quarta-feira, 24 de maio de 2006

"Those Who Hunt Blood and Teeth Parte 3" ou "Finalmente o André Termina Alguma Coisa em Sua Saprófita Existência!"

Acordei sendo carregado pelo nosso Alfa para fora do prédio de Medicina - era a primeira lembrança que eu tinha desde o primeiro soco que troquei com o manda-chuva de Santa Kátia. "Nada mal para a primeira noite, hein?!", ele me dizia enquanto tentava ensaiar passos humanos antes que o pessoal da Segurança do campus aparecesse e levasse algum de nós embora. "Fica tranquilo que você é o último a ser levado, os outros já estão bem", ele disse antes mesmo que eu pudesse perguntar algo sobre os outros, incluindo o meu amigo. Já era quase amanhecer quando todo mundo se juntou na casa da morena de olhos fundos. Entre bandagens e baseados, todos se salvaram do "segundo jogo".

- Caio, o que diabos era aquilo ontem? A gente não ia só jogar 'rugby' com o povo de Santa Kátia?
- Então... Esse é o nosso jogo.
- Desculpa falar, mas eita jogo besta hein?

Naquele instante todo mundo parou de conversar e olhou para mim como se estivesse com um pedaço de carne amarrado ao pescoço e eles fossem tigres-de-bengali famintos, fugidos de um circo. Foi naquela hora que o Alfa me chamou para tomar um ar no quintal da casa.

- Alguma sugestão para a próxima partida?
- É que... eu não estou acostumado a ver isso acontecer fora das telas de televisão.
- Muito clichê, não? 'Turma da porrada' e afins soaria muito chupinhado, só que é algo que a gente curte fazer. Na verdade, nenhum de nós está muito familiarizado com essas coisas todas de mentalidade de jiu-jiteiro, apenas estamos pela diversão e adrenalina, ninguém na verdade leva muito isso a sério, apesar do que parece à primeira vista. Uns fazem roleta-russa, outros tiram rachas, a turma de Publicidade e Marketing cheira, a gente tira sangue dos outros.
- Tá certo, é mais uma modalidade de manisfestação urbana e o caralho, mas eu ainda não entendo a razão de saírem arranjando tretas com povo que nem conhece direito.
- Você acha que eu não conhecia o cara que trincou o seu maxilar nessa noite? Ele é meu amigo de infância. Passamos pelas mesmas coisas e temos mais ou menos a mesma cabeça. Foi uma maneira que a gente achou de se livrar um pouco do marasmo. Antes que a gente arranje briga com quem não conhece, como você disse, preferimos arranjar briga com quem conhecemos. Não é briga, é "parkour marcial" se preferir dizer.
- Mas...
- Mas agora me diga você: o que sentiu quando agarrou um extintor de pó-químico e deu com ele no queixo de um cara que você nem conhecia mas sabia que tinha que odiar, mesmo sem motivo, dentro da faculdade que te enganou por quase dois anos e meio?

(Mas que tremendo filho de uma puta. Me pegou.)

- Tá certo. Me senti bem.
- Então?
- Olha...
- Me chama de Costa.
- Olha 'Costa', eu vou pensar no assunto. Quando vai ser a próxima "partida"?
- Ainda não acertamos, mas quando tiver eu peço pro seu amigo te avisar, caso tenha um tempo em sua agenda, certo?
- Certo. Mais uma coisa que eu queria saber...
- Fala?
- O que era aquilo que você mostrou pro outro cara antes que a merda começasse nessa noite que ele ficou todo puto da vida a ponto de colocar o portão abaixo com dois chutes no ferrolho?
- Ah, é a "vantagem".
- Hein?
- É uma espécie de troféu que um lado pega do outro sempre que têm esses nossos "embates", na noite seguinte aos jogos de rugby "oficiais" das duas faculdades. Eu tinha pego o cartão de biblioteca de um dos amiguinhos deles.
- E agora, quem tem a "vantagem"?
- Eles.
- Como sabe?
- Dá uma olhada na sua carteira.

E não é que os lazarentos tinham me levado a carteira da biblioteca? Enquanto eu ria da própria ironia de toda aquela situação, a morena chegou junto à mureta onde estava com meus pensamentos, minha carteira agora mais leve e meu copo com coca.

- Como tá o queixo, bixaral?
- Tenho idade pra dar trote nos seus veteranos, minha filha...
- Pode ser: lá fora eu sou a bixete, mas é a terceira vez que venho.
- O que uma....
- Veterinária, é isso o que eu faço.
- O que uma veterinária tá fazendo no meio de um bando de jogadores de rugby com sérios problemas de comportamento?

A morena largou a bolsa do lado e começou a levantar a blusa para mim, até a altura da barriga e mostrou uma série de cicatrizes na altura do umbigo.

- Isso aqui foi da primeira vez que fiz estágio numa clínica do curso. Eu achei que tinha dopado o cachorro o bastante para ajudar meu parceiro a castrá-lo, só que eu me enganei. Ele deu com as patas e me mordeu por uns quinze segundos, até os outros me ajudarem. Depois disso, toda vez que eu fico puta com a vida eu venho até a faculdade de noite em dia de jogo e desconto. O povo sabe, até leva na boa.
- E quanto à terapia?
- O último cara com quem fiquei era da Psicologia Jr. Me chamou de transtornada e me encaminhou prum psiquiatra para me encher de remédios. Não, obrigada.
- Mais algum freak em nossa pequena família?
- Você. Um radialista trocando golpes de extintor não é exatamente a coisa mais normal na média social.
- Também te amo, sabia?
- Ligue pra alguém que se importa.
- Sério! Desde o momento que vi você bebendo vendo dois barbados saindo no braço....

(Fin)

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