sábado, 26 de agosto de 2006

"O Corinthians Ganhou! É o Fim do Mundo!" ou "Revelações a Santo André Diniz sobre o próximo feriado prolongado"

Tudo começa numa viagem, literalmente. Era feriado e decidi ir embora de Bauru pra Jacareí e na parada para o almoço, encontro Betinho de malas tomando um café. Usando as trancinhas do Oséas. Para ter uma idéia de quem estou falando, imagine o seguinte: um cara do tamanho de um segurança de boate, tão loiro quanto Miguel Falabella, com um sorriso de orelha a orelha sempre. É o Betinho. Seria o primeiro susto da viagem.

Chegando em Jacareí, desci no centro da cidade para tomar o circular que me levaria para casa e meu descanso no feriado, quando encontrei Ana. Ela veio de longe para comprar ingressos para o Claro Q É Rock e precisava de minha ajuda para encontrar uma rua. Tomou a minha mão e saiu correndo, deixando minhas malas no ponto de ônibus para encontrar a tal travessa.

Ana e eu descíamos pela rua correndo. Procurávamos uma velha rua, uma travessa sem importância - uma veia morta na Cidade Morta. A cidade era um museu para nós. Ela olhava para mim e sorria. Sorria e dizia que aquilo era de um filme sobre três jovens na Paris da Revolução de 68. Eu sabia que era de "Os Sonhadores" mas tentava lembrar de qual filme era a cena para poder dizer que eu já havia visto o filme e que sabia do que ela falava. A Bande Ápart. Pelos espelhos das lojas da rua, via que eu não fazia a barba há algum tempo, pois parecia mais alguém que ficou anos esquecido numa prisão arcaica e acabara de sair.

Em algum lugar da cidade, o velho satanista entoava seus cânticos. Espancando seus atabaques, ele clamava o fim do mundo. Enquanto descíamos pela rua, ouvimos seu clamor pelo caos e, como por obra do caos, nos separamos. Olhei para o Céu e vi que aquele dia seria difícil. Nos céus, uma mão segurando quatro crânios se formava numa nuvem negra dentro de um céu vermelho. Na rua principal, esculturas vivas flutuavam pelo asfalto, gigantes como carros alegóricos. Cavaleiros. Do Apocalipse. Mas ao contrário dos Quatro Tormentos da Humanidade, eles eram nada mais, nada menos, compostos pelos materiais de reciclagem. O primeiro era de ferro, com engrenagens saindo de dentro de sua pança. O segundo, de plástico, reluzia como uma garrafa de água mineral ao sol - mesmo não havendo sol. O terceiro, de vidro, era verde e seu cavaleiro não tinha parte da cabeça. O último, de papel, era uma enorme dobradura.

Todos eles puxavam, juntos, uma carruagem negra. Ela vinha blindada, com vidros em insulfilm, e também flutuava com sua força motriz. Teve quem disse que lá dentro estava o próprio Cramulhão, vindo em pompa e circunstância tomar o que era dele por direito. Com direito a seu próprio séquito. Uma horda de mortos-vivos. Cada um à sua maneira: fresquinhos, pouco mortos, muito mortos, pelados, com roupa, usando roupas de mano, uniformes, todos eles. Certa hora ouvi a expressão "Banda da Graça". Como se fosse obra da Graça Divina ter trazido a todos de volta.

Não demorou muito para os mortos começarem a arranjar briga dentro da micareta no fim do mundo. Coisas pequenas no começo, como bonés tomados da multidão que se formou para ver o cortejo insólito, depois filas de banco quilométricas para sacar os últimos centavos - ninguém quer ficar pobre no dia do Juízo Final, né não? Atores globais e estrelas do futebol se acotovelavam na frente de uma alfaiataria que fazia fardas camufladas do Exército. Romário pedia uma farda e que colocasse outro nome na identificação. Algo sobre ele dever dinheiro para caras do Exército em Itumbiara. Giovanna Antonelli e Murilo Benício novamente faziam par na frente da loja. Foi quando eu passei sobre eles e estava colocando a farda também quando-

... o despertador tocou. Minha namorada estava indo trabalhar. Mas só alguém que vive no Brasil consegue ver o Apocalipse como um desfile de carnaval.



