segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Vai começar a baixaria acadêmica. Vamos ver no que que dá.

Era uma escola. O que mais poderia esperar, não é? Mais uma escola pública, portões parecendo chancelas de prisão de guerra, muros altos, barras nas paredes. Uma escola como qualquer outra.Oito e cinco da manhã. Segunda aula, Português III - Redação. Ela estava demorando demais para aparecer. Só que no fim das contas, antes mesmo que os alunos pudessem perceber, ela havia deixado seus cadernos e seus livros na mesa do professor.

- Olá gente, eu sou a Patrícia, eu vou ser sua professora nessa janela de Redação.

Imagine uma mulher saída de uma rave. Era aquilo. Morena, branquela mas não era albina. Vinha com uma blusa decotada deixando entrever uma lingerie preta, o que acabou por chamar a atenção de Walter, da penúltima carteira da coluna mais perto da janela. As gotas de suor que se juntavam no colo mostravam que ela estava atrasada, que aquilo tudo não era seu território. Ela se inscrevera como eventual no começo daquele ano, terceiro ano de Letras na universidade particular local. O scarpin vermelho que trazia nos pés era indício que não conhecia bem a realidade da Escola Estadual "Antonio Carlos Magalhães".

- Bom, vamos meter a mão na massa. Quero que vocês escrevam uma carta-
- 'Sora, que lance é esse de carta? Que coisa mais clichê que escrever carta para o Papa, para Deus...
- Não é bem isso, eu quero que façam algo mais interessante dessa vez. Eu quero que escrevam uma carta de cortejo.
- De velório? - perguntou Tainá, a filha de esteticista que costumava trabalhar em jornada-dupla.
- Não gente. As pessoas hoje vivem tão rapidamente, comendo esses 'fast-foods' tanto culturais quanto fisiológicos que não possuem mais tempo de poderem deixar seus sentimentos fluirem com naturalidade, com calma, com poesia.
- Mas poesia é coisa de viado, fessora - resmungou Fábio, do outro lado da classe.
- Não se trata de poesia. A proposta é essa: pensem em alguém que vocês querem muito. E mandem uma carta para ele como se fosse um convite para algo especial. Um jantar, uma saída, uma trepada que seja, mas sejam "líricos". Vamos ser líricos enquanto podemos, gente!
Os alunos se debruçaram aos cadernos nos primeiros minutos, o que acabou se tornando mais uma algazarra, já que "a professora é apenas substituta, não devemos respeito a essa piranha". Mas Abílio foi tirar dúvidas com a professora, sobre como deveria se referir à sua musa. Ao chegar mais perto, sentiu o aroma de shampoo emanando daqueles cabelos negros com leves mechas de vermelho, e mais perto notou que ela trazia uma tatuagem de motivo tribal na nuca.

- Professora...
- Pode me chamar de Patrícia. EU não vou ficar aqui muito tempo mesmo...
- Então, eu tenho algumas dúvidas sobre alguns termos que eu posso ou não usar aqui...
- Pode ir 'sem vergonha', aqui é um exercício de criatividade. Só não vai tornar isso um daqueles roteiros de revistinha de sacanagem, hein?

Oito e cinquenta. O sinal, semelhante a uma sirene do antigo Carandiru, tocou roucamente avisando o fim de mais um período. Apressado, Abílio foi ter com a professora, carregando sua folha surrada para demonstrar serviço. Ela olhou com atenção à nota e acenou com a cabeça.Seu rosto enrubeceu com as palavras do estudante do primeiro colegial, e um calor tomou-a de assalto no fim da carta.

"Meu anjo,
Não é todo dia que vemos uma mulher de verdade aqui por esses lados. Desculpe minhas palavras tortas e meu jeito bruto, tanto tempo convivendo entre a pobreza de espírito me trouxeram a esse mar de ingratidão. Foi então que eu comecei a perceber como o mundo poderia ser bom se eu tivesse você todo dia ao meu lado. Seus olhos flamejantes enquanto trazia um pouco de luz à minha vida, foi assim que eu acabei tomando de assalto sua vista. Quero seus olhos, quero cada gota de suor que escorre de seu colo. Quero sentir esse cheiro doce dos seus cabelos em um leito tranquilo, não ter tempo nem moral como empecilhos. Eu te quero mais do que nunca nessa vida antes insípida. Saber o gosto de sua feminilidade, deitar-me sobre sua carne macia e deixar que tudo mais vá para o inferno. Eu quero aquilo que não posso ter. Quero a minha mestra."


Na outra Segunda-feira, ela voltou à sala de aula. Alegou que seria professora pelo resto do semestre, já que a professora titular havia operado às pressas de um tumor no útero e não voltaria mais àquele ano. Ao pronunciar aquelas palavras, olhou para Abilio como se ele fosse a refeição principal e ela fosse uma somali refugiada. Entregou a redação de Abílio para a correção com um recado anotado. "Intervalo, Estacionamento. Paty", que ao ler o jovem teve um arrepio que começou em seus fundilhos e terminou em suas orelhas.No intervalo, ela o colocou na mala do seu Tempra 94 e saiu da escola. Abriu a mala do carro apenas no pátio do motel.

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