quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Quem falou que a boca é tua, gaijin?

Na imagem, a capa da edição carcamana da coisa. Não encontramos uma imagem da edição brasileira a contento. Lamentamos.


Nesses últimos tempos precisava desestressar. Com Faculdade, dinheiro em falta, viagens, coisas que não iam dando muito certo na minha existência, mais o cancelamento do formato standard de Vagabond, a última trincheira da minha nerdice oriental - que vai ser editado a partir de agora em grandes livros de 50 reais para pequenos burgueses se sentirem mais perto do País do Sol Nascente. Até que, de passagem, na banca de jornais da rodoviária bauruense, encontrei uma revista encadernada de capa vermelha. Não era o livro do Mao, mas era algo que continha dentro de si uma pequena revolução cultural.

Em primeiro lugar, os bandidos são os mocinhos da trama. Muito antes de Grand Theft Auto e The Sopranos. Detalhe para a primeira "cena" do mangá:

"Um Mercedes Benz de luxo preto está estacionado na porta de uma delegacia no centro de Tóquio. Duas jovens policiais chegam para ver o que é aquilo e ficam se perguntando se o carro estacionado em local proibido era de um Yakuza - membro da famigerada máfia japonesa. Entretanto, assistem a um jovem de 30 anos, de boa aparência, sair da Delega, vestindo um terno branco aparentemente muito caro. As jovens se desculpam: 'desculpe, pensamos que o senhor fosse um Yakuza'. Ele sorri como se fosse um ator de novela e diz: 'tudo bem. Eu sou um Yakuza....'".

Mais classe que isso, só se tivesse sido o Michael Corleone em pessoa. DETALHE PARA O PROCESSO: é, pela primeira vez, um quadrinho japonês:
  1. Sem personagens com olhos do tamanho de laranjas.
  2. Sem superpoderes, pessoas que voam e se locomovem na velocidade da luz.
  3. Sem apelação para cenas eróticas (toda putaria aqui tem um contexto, por incrível que pareça).
  4. Sem duelos de pancadaria em planetas nos confins do Sistema Solar ou qualquer outro lugar.
  5. Sem engenhocas futuristas, robôs, naves espaciais, teletransporte, lanças bíblicas e monstros de 30 metros mandados por Deus ou vindos da lua.
  6. Sem um bando de colegiais usando roupas sumárias para defender Tóquio de algum mal extra-dimensional (mas como já tem cenas calientes dentro do mangá, erotismo sem objetividade é perfeitamente dispensável - o povo quer é molhar o biscoito!).
  7. Sem um trio de meninas - necessariamente com cabelos vermelho, verde e azul, lutando com armaduras e armas místicas num mundo encantado e piadas com peito pequeno (na verdade, aqui só tem uma por enquanto).
  8. Sem jovens com sexualidade questionável demonstrando seus sentimentos nas entrelinhas. (Aqui só tem aquela coisa de amor homo-fraterno de amigos de pedreiragem. Japa gosta de colocar uma piada gay em alguns lugares. Francamente.)

O melhor de tudo é que está estipulado quanto tempo dura. Sem surpresas com a Conrad, pelo menos dessa vez.

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Mas, como ando com a criatividade em baixa, mando o press-release do processo para os mais desavisados.

SANCTUARY: Um jogo de poder, política e violência (do website da Conrad, Editora responsável pela impressão do quadrinho no Brasil)

Um fotógrafo com o rosto cheio de cacos de vidro - sendo retirados um a um pelo protagonista da história. Fotografias de um político de setenta e tantos anos fazendo sexo com uma garota de 20. Um homem de terno cai de 15 andares em cima de um carro. Um garoto recém-saído da escola esfaqueia a própria mão. O primeiro número do mangá Sanctuary não dá espaço para respirar - uma história policial que envolve o lado sujo da lei: no crime e no jogo de interesses da política.
A série de 12 volumes, lançada pela Conrad em julho, conta a história paralela de Akira Hôjo e Chiaki Asami. O primeiro é um gerente local da Yakuza, a máfia japonesa, e o outro é assistente pessoal de um importante congressista japonês.

Os dois fizeram um pacto: mudar o Japão através de uma revolução de bastidores. Politicamente conservador, o Congresso japonês (Dieta) é formado majoritariamente por homens com mais de sessenta anos – a política segue uma escada de favores capaz de chocar até mesmo os políticos brasileiros. Dispostos a passar por cima desse rígido código informal, Hôjo e Asami formam uma dupla imbatível: o mafioso financia e protege Asami, que começa uma escalada política.

Sho Fumimura, pseudônimo de Yoshiyuki Okamura, constrói um thriller policial em que o ritmo violento é ditado pelo traço magistral de Rioychi Ikegami, o mesmo de Crying Freeman, enquanto adiciona elementos de suspense, capturando o leitor para dentro desse Japão subterrâneo. Tanto Tokai, o violento ex-chefe de Hôjo, quanto Kyoko Ishihara, a inspetora de polícia obcecada com o mafioso, adquirem papéis decisivos ao longo da trama, que no segundo volume ganha ainda mais agilidade, ação e reviravoltas. Violência, política, sexo, poder, crime – cada vez mais Hôjo e Asami se embrenham ainda mais nessa rede. E levam o leitor junto.

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Eurico Miranda e Caixa D'água de Roppongi: Chiaki Asami (o político, de óculos) e Hojo Akira (o mafioso, atrás) tocando o puteiro no Japão dos sexagenários.


DE QUEBRA, Comentários de um cara de responsa na cena quadrinística européia (traduzidos por este seu humilde criado).

Commentary

Hojo é um Yakuza que acabou de fazer seu caminho na liderança de seu sindicato. Asami é um político jovem cravando as garras no seu caminho à uma cadeira no Parlamento. Ambos querem mudar o Japão, um de baixo, outro de cima. Ambos são amigos de longa data, e eles não vão parar enquanto não tornar o Japão numa casa-de-força global.

SANCTUARY é sobre quem e o que ficam em seu caminho, e como eles são implacáveis em se livrar da sua oposição. Hojo possui o ferozmente leal e violento Tokai para lhe dar apoio. Asami está ganhando um grupo de aliados para a formação de um um novo partido político que irá usurpar o poder de um partido dominante e estagnado. Mas cada obstáculo que remove, outro está esperando nas esquinas...

Esta ficção política está mascarada como uma saga gângster. Ou será vice-versa? É aqui onde você vai matar sua sede de O Poderoso Chefão. Quer ver violência decisiva e implacável? Veja. Quer ver estratégias políticas sendo conduzidas como campanhas de guerra de vida-ou-morte? Veja. Quer ver homens altos de terno segurando a onda diante de grandes dificuldades? Veja. SANCTUARY tem reviravoltas o bastante para mantê-lo lendo. Te dá o que você quer, mas nunca da maneira que você espera.


-- Adi Tantimedh em http://www.artbomb.net

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