***

Moral da História:
S. João escreveu o Livro das Revelações pois em Patmos não tinha mais ninguém para acordá-lo.

***

N.A.: Um post sobre a morte. Outro sobre o fim do mundo. Daqui a pouco vou colocar uma roupa preta e sair cantando "Ring of Fire" para fazer uns trocados.

Falando nele, uma das melhores músicas de Cash na minha opinião. A história de uma piada de mau gosto para se contar no Dia dos Pais.



Johnny Cash - A Boy Named Sue (tradução)
Autor: John R. Cash / Tradução: Andréia da Fonseca Rodriguez
Um garoto chamado Sue


Bom, meu pai saiu de casa quando eu tinha 3 anos,
e ele não deixou muita coisa para mamãe e nem para
mim,
Só este velho violão e uma garrafa vazia de bebida.

Agora eu não o culpo porque ele fugiu e se
escondeu,
Mas a coisa mais malvada que ele já fez,
Foi antes de partir, quando ele veio, e me chamou
com o nome de Sue.

Bem, ele deve ter achado que era uma piada,
E isso deu em muitas risadas de um monte de amigos,
Parecia que eu tinha que lutar a minha vida
inteira.

Alguma namorada poderia rir e eu ficava vermelho,
E um cara riu e eu quebrei a cabeça dele,
Eu tenho que lhe dizer, a vida não é fácil para um
garoto chamado Sue.

Eu cresci rápido e cresci malvado,
Meu início foi difícil e meus movimentos
tornaram-se
mordazes,
Eu vaguei de cidade à cidade para esconder minha
vergonha.

Mas eu me fiz um juramento para a lua e as
estrelas,
Eu procuraria os bordéis e bares,
E mataria aquele homem que me deu aquele nome
horrível.

Bem, era Gatlandburg em meios de junho,
Eu mal cheguei na cidade e minha garganta estava
seca,
Pensei: eu vou parar e tomar uma bebida.

Num velho saloon numa rua de lama,
Ali estava numa mesa sentado,
O cachorro imundo e sarnento que me chamou de Sue.

Bem, eu soube que aquela cobra era meu doce papai,
Através uma uma foto velha que minha mãe tinha,
E eu conhecia aquela cicatriz no seu rosto e seus
olhos maus.

Ele era grande e curvado, e grisalho e velho,
E eu olhei pra ele e meu sangue gelou, e eu disse,
"Meu nome é Sue! Como você vai? Agora você
morrerá!"
Sim, isto foi o que eu disse a ele.

Bem, eu o acertei forte no meio dos olhos,
E ele caiu, mas para minha surpresa,
Veio com uma faca e cortou fora um pedaço da minha
orelha.

Eu quebrei uma cadeira atravessando seus dentes,
E nós quebramos a parede e saímos na rua,
Chutando e socando na lama e no sangue e na
cerveja.

Eu lhe digo que eu lutei como um homem forte,
Mas eu realmente não consigo lembrar quando,
Ele chutou como uma mula e mordeu como um
crocodilo.

Eu o escutei rindo,
Ele foi pegar sua arma mas eu peguei a minha
primeiro,
Ele ficou lá olhando para mim e eu o vi sorrir.

A ele disse, "Filho, este mundo é cruel,
E se um homem quer viver tem que ser durão,
E eu sabia que não poderia estar lá para lhe
ajudar.

Então eu lhe dei esse nome e disse adeus,
Eu sabia que você teria que se endurecer ou morrer
E foi esse nome que lhe ajudou a ser forte.

Agora você só lutou uma luta idiota,
E eu sei que você me odeia e você tem direito,
De me matar agora e eu não o culparei se você o
fizer.

Mas você tem que me agradecer antes de eu morrer,
Pela pedra no seu estômago e pela cuspida no seu
olho,
porque eu sou o filho da puta que te chamou de
Sue".

Bem, o quê eu poderia fazer, o quê eu poderia
fazer?
Bem, eu fiquei sem ar e joguei minha arma fora,
O chamei de pai e ele me chamou de filho,
E eu voltei com um ponto de vista diferente.

Eu penso nele agora e sempre,
Toda vez que eu tento e toda a vez que eu ganho,
E se eu tiver um filho,
Eu acho que o chamarei de,
Bill ou George, qualquer coisa menos Sue!
Eu ainda odeio aquele nome!

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