quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Mais um Roubo do Cardoso. Não me leve a mal, mas é porque te amo!









Fonte: http://www.malvados.com (porque sou politicamente correto e credito tudo o que não fiz a terceiros....)
DOSSIÊ FRAUDE PARA O SUICÍDIO NOS ANOS 2000
(2002)

Para morrer basta estar vivo, já dizia um velho bêbado num final lamentável de noite abraçado a duas xuranhas de quinta categoria em alguma esquina da sua cidade favorita. Apesar da imensurável sabedoria contida nesse pequeno libelo, a maioria das pessoas não consegue lidar muito bem com a morte, à qual Neil Gaiman já se referiu como o grande momento da vida. Se friamente analisada, a morte acabará se revelando como um evento de igual magnitude, significação e força de um nascimento, apenas ao contrário. A grande diferença é que na morte não acabamos nos enfiando sufocantemente buceta adentro. Menos mal: não seria um final muito agradável de qualquer maneira.

Apesar de ser tratada com mistério e distância por quase todos os habitantes dessa ervilha disforme, a morte está sempre no nosso bico, pronta pra aparecer sem aviso e nos sacanear sem remorso. Enquanto a esmagadora maioria prefere deixar tudo isso pra lá e seguir distraída, existem aqueles control freaks que simplesmente não admitem deixar as suas vidas ao sabor do acaso e planejam cada pequena etapa de sua existência. E, existem também os que são perseguidos incessantemente por seus demônios, fantasmas e demais assombrações e que não agüentam mais o peso de ser e estar aqui e agora.

Para as esquisitas criaturas supracitadas e todos os demais adolescentes góticos do meu Brazil-zil-zil, aqui vai o DOSSIE FRAUDE PARA O SUICÍDIO NOS ANOS 2000.

Tomando a decisão

Ao contrário do que se pensa, não se toma a decisão de acabar com a vida assim, de uma hora pra outra: é um trabalho de semanas, talvez até mesmo meses. Anos não porque aí já vira fiasqueira e todo mundo aprende a não dar mais bola quando tu enche a raba de valium com vodka ou vai dar uma volta na chuva com uma faca de cozinha. A única coisa realmente importante sobre essa decisão é o fato de ela ter de ser definitiva. Se você resolveu se matar, então se mate. Não fique enrolando. Isso cria uma expectativa imensa nas pessoas que o cercam e não é legal ficar frustrando as festas dos teus inimigos, arruinando o fim de semana do coveiro e pondo por água abaixo os planos da sua mãe de alugar o seu quarto para aquele portentoso, exótico e sensual estudante angolano.

Mas o velho poeta já rezava em sua oração: cadum, cadum. Eu é que não vou me meter nas tuas decisões. Não importa como e quando você resolveu se matar: o problema é seu. E é mesmo. O problema é seu e ninguém tem nada a ver com isso. Envolver mais uma pessoa na jogada só é válido se você estiver muito afim de causar um clima de tragédia grega. Estilo mergulhar de cabeça do décimo andar de um prédio no carro do seu pai porque ele não te citou no testamento ou estourar os miolos na frente de uma platéia de 300 pessoas enquanto faz, contra a vontade, um importante discurso aceitando um prêmio na sede do Country Club. De qualquer forma, isso não é muito recomendado - se você sobreviver em qualquer uma das situações, tudo não vai passar de uma gafe fudida.

Escolhendo o método

Segundo consta, existem perto de seis milhões de maneiras de morrer, mas a maioria delas exige a presença de vírus raríssimos, disfunções corporais lentíssimas ou muita, mas muita falta de sorte. Apressar a hora da morte é um tanto complexo, mas com um pouco de pesquisa você chega a um grupo de 16 métodos comprovadamente eficazes de suicídio para escolher. Vamos a eles:

Forca - Sempre nas cabeças do top ten do suicído presidiário, o enforcamento também é bastante popular entre artistas angustiados europeus (não só os que nasceram por lá, mas também os que por qualquer razão habitam o velho mundo). O principal problema da forca no século XXI é arranjar algum lugar para pendurá-la. Num mundo dominado por uma arquitetura clean, rareiam as vigas e barras suspensas. Isso sem falar na escassez de árvores de galhos grossos e no grande equívoco que é tentar enforcar-se no chuveiro. Em 90% dos casos, o chuveiro vem abaixo e tudo que sobra pro suicida são escoriações, hematomas e uma tremenda sujeira fudida pra limpar no banheiro.

