terça-feira, 4 de abril de 2006

Those Who Hunt Blood and Teeth: Um Sonho Bom de Quinta à Noite.


Na foto, cena do filme "Green Street Hooligans". Realmente meu subconsciente não tem mais salvação.

N.A.: Esse vai para o Sr. R. Rocetão e demais sem-noção de bom coração que andam por aí.

Oh, diabos.

Fazia mais de seis meses que eu procurava trabalho naquela cidade maldita, pouco depois de ter me formado. Grande radialista eu iria ser, o curso de disk-jockey era apenas uma piada de mau gosto de algum reitor de merda. Foi então que um amigo resolveu me chamar para uma "partida de rugby" noturna na faculdade. "Vai ser legal, tem muita gente pra jogar, gritaria, até mesmo umas minas topam jogar. Você vai curtir. Acredite em mim". Acredite em mim, ele disse. Fácil dizer quando é alguém que paga algumas de suas dívidas e banca alguns de seus vícios quando não tem dinheiro nem para comprar os remendos de suas calças.

Tinham uns dois anos mais ou menos que eu não colocava os pés na Faculdade (Detalhe para os mais desavisados: coloquei ali em cima "Seis meses que eu procurava trabalho" mas eu antes disso me metia em venda de ingressos por 'promotoria' e outros bicos apenas para me manter sobre os pés). Um bando de gente chata, esnobes e alguns pseudogóticos, pseudopsicopatas, demais pseudo's que não merecem nem comentário. Haviam duas entradas para o campus: a "entrada da frente", a dita "social" onde os papais e as mamães e os namoradinhos e os namoridos e os amantes costumavam parar para deixar seus respectivos filhos, namorados e casos de foda ocasional para adquirirem um pouco de cultura e uma Cela Especial caso consigam terminar seus cursos. E tinha a outra, onde era a entrada do campo, perto do estacionamento. Nossa faculdade ficava nos cafundós do judas, onde nem mesmo um calango tinha coragem de morar pois morreria de fome (não mais, com nossa praça de alimentação patrocinada pelo BOB's... Nada como um pouco de dinheiro) e a pista olímpica. Bonitinho o lugar, deram uma garibada desde que eu piquei a minha mula de lá.

Cheguei com a moto e o Naldo na sequência com o Gol dele parou junto ao portão. Foi então que eu notei que todos os outros carros estavam com os faróis apagados, e unicamente umas poucas luzes estavam acesas dentro da área esportiva.

- Naldo, que porra é essa? Tu não falou que ia ter jogo essa noite?
- E vai, Zica. Fica sussegado que o jogo de hoje vai ser quente.
- Mas caralho, eu contei..... sete carros aqui e não vejo ninguém, nem uma maldita mina para fazer companhia nesse cu de mundo.
- Entra que eu te explico melhor.

Mais para dentro da área esportiva, no lugar que a gente costumava chamar de "Fodódromo", uma área mais afastada das arquibancadas onde íamos queimar um fumo e dar uns metão da vida tinha uma moto com as luzes acesas, com o motor ligado e dois caras, com máscaras de motoqueiro saindo no braço. Junto tinha uma branquelinha, quase duas vezes do meu tamanho, fumando um cigarro e com um daqueles cantis de birita que costumamos ver nas baladas mais chiques e posers. Mas saindo no braço mesmo, com vontade, com tesão de arrancar o sangue um do outro e a branquela lá, vendo tudo de camarote. Dei a volta e fui para perto da moto onde ela estava.

- Minha filha...
- Hm?
- Que pasa, hein?
- Aquecimento.
- Caray. O jogo de hoje é contra quem?
- O pessoal de Agronomia, tão vindo de Santa Kátia para jogar com a gente.
- Aaaaah sim.
- Tu é novo por aqui, né não?
- O Naldo me chamou para jogar. Faz tempo que não jogo rugby...

Ela soltou uma risadinha como se eu fosse uma criança que tivesse dito que a Lua é feita de queijo e que São Jorge mora nela. Nisso os dois olharam para minha cara e vieram, como se eu tivesse entrado no meio da pequena foda gay-em-negação dos dois. Até que o Naldo interveio:

- Calma lá que esse é o Zica, bróder meu e vai quebrar um galho hoje já que o Nico não conseguiu chegar a tempo da cidade dele.
- E ele sabe dos esquemas? - disse o que estava de capuz vermelho, enquanto o outro tentava acertar uma pedra em mim.

Aquilo me deixou puto da vida. Tava na merda, sem dinheiro, e tinha que aturar cópias piratas de "Clube da Luta" naquela altura do campeonato? Foi então que eu fui pra cima do de touca verde, um pouco ensangüentado e, enquanto dava-lhe uma rasteira, colava minha mão no brinco com a mão direita enquanto enterrava meu punho esquerdo nas fuças do bastardo.

- Alá, o magrelinho sabe mesmo entrar no braço. A gente tá bem quando o povo da Agronomia chegar...

Foi quando ouvi um buzinaço e vi que tinha uma van perto do portão que estava de novo trancado. Os caras de Santa Kátia.

(Continua)

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