domingo, 22 de janeiro de 2006

Das coisas que estão na Disqueteira - Parte 2 de 3


FROM THE CRADLE - Eric Clapton.

EMPHATIC MODE: ON - Perdido no meio do lo-fi depois de um tempo, mas foi uma das coisas que manteve meus dois pés no contrabaixo por muito tempo. Essa é dedicada ao meu antigo mestre Zé Paulo, que não permitiu que eu desbundasse ao emocore, tosco-core e demais hardcores familiares.
Uma das primeiras coisas que se ensina ao baixista não é Nirvana, como é o caso da maioria de outros lugares. Talvez a foto do hippie na parede da escola, que mais tarde se tornou Jacob, o dono do lugar, tenha inspirado o espírito "não tão comercial assim" da música na cidade de Jacareí. Sendo canhoto e tendo um violão destro em minhas mãos, não era surpresa que eu iria penar como um cão para aprender a coisa mais fácil do mundo - o "blues de quinta e sétima." Duas semanas depois, estava com um pouco mais de forma. Torto, curvado sobre o instrumento, com os dedos mais arcados que o de Celso (ex-colega de turma de Jornalismo que agora trabalha como burocrata na USP e provavelmente ganha mais cobre que todos nós juntos. Ele se parece muito com aquele velho negro careca, amigo do paralítico do seriado "Oz", quando o virem, irão reconhecê-lo). Um pouco mais de tempo, saí do violão pro instrumento em si. Puta merda, não imaginava que fosse TÃO pesado. Mas foi o começo de uma grande paixão. Superada na época apenas por Mari, a "Super Mega-Fucking Blockbuster Plus" dos dias de Jacareí. Só que ao contrário do que me aconteceu com ela, eu fiquei com o baixo. O baixo, Giannini Stratossonic Bass modelo Fender Jazz. Verde escuro, cheio de hematomas, curvado como um berimbau. Mas dele eu não abri mão jamais. Na hora da partida, entrei numas de comprar - pra variar - um CD de música original. No sebo, paguei sorrindo vinte reais pelo From The Cradle enquanto minha velha mãe via com lágrimas nos olhos as duas notas de 10 saindo da minha mão. Não pela despedida, mas sim por gastar 20 reais num CD usado.

Agora, a análise técnica.

Tamanha sua genialidade, Eric Clapton nunca pôde ser caracterizado como ícone de um único gênero. Os fãs, entretanto, sabem bem que em seu íntimo, o Deus da Guitarra mantém um forte elo com o blues. Prova disso foi o lançamento do excelente From the Cradle, há exatos 9 anos. Trata-se de 16 faixas, incluindo-se clássicos de peso, que levam aos fãs a essência de um Clapton diferenciado, com alma de bluesman.

Abrindo o álbum, Blues Before Sunrise dá mostras do que vem pela frente. A sincronia perfeita entre os acordes da guitarra e o vocal propositadamente rouco de Eric fazem desta faixa a mais empolgante de todas.

Third Degree, Reconsider Baby, Hoochie Coochie Man e Five Long Years formam uma das melhores seqüências que já ouvi em um álbum de blues. Não apenas por se tratarem de quatro clássicos do estilo, mas principalmente porque Clapton os faz ficar ainda melhores. Em Third Degree, o bom e velho blues de fim de noite. A sonoridade imposta pelo Deus da Guitarra transporta o ouvinte ao Mississipi do início do século passado, quando os negros cantarolavam em tons melodramáticos. Reconsider Baby – de Lowell Fulson – traz incursões de um piano muito bem executado por Chris Stainton.

Por todos os motivos pertinentes – trata-se de uma lenda do blues - Hoochie Coochie Man é a melhor faixa de From the Cradle. Na minha modesta opinião, nenhum outro blues representa tanto o gênero quanto este. Interpretado por Eric Clapton, torna-se um ícone da música mundial. Não menos clássica, Five Long Years é um show de técnica. A guitarra nas mãos de seu Deus transcende o que há conhecido no blues. Esse é o diferencial de Clapton.

I´m Tore Down reúne elementos do dançante rock n’ roll dos anos 50. E assim como em Five Long Years, o guitarrista justifica o apelido. A calmaria que reina em How Long Blues, por sua vez, faz com que este seja um dos blues mais prazerosos já gravados. A combinação piano-gaita-violão convida os fãs a se sentarem em um canto ensolarado e "saborearem" cada um dos acordes.

Particularmente, Goin’ Away Baby é a faixa mais modesta de From the Cradle. Traz um bom balanço, é verdade, um ótimo acompanhamento de gaita, mas não chega a contagiar. Em contrapartida, Blues Leave Me Alone e Sinner’s Prayer são ideais para serem ouvidas com um bom copo de whisky nas mãos. A segunda faixa ainda ganha, mais uma vez, o vocal rouco de Clapton.

Motherless Child perde-se um pouco do estilo imposto ao álbum. Trata-se de uma faixa diferenciada, que agrupa elementos variados do blues. Vale ser ouvida com atenção.

It Hurts Me Too – clássico de Elmore James –, Someday After a While e Standin’ Round Crying são perfeitas. De todas as faixas de From the Cradle, são as únicas em que se percebe, do início ao fim, o estilo bluesman de Eric Clapton, sob todas suas influências.

E por falar em influência, Driftin’ é uma homenagem não explícita ao estilo único de John Lee Hooker. Trata-se de um autêntico boogie, com batida de pé e violão, apenas.

Groaning The Blues fecha o álbum com maestria. Clássico de Willie Dixon, o Deus da Guitarra o interpreta de forma que seu instrumento "chore" todas as notas, mesclando seu próprio virtuosismo ao estilo melodioso de BB King. From the Cradle, efetivamente, é um dos álbuns TOP da história do blues.

Autoria:
Ricardo Mituti Junior
(Editor do Guia de Blues na Internet)

PS: Foi o primeiro "trabalho novo" (fora o Acústico) que Clapton fez depois que seu pimpolho saiu pela janela do apartamento. Sad thing.


PPS: O prisioneiro de Oz que se parece com o velho Celso é o Burr Redding, interpretado por Anthony Chrisholm . Valeu PH! (Veja a foto)

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