Veneno - Muito em voga nos romances românticos, o veneno vem caindo em popularidade por ter se tornado bastante ineficaz no homem contemporâneo. Assim como o hábito de consumir pequenas doses de cicuta livrou Sócrates da morte, a nossa mania de ingerir glutamato monossódico, inspirar inseticidas variados e outras brabeiras químicas praticamente nos imunizou frente a qualquer veneno disponível no mercado. O máximo que uma tentativa de suicídio venenosa pode trazer ao suicida é uma caganeira ácida persistente durante algumas semanas, o que pode lhe render alguma nhaca no reto que vá incomodar pelo menos durante o período em que terá de ficar pendurado de bruços no hospital, levando água quente no furzudum.

Tiro na cuca - É o must. Se você quer mesmo se matar, a melhor e mais rápida saída é meter um caroço no coco. Não tem erro. Quer dizer, não tem MUITO erro. O segredo aqui é escolher bem o calibre. A grosso modo, dá pra se usar a regra do quanto maior, melhor, apesar de uma bala de 22 causar um estrago realmente impressionante se conseguir penetrar a caixa craniana através do céu da boca ou coisa assim. Na maioria das vezes, contudo, não penetra e aí é que tá feita a merda. A pior coisa que pode acontecer ao tentar se matar com uma arma de fogo é você errar milimetricamente o ângulo do tiro e atingir apenas uma área não-vital do cérebro, como o movimento dos membros, por exemplo. Dessa forma você estaria muito pior do que morto: entrevado em uma cama sem poder fazer nada - nem mesmo se matar.

Afogamento - Pouquíssimas pessoas escolhem o afogamento como método de suicídio, principalmente porque vivem muito longe do litoral, açudes, rios, lagos ou qualquer outra fonte de água. A água é um dos maiores assassinos da natureza e é capaz de provocar uma morte bastante teatral, mas não é nada fácil morrer afogado de livre e espontânea vontade. Se você decidir encerrar o sofrimento no molhadinho, lembre-se de usar muita lã e encher os sapatos e qualquer bolso disponível de quantidades absurdas de concreto antes de pular na água. Uma vez que você comece a afundar, dê uma larga e entusiasmada golfada e não gaste energia tentando nadar para a superfície. Dê um alô para toda a sorte de criaturas esquisitas que de qualquer forma vão lhe devorar mais tarde e aproveite a imensidão azul enquanto vai descendo.

Beber até morrer - A saída dos covardes. Todo mundo sabe que, apesar da música do Ratos de Porão, beber até morrer é impossível. Primeiro porque se você escolher justamente esse método, é porque você já bebe e se você já bebe, não existe como morrer disso em apenas uma noite. Para estes casos, aplica-se o mesmo algoritmo do veneno. A pior parte deste método é o dia seguinte. Apesar de desejar estar morto, você estará vivo e terá de conviver com a impiedosa ressaca e a apavorante caganeira líquida que precede qualquer porre decente. E, claro, provavelmente terá esquecido porque bebeu tanto pra começar.

Cortar os pulsos - Um tanto poética demais, a morte pelos pulsos sempre foi popular por permitir - até um certo ponto - o arrependimento do suicida. Quem opta por cortar os pulsos muitas vezes está apenas tentando dar um gigantesco cagaço em outrem e, convenhamos, existem diversas maneiras de se fazer isso sem precisar envolver sangue, navalhas e a possibilidade de um erro de julgamento transformar tudo em ataúde. Por outro lado, morrer pelos pulsos pode ser uma experiência bastante relaxante. Não raramente é feito o uso de uma banheira de água quente para aquecer o corpo que vai se resfriando com a perda de sangue para tornar a morte menos traumática, creio. Mas na maior parte dos casos o que acontece é refogar-te, filho da puta, em molho pardo.

Remédios - É consenso: quem toma remédios para se matar é porque não quer se matar, só quer chamar a atenção. A não ser que você more sozinho e não receba visitas há mais de ano, esse é o mais estúpido dos métodos de suicídio. As chances de que alguém o encontre atirado em um canto com um vidro de tranqüilizantes e o leve para fazer uma constrangedora e dolorosa lavagem intestinal são imensamente grandes. E pior: algumas horas depois da experiência inesquecível, enquanto você ainda se recupera meio zonzo no seu quarto de hospital, aquela enfermeira gostosa que consideraria a hipótese de te fornecer o forogodó soltará risinhos de escárnio enquanto pensa mas que fracasso.

Gás carbônico - Um professor de religião uma vez me disse que se você respirar bem fundo em um saco de plástico sem furos durante alguns minutos você vai acabar dormindo. E, se por acaso permanecer respirando enquanto estiver inconsciente, vai pra terra dos pés-juntos sem maiores problemas. Ok, parece bom na teoria. Mas você já respirou num saco de plástico por mais de dois minutos? É praticamente impossível! Fica tudo molhado e com um cheiro de cu muito fudido, além daquele ar carregado ir aos poucos soltando todo o muco que se concentrava sólido como rocha nas paredes das tuas narinas… Resumindo: se for pra se matar, que seja menos escatológico que isso.

