sábado, 18 de março de 2006

Valley Forge, Ikari-kun e demais devaneios.

A primeira lembrança que tenho da faculdade em si é a alvorada na plataforma da estação Tietê do Metrô de São Paulo. Minhas malas desajeitadas, minha pseudoamargura, e eu. Tacanha pra arregaçar como diriam meus primos de São José. Dentro do vagão da Mafersa (que me lembra a tal MaFer, arquiteta gostosa que eu nunca vi exceto nas descrições do Japonês e do Saddam anos mais tarde), licensiada de uma fábrca de vagões de trem de Detroit, sentia-me débil e fracote como o próprio Shinji Ikari - que matei poucos dias depois na sala de meu primeiro lar.

Ainda não fumava nada. Ainda bebia pouco. Ainda tinha unicamente o "Músicas para Acampamentos" do Legião e o "From The Cradle" do Clapton como dignas posses musicais (o resto simplesmente não valia o plástico e o magnético impresso nele). Ainda vivia em uma espécie de suspensão, me livrando também dos fios que me prendiam ao nada. Um abraço ao Mirisola, meu clone envelhecido (ou seria eu o clone de Mirisola? Pelo menos saí mais bonitinho graças a Deus).

Dias antes da Plataforma Tucuruvi - Jabaquara eu ganhara meu segundo 'heartbraking' (o primeiro foi com Amanda Caju, vide posts antigos nos blogs mortos) com Mari. Por mais que eu seja um punk, um anarquista, um comunista, ooooooh Mari*..... Humbert Learns, não é mesmo? E como faixa bônus de meu estado patético eu perdera na reentrada da atmosfera um Goodfella como não esperava - o cara desenhava pra porra, oras! Depois de cinco anos, ainda pregunto ao Diretor (o Cara Lá De Cima) "Why, fockin' Shiet?" Perguntas não diminuem o trajeto. Um som, bons sapatos e um chapéu de jeans dos Marines resolvem em parte o seu problema.

Jogava xadrez. Enchia a cara e fazia maratonas de filmes - Poderoso Chefão, De Volta pro Futuro, Blade Runner/ Sci-Fi. Andava com camisa no calor desértico de Bauru - minha camiseta do Ramones, antes de perdê-la na tradução. E nas horas vagas ainda tinha tempo de arrastar um caso com Carrie, a Freak - porque eu, o Deco, ela, todos somos freaks no sentido cru da palavra. Juntamente a um choro convulsivo ao avesso, digno de Ikari-Kun. Tentei fugir, também, mas J. foi me apanhar e me levou de volta ao lar quando estava bêbado e disse "adeus, minha amante".

J. era ruiva, baixinha, uma mistura de V. com a Santa Ana Banana. Irônico como as pessoas são na verdade um mix umas das outras. Uma coisa que descobri tarde - trazia nas costas um ideograma chinês: parecido com "Ki" (Espírito) mas ela roubara da capa do livro "Kuei-Jin: Vampiros do Oriente". Francamente

Valley Forge é do caralho.

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E EU ASSINO EMBAIXO A CRÍTICA ABAIXO. ADEMAIS EU PROPONHO UM EMBARGO AO RIO DE UMA MANEIRA GERAL E DEIXAR AQUELE PEDAÇO ABENÇOADO E AMALDIÇOADO MORRER À MÍNGUA.

Gatão de Meia-Idade


O HOMEM QUE ENTORTAVA AS COLHERES

Por Kleber Mendonça Filho

A crítica brasileira pode estar se repetindo, mas talvez seja ela apenas a portadora das más notícias. Em relação ao modelo que o cinema brasileiro escolheu para "ser comercial e popular", o atual panorama é sombrio via globificação televisionada dos nossos filmes. A produção nacional seria tão mais animadora se abandonasse essa mania de fazer filmes como Gatão de Meia Idade (Brasil, 2006), sub-produto do raquitismo criativo que reflete a total influência de uma televisão de má qualidade no nosso cinema. E isso é, ao que parece, um padrão a ser seguido, vide os números de bilheteria auto-gerados de Se Eu Fosse Você, que já passaram dos três milhões de espectadores.

Gatão de Meia Idade, que não tem a carpintaria de Se Eu Fossse Você (nem terá o mesmo empurrão massificado de mídia), adapta a tirinha de jornal de Miguel Paiva para o padrão TV filmada de diversões brasileiras multiplexadas. O filme parece clamar por algum tipo de embargo federal contra comédias românticas cariocas, gênero que está virando terror.

Temos um homem de rabo de cavalo que já chegou aos 40, Cláudio (Alexandre Borges), divorciado e pai de uma filha de 12 anos (Renata Nascimento). O filme explora a relação dele com as mulheres ("comer" ou "queria comer mais") e as conversas de macho com os amigos ("essa, eu quero comer").

O filme de Antonio Carlos da Fontoura (que ano passado mostrou o socialmente delirante No Meio da Rua, no Cine PE) transmite a impressão de ter sido gerado a partir de anos de imersão exclusiva no filmar tosco, no falar simplório e nos conflitos pedestres que só uma produção televisiva ruim seria capaz de transmitir. Excluindo a projeção em 35mm, Fontoura conseguiu fazer um filme totalmente destituído de cinema.

Vendo esta obra, e isso talvez seja pior do que ressalvas à visão cinematográfica do todo, não há indícios de vida nessa narrativa que trata, no final das contas, de seres humanos, aborda temas como o amor e a solidão, homens e mulheres.

Cláudio, que seria nosso herói, o cara pelo qual deveríamos torcer, o cara bacana, só fala em clichês. Todos só falam em clichês, como se o elenco inteiro de personagens trabalhasse como telefonistas de 0800, transformando situações de vida em incidentes vazios, e reflexões naturais sobre as coisas em frases de cartão de aniversário.

Essencialmente, e perdoem a licença poética, é um filme não muito distante tematicamente do Truffaut de O Homem que Amava as Mulheres. O resultado, no entanto, sugere algo bem distante.

O elenco inclui Cristiana Oliveira como uma motoqueira que parece ter assistido a A Pequena Loja de Horrores, com Steve Martin, e o grupo de amigos inclui um quase mudo e perplexo Paulo Cesar Pereio. Sua expressão é a mesma do espectador.

PS: A trilha sonora deste filme é inacreditavelmente ruim.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, Março 2006

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