários “sabores”: menta, laranja, chocolate. Todos eles têm o mesmo efeito: produzem blocos de concreto perfumado dentro do nariz do consumidor. É isso. Ponto final. Você vai lá, dá um tecão fenomenal numa carinha de rapé e não acontece nada. No dia seguinte, você acorda com um cheirão de alguma coisa adocicada que não vai embora e a sensação de ter passado a noite alimentando-se exclusivamente de canela em pó. Enfie o dedo no nariz e prepare-se para o horror.

S

Salvia Divinorum - Da mesma família da inocente Salvia oficinalis (aquela que a tua mãe põe nos pratos mais rebuscados), ela também é conhecida como menta mexicana. Dizem que está em extinção, mas dá pra encomendar via internet. É uma droga muito bizarra - em doses baixas, provoca euforia e relaxamento como a maconha mas em doses maciças tem o poder de criar personalidades sobre-humanas, fazendo com que o vivente experimente a sensação de ser um semi-deus, viajar para outros mundos e conversar com entidades iluminadas. Dizem que durante a viagem, tudo que se ouve são os discos da Enya e quando você volta, sempre tem uns Wiccas te esperando pra fazer uns passes mágicos.

T

Tabaco - Convenhamos: isso é que é droga idiota. Se você fuma um cigarro, na melhor das hipóteses, ele te dá um bafo insuportável, dentes amarelos horrendos e uma aparência abatida o tempo todo. Na pior, degeneração completa do seu rico corpinho. Se esse fosse o preço a pagar por uma viagem louquíssima com milhões de sons nunca ouvidos, cores nunca vistas e sensações nunca experimentadas, ainda assim seria de se pensar. Mas porra: a nicotina não tem nenhum efeito a curto prazo. Na verdade, o cara só percebe que ela faz algum efeito quando ela faz falta. Mas que merda de droga é essa?

U

Uva - A uva não é uma droga propriamente dita, mas provavelmente é a mãe da mais popular de todas elas: o trago. Com o trago o cara sempre vai bem: até encontrar um marido furioso, um caminhão ou um degrau quebrado pela frente. Depois disso, é só tombo.

V

Valium - Se você é uma quarentona na menopausa, até entende-se que você consuma Valium ou algum outro barbitúrico. Você merece. Já criou seus filhos, aturou seu marido e a pressão da sociedade que a fez batalhar quatro vezes mais do que qualquer outro homem para atingir a metade dos seus objetivos. Agora, se você não é uma quarentona na menopausa, o que é que você quer com um Valium? Vai te criar, moleque.

X

Xarope - Alguns chamam o DXM, componente ativo mais famoso nos xaropes para a tosse, de “robô”. Particularmente, não tenho a mínima idéia do porque desse nome. Também não sei o que tomar um vidrinho inteiro de xarope pode fazer com você. A única coisa que eu sei é que a dose ideal é muito difícil de ser atingida e se você errar, você vai parar no necrotério sem maiores sofrimentos. Ou seria com grandes sofrimentos? Agora não lembro. Fato é que tomar xarope pra ficar muito louco é o fim da picada. Bem capaz que não tem nem uma cachacinha de um pila ali na esquina pra comprar?

[Publicado originalmente na Revista Eletrônica Fraude, em 05/08/2002]

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