Pular para a morte - Voar é um sonho recorrente entre pessoas de todas as épocas e idades. Ao saltar do alto de um prédio ou da beira de um precipício, esse desejo pode ser saciado por alguns segundos antes do choque final, situação que funcionaria como uma espécie de último pedido, unindo assim o útil ao agradável. Entretanto, existem alguns perigos no salto para a morte. Uma distância mal calculada, por exemplo, pode ocasionar uma quebradeira em massa de ossos sem provocar necessariamente a morte. E perceba: fazer uma segunda tentativa tendo que se locomover em uma cadeira de rodas será um milhão de vezes mais difícil.

Atropelamento - Este método pouco ortodoxo nunca teve muitos adeptos justamente por ser pouquíssimo confiável. É impossível ter a certeza de que um atropelamento vai ocasionar a sua morte. Claro que algumas regras podem ser observadas: nada de se jogar na frente de uma moto ou Fusca, nem se deitar no chão em ruas muito largas ou de paralelepípedo. Por outro lado, existem relatos de pessoas atropeladas por Monzas ou até mesmo Opalões em alta velocidade que escaparam com apenas alguns pinos enfiados pelas juntas afora. O grande lance para atropelamentos é ficar à margem de alguma estrada onde muitos caminhões costumem passar, de preferência à noite, esperar um que venha muito no gás e virar uma cambalhota na sua frente. Se você der sorte, o motorista vai pensar ter passado por cima de uma pedra e as quatrocentas e quinze rodas do seu veículo terminarão de te imprimir no asfalto quente.

Acidente automobilístico - Apontado como uma das maiores causas de morte no mundo moderno, os acidentes automobilísticos foram a opção de grandes vultos da história como James Dean, Thelma & Louise e Ayrton Senna. A regra de ouro nos acidentes automobilísticos é a exuberância: exagere ao máximo em tudo que puder. Nada de pensar “ah, qualquer coisa perto de 100 km/h já tá beleza”. O lance é esmerilhar o ponteiro da velocidade até o seu limite e não tocar no volante em nenhum momento da trajetória. O resto pode deixar por conta da física. Mas tenha em mente que, apesar da aparente garantia de morte, sempre existe a possibilidade de se escapar ileso e ter de arcar com processos, multas e outras nhacas legais.

Homem-bomba - Filiar-se a qualquer organização terrorista ficou muito mais complicado depois de 11 de setembro de 2001, o que diminuiu muito a procura por esse método de suicídio. Entretanto, se você tiver a manha de adquirir explosivos plásticos suficientes para explodir-se em um gran finale cheio de estilo, pompa e circunstância, prefira datas comemorativas e ofereça à multidão um espetáculo verdadeiramente memorável. Sete de setembro tá aí.

Incêndio - Atear fogo ao próprio corpo é outro método de suicídio muito pouco usado por estar quase sempre associado aos atos políticos extremos. E ninguém quer morrer confundido com um maldito comunista, não é mesmo?

Overdose - Além de ser muito fácil morrer de overdose, pode anotar aí que essa é uma das melhores maneiras de passar dessa pruma melhor. O primeiro passo para quem decide se matar de overdose é restringir as opções para cocaína ou heroína. Apesar do ecstasy estar conquistando uma posição de cada vez mais destaque como droga mortal, o comprimido do amor ainda não pode ser considerado 100% garantido. Melhor caprichar naquela carreirinha ou superlotar de marrom aquela seringa esperta. Na pior das hipóteses, vai dar um barato inesquecível. Mas nem se preocupe com isso: se milhões de pessoas conseguem se matar acidentalmente brincando com drogas todos os dias, o que dizer de alguém que faz isso deliberadamente?

Metano - Provavelmente a mais deprimente forma de tirar a sua vida seja vestindo um par de meias pretas com presilhas, cuecas samba-canção de algodão e camiseta de física e enfiando a cabeça dentro de um forno aberto. Se você espera que o sentimento dominante no seu funeral não seja dor e sim pena, este é o caminho que você deve tomar. Existe apenas uma situação em que esta forma de suicídio pode tornar-se útil: vingança. Por exemplo: se você mora em um apartamento e todos os seus vizinhos forem uns filhos da puta, cole cartazes em todo o prédio convidando-os para um fabuloso suflê de couve de despedida às dez da noite, apague todas as luzes da casa e deixe a porta destrancada, com um bilhete onde leia-se algo do tipo “a porta está aberta”.

