segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Gomune Oyuki - "See No Evil, Do No Evil"



Sonhei que te matei essa noite. Em algum lugar, entre "Laika" de Arcade Fire e o dia que nascia forte sobre a minha cabeça num quarto que nem é o meu, eu te matei. Com minhas mãos.

Era uma tarde sem tempo como sempre os sonhos são - um céu com a cor das caixas de sapato, papelão e nuvens de algodão, dioramas mentais que a nossa mente de vez em quando cria para emoldurar nossa vida. No lugar onde nos encontramos pela última vez. Carros passavam, os pássaros de rua ao redor, e eu a enforcava com minha mão esquerda, e a direita buscava arriar sua saia. Apenas fico feliz pelo fato do monstro medonho e covarde que todos nós temos ainda se restrinja ao mundo das idéias e dos sonhos. Ele jamais deve sair novamente.

Mas tomei seu corpo entre os transeuntes e as barracas de hot-dog. Com a vontade de ferro de um maníaco sexual, faminto por uma nova aventura. Tomei seus seios de mamilos enrijecidos - rigor mortis? - e os mordi como doces. Já não importava mais nada naquele momento. Cantarolava uma música inaudível e celebrava a sua morte. "Agora eu quero ver só".

Ver o quê? Ela, com uma tatuagem sobre os seios sem cobertura, com uma lança. Japonesa, claro - até meus sonhos são chavonísticos. Sobre o pulmão direito. Deixou minha carcaça pender para a esquerda, rodar sobre os calcanhares e cair de frente para a composição que vinha. E a sua voz rouca e agridoce - "Agora EU quero ver só."

Jamais vi nada nessa vida. Não fosse por você eu acho que veria menos ainda. Mas toda vez que leio aquela carta suja, dentro de minha mente distorcida há algo dizendo sem sombra de dúvida que eu quero voltar para aquele mesmo local, com aquele mesmo céu de papelão e ter a vingança amarga que você nunca deixou eu ter. Nem que seja para cair no trilho do trem cinco minutos depois.

Agora só me resta ir ao Credicard Hall ver Oasis. Por Noel Gallagher.

***

Levei quase dez anos para gostar de Oasis. Não vou abrir precedente e bater palma para Arcade Fire de mão beijada. Exceto por uma música, "Neighborhood #2 (Laika)".

Não pela letra mas pelo ritmo da bateria no prólogo da canção, misturado com o acordeon ao fundo que mais lembraria um cruzamento entre Ennio Morricone e Borghetti do Rio Grande, não tem como não sentir algo raspar o fundo de sua alma.

Depois vem o "Arcade-firismo" de Edison Veiga Jr.

***

"Gomune Oyuki" é uma personagem de "Lobo Solitário", quadrinho manga de autoria de Kazuo Koike e Goseki Kojima, sucesso nos anos setenta, oitenta e atualmente em sua reedição pela JBC Quadrinhos. A personagem em questão é uma artista marcial (não confundir com samurai) de rua no Japão Feudal do século XVI que é sodomizada após ser promovida a instrutora de esgrima - e busca vingança usando um artifício que os brasileiros até que estão acostumados (o peitão tatuado). Até encontrar Itto Ogami, o Lobo Solitário. Na foto é a versão feita para a televisão de sua aparição, e a atriz em questão com o parzinho de bolinhos de arroz miúdos é a Mie Azuma, (nome real Michie Azuma).

fonte: Internet Movie Database (http://www.imdb.com)

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