Eletricidade - Eis aqui um método infalível, porém cheio de pequenas armadilhas. Simplesmente enfiar os dedos na parte metálica de uma tomada, por exemplo, não funcionará: se você estiver realmente com muito azar, no máximo perderá a mão. Dependurar-se em fios de alta tensão em um poste na rua dá muito trabalho, atrai muita gente e é deveras vexaminoso. Surfar no trem pode ser emocionante mas é muita chinelagem. A melhor forma de morrer eletrocutado continua sendo o bom e velho barbeador na banheira. Os clássicos nunca perdem o seu valor. Morrer eletrocutado não é das coisas mais agradáveis do mundo mas - hey! - pelo menos é bastante limpo, direto e digno.

Escrevendo o bilhete de despedida

Uma vez escolhido como é que você vai encerrar a sua existência, você deve se concentrar em escrever o seu bilhete de despedida. Um suicida não é nada sem o seu bilhete de despedida. Se é pra se matar sem deixar meia dúzia de linhas que encham a cabeça de pelo menos umas vinte pessoas de culpa, melhor nem se matar. Perceba que o suicídio é, em última análise, uma forma bizarra de expressar a sua indignação, mágoa ou contrariedade frente alguma pessoa ou situação. E como você vai fazer isso? Fazendo com que alguém sinta-se verdadeiramente culpado pela sua morte.

Concentre-se no que vai escrever. Pragueje com eloqüência contra o opressivo sistema de classes, a banalidade das relações humanas ou mesmo contra o puto do seu primo que comeu a sua mulher e fugiu com toda a grana que vocês economizaram pra viajar juntos pela Itália. Não importa muito o que você vai escrever, tenha apenas claro na sua mente quem ou o que você quer atingir com esse seu ato tresloucado e jogue o máximo de culpa possível para cima dos ombros desse objeto.

Outra boa opção é ser o mais triste e ambíguo possível: se não há nenhum culpado claramente identificado na sua carta derradeira e ela é cheia de lamúrias e chorôrôs, é provável que todas as pessoas que a lerem acabem se sentindo um pouco culpadas pelo que aconteceu. Se você não tem muita manha para causar grandes desgostos, esta fórmula simples é uma excelente maneira.

Lembre-se de tratar esta tarefa como se fosse a última coisa que você fosse fazer na vida - até porque é exatamente isso que ela é. Um bilhete de suicida bem escrito pode até mesmo vir a provocar outro suicídio. Portanto capriche, campeão.

Uma vez escrito, o bilhete pode ser enviado em uma carta para parentes distantes, ficar jogado em cima da sua cama para ser encontrado alguns dias mais tarde ou até mesmo ficar em algum dos seus bolsos, para um choque mais imediato. Mas na era da internet, o melhor mesmo é criar o seu próprio “www.meunomesuicida.com” e postar lá o seu desgosto para todo o mundo ver. Com sorte, você vai estampar as páginas policiais do diário local da sua cidade e, mesmo que você não queira, vai acabar na capa de um sensacionalista londrino de qualquer forma.

Escolhendo a locação perfeita

O lugar onde se vai morrer é quase tão importante quanto a maneira escolhida. Naturalmente, um depende intimamente do outro: é completamente impossível morrer atropelado no seu apartamento no quarto andar, assim como fica muito difícil cortar os pulsos durante o batizado do afilhado do seu vizinho. Em cerca de 90% dos casos, o suicídio é cometido dentro da própria casa, atitude louvável que economiza tempo e dinheiro para um monte de gente. Não faça muita firula, ouça os especialistas. Prefira os métodos mais tradicionais e faça a merda em casa mesmo, ou o mais perto de casa possível. Ficar desaparecido durante um mês para ser encontrado com os pulsos abertos a 200 quilômetros de casa vai levantar toda a série de hipóteses mirabolantes para a polícia, especialmente quando descobrirem em uma busca de rotina aquela revista de bizarrices sexuais que um amigo te trouxe de brincadeira de Amsterdam. Para esse item, o segredo é a simplicidade. Não tem porque complicar.

Chegou o momento

Você já está convencido, o método está escolhido, o bilhete está escrito e você decidiu mesmo fazer tudo em casa: agora só falta se matar. Se você tiver um pouco de senso de humor, vista uma roupa totalmente diferente do que costuma vestir para confundir todo mundo. Se está pouco se fudendo, execute logo a tarefa.

Tenha uma boa morte e a gente se vê no paraíso (ou no inferno).

[Publicado originalmente na Revista Eletrônica Fraude, em 26/08/2002]

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